Categorizado | Orun Ayé

Desculpa, Ismael

Beijamao

Semana passada fiz um artigo comemorando meus 20 anos de carnaval e agradecendo ao mundo do samba, às escolas, por tudo que aprendi, mas é evidente que ele não é perfeito e tem defeitos que me incomodam demais.

O principal é a subserviência.

Existe uma ótica errada, e até faço parte dela, de saudades do carnaval de antigamente, um carnaval de resistência, crítico e que, se necessário, ficava ao lado do povo contra governos. Não é bem assim, de resistência foi mesmo, já que poucos gêneros ou movimentos brasileiros sofreram tanto preconceito ou tiveram que se impor como o samba, mas principalmente nós que começamos a curtir carnaval nos anos 80 crescemos com uma ótica errada.

Os anos 80 eram críticos por natureza em tudo. Era uma época de abertura política e surgimento da hiperinflação então novelas, filmes, música, futebol com a “democracia corintiana” todos aproveitaram o fim da censura para botar “a boca no trombone”. O samba foi no embalo e fez alguns enredos críticos maravilhosos principalmente vindos das mãos de São Clemente, Caprichosos e Império Serrano.

Mas passou, esses enredos cessaram e agora ficamos animados com o enredo da Mangueira com críticas ao corte de verba do prefeito Crivella. Achamos genial o “Com dinheiro ou sem dinheiro eu brinco”, uma forma de enfrentar o prefeito no palco maior com o mundo todo assistindo, mas fiz a ressalva que era uma pena que as escolas voltassem a ser críticas apenas quando mexeram com seu bolso e pedi que elas fizessem críticas a outras mazelas do país.

Fui tonto, fui ingênuo. Repetindo, tirando os anos 80 e o Império Serrano dos anos 60, as escolas sempre foram amigas do poder. Getúlio Vargas foi homenageado quando comandava o Brasil, a Beija-Flor fez enredos em prol do governo militar nos anos 70, e sempre foi estreita a ligação entre sambistas e políticos, como nos mesmos anos 80 acusavam Leonel Brizola de ajudar a Mangueira a ser campeã, nos 90 Cesar Maia varrendo a Sapucaí para aparecer, Itamar assistindo desfile ao lado de Lílian Ramos sem calcinha  ou recentemente

Eduardo Paes com chapéu panamá se metendo em desfiles e tocando tamborim. A relação sempre foi de camaradagem com o poder, de uso político do samba mesmo quando esse era comandado em quase sua totalidade por contraventores.

E agora quando achamos que poderia mudar a Liesa e as escolas se uniram a Michel Temer. Sim, o político mais execrado do momento, aquele que tem 5% de popularidade e consegue unir direita e esquerda no asco e ódio que sentem por ele. No momento em que todas as pessoas com um pouco de discernimento se afastam dele, fazem criticas a ele e vários artistas e intelectuais se unem pedindo sua saída o samba posa feliz ao seu lado.

Ok, não é uma situação fácil. Vai recusar dinheiro? É inimaginável a Liesa e nossas escolas recusando dinheiro até porque. como já falamos inúmeras vezes, falta criatividade ao nosso carnaval para buscar dinheiro que não seja da televisão e verba pública, mas em um mundo perfeito e utópico seria maravilhoso e de dar orgulho o deputado Pedro Paulo oferecer a ajuda ao carnaval e ele recusar para manter sua independência. Não recusaram.

Acabou a independência ao governo federal e assim não existe nenhuma chance de vermos enredos ou algum tipo de crítica a Michel Temer. Como criticar alguém que lhe deu dinheiro? Todas as críticas agora irão a Marcelo Crivella que retirou dinheiro das escolas, o samba carioca é assim, vai conforme o vento, nas eleições apoiavam Crivella e agora se aliam a Temer. Sempre ao lado do sistema, sempre ao lado do Status Quo.

O carnaval carioca não é a voz do povo, o carnaval carioca não está do lado daquele que perdeu direitos trabalhistas, previdenciários, emprego, que caiu o nível financeiro e de vida. Não veremos críticas a abandono de hospitais, escolas, a miséria, desemprego, corrupção, a nada.

O carnaval carioca agora é aliado daquele que responde processo por corrupção passiva e cujo amigo recebeu mala com quinhentos mil dólares. Por 13 milhões o carnaval carioca escolheu seu lado, escolheu Michel Temer.

Escolheu ser usado como massa de manobra, escolheu ser usado para rachar o PMDB do Rio que teve como um dos representantes relator que aceitou a denúncia contra Temer. Ainda aceitou a tudo isso de forma barata porque 13 milhões não são nem sombra do valor que deputados receberam em forma de emendas para votarem contra a denúncia.

Pedro Paulo era indeciso, agora é contra a denúncia graças a ajuda ao samba. Ele é bonzinho? Não, assim pavimenta o caminho de seu padrinho político Eduardo Paes ao governo do estado e o dele a prefeitura em 2022.

O presidente da Liesa saiu do encontro dizendo que a religião não iria oprimir o carnaval sem perceber que colocaram sim religião no meio quando beijaram a mão de satanás. Venderam a alma ao diabo por 13 milhões.

É uma pena porque sei que assim como tem os que adoraram esse acordo tem os constrangidos. Tem gente na foto que postei do encontro que respeito muito e sei como intimamente deve ser difícil para eles participar de algo assim.

É triste, é desolador, o carnaval provou que sem dinheiro não brinca. Não sei o que os baluartes que inventaram essa brincadeira que amamos estariam penando disso, mas humildemente só posso falar uma coisa em nome de todos os sambistas entristecidos e envergonhados nesse momento. Desculpa.

Desculpa, Ismael

Twitter – @aloisiovillar

Facebook – Aloisio Villar

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