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Encontro com Falcão

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Quem me acompanha nas redes sociais viu que postei uma foto com o gigantesco Paulo Roberto Falcão, que visitou a redação do SporTV na última terça-feira para participar do Troca de Passes, programa que trabalho na casa como editor.

Não é meu costume pedir fotos para todos aqueles jogadores e ex-jogadores que passam pela redação do canal. Primeiro, porque sempre fui bastante discreto com esse tipo de coisa, afinal não me sinto confortável com isso por ser num ambiente de trabalho. Segundo, porque não gosto de perturbar.

No entanto, pelo adiantado da hora – o Troca começou às 23h30 – estava tudo meio vazio, então não vi problemas em me aproximar, até porque eu tinha a missão de conduzir Falcão até o camarim e ao estúdio do programa. E, como ele foi extremamente solícito e agradável, pedi a foto, prontamente atendida.

Mas fiz esse preâmbulo para comentar que, muito mais do que tirar fotos, gosto de conversar com esses grandes ídolos do passado, mesmo que por poucos minutos. Afinal, bebendo dessas grandes fontes, sem dúvida posso levar algo positivo para mim na minha carreira de jornalista.

E nesse encontro – foram dois papos, um de dez minutos antes do programa, e outro, de uns cinco, após o Troca – disse a Falcão que achava o legado da Seleção de 1982 imensurável, pelo fato de ter sido um time que jogou o mais legítimo futebol brasileiro, apesar da derrota. E Falcão me deu uma resposta interessantíssima:

“Nós tínhamos líderes de vários clubes brasileiros. O Galo (Zico) e o Júnior no Flamengo, o Magrão (Sócrates) no Corinthians, o Oscar no São Paulo, o Cerezo e o Éder no Atlético… E  eram todos, além de grandes jogadores, pessoas muito inteligentes. Sabiam mexer o time de dentro do campo, sabiam ler o jogo”.

Essa resposta me chamou a atenção, pois é exatamente isso que me vem à mente ao ver o futebol de hoje. Ainda há jogadores muito habilidosos, temos um gênio que é o Neymar, mas vejo muitos jogadores dependentes de um técnico mexer no time, seja na escalação, seja no esquema, ou na estratégia em campo. Vejo jogadores muito engessados, por eles mesmos.

Não quero sob hipótese alguma minimizar o trabalho dos técnicos. Apenas constatar que não vejo os jogadores de futebol de hoje com a mesma inteligência tática e até capacidade de reação a situações adversas pela má-formação educacional e intelectual deles.

Falei a Falcão que no 7 a 1 faltou aos jogadores brasileiros discernimento tático e pessoal para entender o que estava acontecendo e, a partir de uma situação crítica, tomar as decisões corretas em campo para evitar o desastre que infelizmente ocorreu.

Falcão balançou a cabeça positivamente e emendei dizendo que alguns jogadores dessa geração atual, se estivessem na rua e um pneu de seus carrões furasse, ligariam para alguém pedindo ajuda em vez de trocar o pneu…

Papo vai, papo vem, chegamos à conclusão de que, mesmo com a reação do Brasil nas Eliminatórias e o ótimo trabalho de Tite e dos jogadores, se o futebol brasileiro quiser mudar de vez (como diria Fernando Vannucci em 2006), era necessário que a formação dos jogadores – técnica e intelectual – evoluísse muito.

É claro, amigo leitor, que esse é um longo e árduo caminho, até porque a própria educação no Brasil é um problema gravíssimo, que vai demorar muito para ser resolvido, se é que será resolvido um dia, diante de tanta roubalheira e desmandos que vemos por aí…

De qualquer forma, vale a reflexão. E valeu demais conversar por alguns minutos com um dos grandes mitos do nosso futebol. E que conversou comigo na maior humildade, mostrando a classe que exibia nos gramados do mundo todo.

No fim, disse ao Rei de Roma que não vi a Seleção de 1982 na época porque tinha apenas um ano de idade, mas que li bastante sobre ela e vi a íntegra dos cinco jogos daquele Mundial. Mas disse a ele que se existe um time que eu gostaria de ter torcido, por tudo que representou, seria esse de 1982.

Falcão sorriu e me agradeceu, dizendo que esse era o grande orgulho dele e de sua geração. A gente se cumprimentou e cada um seguiu a sua vida, mas vou guardar para sempre esse encontro.

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