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Justificando o Injustificável 2017 – Harmonia

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Estamos chegando ao fim dessa torturante viagem pelos cadernos de julgamento de 2017. O penúltimo quesito do ano é Harmonia.

Um quesito que, piso aqui todos os anos, não tem seus pontos de corte bem definidos no manual do julgador, o que sempre complica não só o julgador para fazer o seu trabalho como também os comentários ao trabalho do mesmo.

Alias, a cada ano que passa a onda de se julgar o carro de som aqui está mais forte. É correto? Difícil de responder: o manual não é nada claro e não dá indicio para o sim ou não.

Na Série A o problema foi resolvido criando um subquesito para o carro de som no quesito. Não é a melhor solução na minha opinião, mas ao menos é uma solução. Melhor do que a zona nebulosa que ainda se encontra no Grupo Especial.

Lembrando que a harmonia só avalia o canto. Ou seja, se a escola passa apenas andando e cabisbaixa mas cantando, a nota em harmonia deveria ser dez.

Módulo 1

Julgadora: Deborah Levy

Notas

  • Tuiuti – 9.7
  • Grande Rio – 10
  • Imperatriz – 9.9
  • Vila Isabel – 10
  • Salgueiro – 10
  • Beija-Flor – 10
  • Ilha – 9.8
  • São Clemente – 9.9
  • Mocidade – 9.9
  • Unidos da Tijuca – 10
  • Portela – 10
  • Mangueira – 10

Aqui já começo com um grande dilema desse quesito. A julgadora tirou décimo de Mocidade e Imperatriz porque “houve uma acentuada de volume entre o puxador principal e os de apoio, estando estes últimos muito abaixo, o que prejudicou a totalidade do canto da escola, fazendo com que o refrão se tornasse demasiadamente acentuado em relação as outras estrofes.”

Volto a perguntar: até que ponto isso é culpa da escola e até que ponto isso é ponto do péssimo serviço de som da Sapucaí, que esse ano foi ainda pior? Se for culpa da LIESA, a escola não pode ser penalizada.

Alias, sabendo-se dos problemas crônicos do som da Sapucaí, é justo que o carro de som seja julgado? Vejam, nem estou aqui perguntando em teoria; estou perguntando na prática, com o sistema de som falho como o atual. Na teoria, todos devem saber que a minha opinião já é contrária.

Outro caso complicado é o da São Clemente. A julgadora deu 9.9 justificando que o “andamento acelerado do samba comprometeu a participação dos componentes tornando a frase ‘foi assim que descobriu nessa festança que havia comilança em sua pátria mãe-gentil’ de difícil compreensão”. E a falta de canto? Nenhuma vírgula. Se teve uma escola que não cantou este ano, essa escola foi justamente a São Clemente. Foi uma harmonia, muito mas muito inferior as outras, até mesmo da Tuiuti.

E ainda ignorou o atravessamento de canto ocorrido em diversas ocasiões em frente a este módulo. Como diria o Migão, 9,5 só se o puxador cantar “Atirei o Pau no Gato” no desfile ao invés do samba oficial?

Na Ilha ela retirou ponto porque em várias alas, de forma geral no desfile, muitos componentes cantaram apenas no refrão. Devo concordar que, apesar da Ilha apresentar razoável volume de canto, realmente havia um punhado de componentes que só cantava no refrão principal. Porém descontar a Ilha por isso e nem mencionar a falta de canto da São Clemente?

Não julgo o dez da Unidos da Tijuca. Como a própria julgadora relatou nas considerações finais, apesar dos problemas a escola cantou bastante, mesmo que chorando, e cumpriu todos os requisitos de Harmonia.

Por fim, uma justificativas ficou no ar, incompletas. Na Tuiuti, ela justificou que teve “passagens com falta de entrosamento entre ritmo e canto”. Quais passagens? Até teve realmente, eu percebi isso na frisa, mas precisa citar.

De resto, justificativas com detalhes e pertinentes ao quesito.

Ao fim, um caderno mediano. Sendo uma julgadora novata e currículo musical, cabe um voto de confiança para a melhora no futuro.

Módulo 2

Julgador: Humberto Fajardo

Notas

  • Tuiuti – 9.7
  • Grande Rio – 10
  • Imperatriz – 9.9
  • Vila Isabel – 9.8
  • Salgueiro – 10
  • Beija-Flor – 10
  • Ilha – 9.8
  • São Clemente – 9.7
  • Mocidade – 10
  • Unidos da Tijuca – 9.9
  • Portela – 10
  • Mangueira – 10

Fajardo tem um bom histórico de julgamento e foi um dos poucos a não cair de nível esse ano. Todas as justificativas embasadas e com dosimetria entendível. Ainda que vez ou outra eu discorde um pouco, mas dentro dos limites das discordâncias normais da subjetividade.

Contesto um pouco a retirada de 2 décimos da Vila Isabel por “canto sem entusiasmo” de 6 alas. Vejam, não foi falta de canto, foi canto arrastado. 2 décimos não é muito? Ainda mais se compararmos que a Ilha perdeu os mesmos décimos por 4 alas cantarem apenas o refrão principal (algo mais grave).

Ainda nesse ritmo, a perda de 3 décimos da São Clemente por oito alas cantando somente o refrão além de uma embolada no canto de um verso ficou muito barato. Pela mesma dosimetria acima era para 4 ou até 5 décimos a menos.

