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Não tive a oportunidade de falar sobre o caso na semana passada por já ter escrito minha coluna, e na hora do ocorrido estar me arrumar para viajar com minha peça, mas não poderia deixar passar.

Assim como todo o Brasil, fiquei chocado. Choca a morte de uma pessoa jovem, no auge da vida e da carreira. Com filhos pequenos para criar, uma história inteira para fazer. Uma morte estúpida que interrompe uma trajetória rica.

Choca ainda mais quando é uma pessoa tão íntima de nós.

Não, eu não conhecia Domingos Montagner pessoalmente, e ele morreu sem ter a mínima ideia de quem eu era. Mas eu era íntimo dele, sim, todos nós éramos porque Domingos nos visitava, e visita ainda graças à tecnologia, nossas casas todos os dias. Não bate na porta, não toca a campainha, sai invadindo. Invade nossas casas e não achamos ruim, muito pelo contrário, paramos e nos sentamos para ouvir as mentiras que ele tem para nos contar.

Mentira, sim, porque nesses últimos meses ele não vinha se apresentando para nós como Domingos e sim como Santo. Não nos falava que era um ator paulistano e sim retirante nordestino. Dizia-se inimigo de Antonio Fagundes, amor de Camila Pitanga e defensor do rio São Francisco quando não era nada disso. Ele estava apenas representando, mentindo para nós. Até fingiu morrer e que foi salvo por índios.

Ouvíamos suas mentiras por meses e não nos irritamos, muito pelo contrário, amamos. Amamos as mentiras que Domingos contou nesses últimos meses, como todas as vezes que apareceu em nossas casas com outros trabalhos como amamos todos os seus companheiros que fazem as mesmas coisas desde que o mundo é mundo.

Os vendedores de sonhos. Os mentirosos. Os artistas.

Artista se torna íntimo de nós sem nunca termos conversado. Artistas nos permitem sonhar. Artistas vem do mundo dos sonhos apresentar suas fantasias para nós e tentar nos convencer como se fossem verdades. Amamos quando isso ocorre porque em suas fantasias viajamos e esquecemos pela hora e meia de um filme ou peça, as folhas de um livro ou os cinquenta minutos de um capítulo de novela de nossos problemas, nossas mazelas. Aquelas mentiras viram as nossas verdades.

Muitas vezes gostamos, algumas vezes idolatramos. Tem gente que bota fotos desses “mentirosos” na parede do quarto, chora só em se aproximar. É normal isso? Mais do que se imagina. Um vendedor de sonhos se torna especialista em emoções. Um artista sabe mexer com nossas emoções a seu bel prazer. A hora de nos fazer rir, chorar, irritar, emocionar. Ele determina a hora que temos todas essas reações invadindo nossa intimidade. Impossível não existir o afeto. A aproximação. Tem artistas que somos capazes de gostar mais que de pessoas próximas.

Por isso choca, por isso assusta e entristece quando a realidade faz o curso contrário e ela que invade o mundo dos sonhos. Assim como Santo, Domingos Montagner sumiu no Velho Chico. Mas não teve índios para lhe salvar. Domingos morreu.

O mocinho, o protagonista. O cara que em suas mentiras se vendeu como o bom caráter, justiceiro, cara bacana, imortal que luta, enfrenta a tudo e todos para beijar a mocinha no final estava morto. Como assim? Protagonistas não morrem!! Mocinhos não morrem!! Está errado isso!!

domingos2É a punhalada que sangra que a verdade dá no mundo dos sonhos. A verdade nos despertando para dizer “Não adianta fugir, se inebriar, eu sempre estarei aqui”. É o Superman desistindo de lutar contra os vilões de Kripton em Superman II, é o personagem de “Em algum lugar do passado” e que voltou no tempo para ver a pessoa amada encontrando uma moeda do seu tempo de existência e assim despertando. Por coincidência, os dois personagens vividos por Christopher Reeve, o Superman que se entrevou em uma cadeira de rodas. É a verdade nos esbofeteando. O Rio São Francisco nos despertando. Protagonistas morrem e Papai Noel não existe.

Na verdade um artista não morre, artista “Morrem”. Domingos Montagner não morreu, Domingos Montagner “morreram” porque quando um artista morre leva juntos todos os seus personagens, todos os mentirosos que nos fizeram gostar dele.

Não era um super fã dele, mas ele era meu camarada porque entrava na minha casa todos os dias e assim me compadeço de “suas mortes”. Assim como até hoje me lembro das mortes de Jardel Filho e Daniella Perez. As mortes traidoras, as mortes que levam nossos sonhos.

Mas o sonho é teimoso e a mentira atrevida porque desafiam a morte. Quando um artista morre seu corpo perece e vira energia se espalhando pelo ar. Artista é imortal e no fim acaba brincando com a morte assim como Chaplin até hoje faz com o globo terreste e Gene Kelly com as poças de água e um guarda chuva dançando. Alguém é capaz de dizer que Shakeaspeare está morto? Preste atenção que em algum canto você verá Nelson Rodrigues dizendo que toda unanimidade é burra.

Como todo mundo morre podemos dizer que a morte é burra. Porque por mais que a gente morra ela não é capaz de nos matar.

O Rio São Francisco também não matou Domingos Montagner, ele apenas morreu. Mas ainda viverá por muito tempo.

Até porque arte é correnteza que nunca para de banhar nossas emoções.

Emoção que não submerge.

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