Outra característica desse julgador é pegar no pé de puxador que usa muitos cacos. Esse ano ele tirou pontos de dois deles por isso: Tuiuti (Wantuir) e, claro, Unidos da Tijuca (Tinga) mais uma vez. Se o julgador já havia retirado décimo do Tinga por isso em 2015, imagina esse ano.

Importante ressaltar que o julgador nas considerações finais dos dois dias reclamou do posicionamento da caixa de som em cima do camarote. Isso o atrapalhou a julgar o quesito. Como solução ele disse que a posição da caixa de som deveria ser mais alta, direcionada para a arquibancada, liberando o camarote da comissão julgadora para ouvir o canto da escola.

Aqui concordo completamente com o julgador. Se na fila B das frisas já é difícil acompanhar o canto da escola, pior ainda deve ser no camarote.

Módulo 3

Julgador: Celia Souto

Notas

  • Tuiuti – 9.7
  • Grande Rio – 10
  • Imperatriz – 9.9
  • Vila Isabel – 10
  • Salgueiro – 9.9
  • Beija-Flor – 10
  • Ilha – 9.9
  • São Clemente – 9.8
  • Mocidade – 10
  • Unidos da Tijuca – 9.9
  • Portela – 10
  • Mangueira – 9.9

A primeira coisa que me salta aos olhos é a diferença de percepção desta julgadora em relação ao julgador acima, sendo que ambos estavam um do lado do outro no módulo duplo.

Na Tuiuti, Fajardo viu duas embolações crônicas em 2 versos do samba e um excesso de cacos do puxador. Já Celia Souto não viu um canto forte, com muita alteração de frequência em nada menos que nove alas. Os dois julgadores viram coisas completamente diferentes estando um do lado do outro!

Na Imperatriz, Fajardo só viu uma embolação crônica em um verso. Celia viu falta de entrosamento entre ritmo e melodia, especialmente em 4 alas. Na Vila Isabel, ela não viu o canto arrastado de Fajardo e deu 10.

Na Ilha, foi ela quem viu excesso de cacos do Ito e oscilação no andamento do samba. Ao menos os dois perceberam falta de canto fora dos refrões. Só que um viu isso em 4 alas e a outra viu isso em oito alas. Só o dobro.

Na São Clemente ela viu falta de “garra e empolgação” em 4 alas (só?) e só tirou 1 décimo. Particularmente tenho minhas reservas com essa “garra e empolgação”, que o quesito harmonia não exige. Mas ela só viu isso na muda São Clemente?

Pelo menos ela foi coerente e tirou 1 décimo pela falta de garra e empolgação na Unidos da Tijuca. Porém, o motivo de desconto foi completamente diferente do motivo do desconto do Fajardo.

Por fim ela penalizou a Mangueira porque, graças ao buraco gigante, a escola ficou sem o canto de samba-enredo em frente ao módulo. É uma justificativa limítrofe entre evolução e harmonia e levanta uma questão interessante. Nesses buracos gigantescos como Mangueira 2017 e Beija-Flor 2015, a não existência de componentes cantando o samba naquele pedaço permite o desconto em harmonia?

A questão é interessante e exige uma clarificação no manual de julgador da LIESA. Da forma dúbia que está, não dá para reclamar nem do desconto da Celia nem da nota dez do Fajardo.

Mas, ainda sim, percebam como, apesar de um estar do lado do outro, parecem que os dois julgadores viram desfiles completamente diferentes.

Módulo 4

Julgador: Jardel Maia

Notas

  • Tuiuti – 9.7
  • Grande Rio – 10
  • Imperatriz – 10
  • Vila Isabel – 9.8
  • Salgueiro – 10
  • Beija-Flor – 10
  • Ilha – 9.8
  • São Clemente – 9.9
  • Mocidade – 10
  • Unidos da Tijuca – 9.9
  • Portela – 10
  • Mangueira – 9.9

Como não é novidade, Jardel usa bastante uma linguagem mais técnica. De qualquer forma em quase todas as justificativas dá para entender os motivos dos descontos, mesmo que alguns deles fiquem muito próximos do limite da subjetividade. Porém para mim ficou faltando maiores explicações sobre Unidos da Tijuca e Mangueira, sendo que pelo menos da primeira até dá para se entender sabendo do contexto do desfile.

Unidos da Tijuca: “Apesar da escola prometer musicalmente no início do desfile, houve uma oscilação considerável do andamento do samba. Essa variação da velocidade interferiu negativamente na fluência da música/harmonia e os componentes, infelizmente, não conseguiram sustentar a força do samba e a energia da escola.”

Mangueira: “Não houve uma boa conexão entre os elementos musicais: canto x ritmo x harmonia. O desempenho do canto (melodia) não foi satisfatório. A escola apresentou partes do samba com instabilidade de afinação.”

Na Mangueira eu pergunto: que partes do samba tiveram instabilidade de afinação? Foi algo crônico em uma parte da letra, ou foi algo mais localizado em um momento do desfile. Em que alas isso ocorreu? Ou foi problema no carro de som? Qual foi a consequência dessa falta de conexão entre canto, ritmo e harmonia?

Aqui ficou faltando justificativa.

Imagens: Ouro de Tolo

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