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Gente que diz “não é por eu atacar o PT que eu sou PSDB, ou vice-versa”. Claro que isso vale como verdade para quem tem outra opção partidária ou ideológica. Ou, simplesmente, não quer vestir uma camisa de força partidária.

Partido não é time de futebol. Eu mesmo, que tenho opinião e defendo as causas que acho corretas, não tenho partido. Sou assumidamente governista, isso eu sou. O que não faz de mim um petista.

Porque eu apoio um processo histórico de mais de uma década em que o Brasil combateu a miséria, teve um governo democrático e republicano, distribuiu renda, acabou com a fome crônica, elevou a massa salarial, baixou o desemprego ao menor patamar registrado, multiplicou o PIB e as exportações, abriu novas frentes diplomáticas que diminuíram a dependência externa, enxugou a dívida pública, aumentou as reservas internacionais.

Tudo isso pagando o preço do nosso modelo político, de presidencialismo de consensos, que obriga o Executivo, em qualquer nível, a formar uma base parlamentar de sustentação sem a qual não se consegue governar. E, para a qual, além das concessões programáticas, há acertos típicos da nossa natureza politica que ruborizam os mais delicados.

Lula e Dilma enforcadosEnfim, um período com novidades positivas e defeitos seculares que não conseguiram ser quebrados. Portanto, apoio o avanço, mas mantenho-me livre para criticar o erro. O que talvez me impedisse uma tomada de posição partidária.

Claro que, em política e economia, não há o ideal. Há o possível, dentro de termos razoáveis de comparação. Não se pode analisar um momento, senão pelo período, e a contraposição de períodos, de coisas semelhantes.

Até 2002, nos oito anos anteriores, o Brasil decresceu, demitiu, perdeu competitividade, quebrou, aumentou fome, desemprego e desigualdade. Sem que o mundo tivesse passado por nenhuma grande crise econômica global. Para referência, o México, país latino americano como nós, com matriz histórica semelhante, território e população também grandes, naqueles anos nos ultrapassou em PIB, um feito então inédito.

A partir de 2003, o Brasil reverteu completamente o quadro descrito. Isso em meio à maior crise econômica global em 80 anos. Para referência, o México hoje tem um PIB que é a metade do nosso. Qual o motivo? O PT? Não, mas tem a ver com as escolhas do governo, sim.dilmalula

O modelo econômico-politico-ideológico adotado pelo Brasil de 2002 para trás é o neoliberalismo, reforçado pela Teoria da Dependência, segundo a qual o Brasil seria um país periférico fadado a seguir uma liderança hegemônica, no caso, americana. O México alinhou-se a isso também. Os resultados objetivos foram catastróficos para os dois países, cada um a seu tempo.

No Brasil de 2003 para cá adotou-se o nacional-desenvolvimentismo, segundo o qual devemos perseguir nossa vocação para potência global, desenvolver mercado interno e liderar países em crescimento. Adotou-se, economicamente, o keynesianismo, segundo o qual o Estado deve atuar na economia como regulador e estimulador. Ideologicamente, o neo-trabalhismo, segundo o qual são as conquistas salariais e trabalhistas que desenvolvem o mercado. A comparação entre os resultados práticos é inevitável, além de cruel para com o período imediatamente anterior.

E esta comparação remete à dualidade PT-PSDB, sim, mas não é exclusiva deles. Se fosse há 60 anos, um quadro bem similar se mostraria, entre varguismo e o lacerdismo da UDN. Se fosse em outro país, nesta ou em outra época, seria representado por outra dupla partidária.

Partidos morrem, mudam de nome, mas representam, ou deveriam, modelos mentais, maneiras de ver o mundo e o fato econômico.

É uma tendência no amadurecimento das democracias que estes modelos mentais acabem se dividindo entre dois grupos alternantes e hegemônicos. O bipartidarismo de fato, ao contrário do que se supõe, é um bom sinal de maturidade política de uma sociedade. Porque, fora dele, há os radicalismos, os oportunistas, os antidemocratas, os personalistas, os exclusivamente fisiólogos.

No Brasil, hoje, esta dualidade é representada pela dupla PT-PSDB, expressões do keynesianismo e do liberalismo, do trabalhismo e do elitismo, do desenvolvimentismo e da dependência, do progressismo e do conservadorismo, respectivamente. Nem sempre foi assim, nem sempre será. Partidos vivem, morrem ou mudam de nome. Idéias não. Idéias ficam. Modelos, formas de ver o mundo, ideologia. Isso fica, isso está acima de partidarismo. Isso tem dois lados, ou o radicalismo.

Por isso que PT e PSDB são mais próximos do que parece. Porque representam as duas faces da mesma moeda, as faces do enfrentamento democrático de idéias no Brasil do início do século XXI. Fora momentos de alucinação (meninos, drogas fazem mal, viu), são partidos que vivem do confronto saudável de propostas políticas, econômicas, ideológicas. Não completamente opostas, mas complementares. Porque representam um sentimento médio e aplainado de esquerda e direita (são conceitos históricos, procure saber) de forma a não serem radicalmente uma ou outra coisa, mas uma convergência desses opostos ao caminho do centro, daí serem centro-esquerda e centro-direita. E a utilidade democrática é que a existência deles inibe radicalismos antidemocráticos de ambos os lados.

Acontece que estes dois partidos estão em crise existencial e, junto com eles, todo status quo político da incipiente democracia brasileira.

O PT, porque paga o encargo de 12 anos de poder. Ao permanecer governando, qualquer partido passa a ser alvo dos mais diversos níveis de insatisfação, demandas, novas necessidades, ansiedades e expectativas. Em meio à persistência da crise econômica global, vê-se também refém da impaciência popular frente às restrições que ela impõe. Como fiador do pacto de governabilidade, é alvo natural da insatisfação do eleitor com as práticas sujas da política nacional. Como principal gestor, vê esgotar suas iniciativas para a modernização da máquina pública.

O PT sofre da crise de persistência no poder, crise esta natural e comum em partidos que continuam governo por mais de uma década, em qualquer lugar, sejam de qualquer coloração ideológica.

Por isso mesmo, governos e correntes se alternam mundo afora. Por isso mesmo, raramente se vê uma continuidade longa de poder de uma das faces do bipartidarismo de fato nas democracias maduras.

Conservadores e Trabalhistas na Inglaterra, Republicanos e Democratas nos EUA representam, também, guardadas as tipicidades locais, faces de uma moeda ideológica bem parecida com a nossa. E é igual ao redor do mundo. Os lados se alternam com o passar dos anos, sempre que o prazo de um deles se esgota pelo desgaste natural.

Acontece, para azar da democracia brasileira, que o prazo natural da fadiga petista se deu no momento de maior crise do PSDB. Porque o partido perdeu-se de sua origem, porque suas lideranças envelheceram, porque igualmente chegou à mesma fadiga nos locais onde governa ininterruptamente, porque as derrotas seguidas abalaram seu ímpeto (e sua fé no processo democrático), porque perdeu credibilidade, porque é também credor do mesmo pacto de governabilidade que abala seu concorrente, porque envolveu-se em casos suspeitos, porque o liberalismo entrou em parafuso mundo afora, porque não consegue expressar claramente um projeto para o Brasil.

150202002031_sp_eduardo_cunha_624x351_reutersHá ainda a variável PMDB, que é um partido com jeito de frente heterogênea, um agregado de personalidades oportunistas que se beneficiam do poder de pêndulo e avalistas da democracia. O PMDB só existe e tem o poder que tem exatamente pela imaturidade política de parte do eleitorado que vota no nome do candidato, recusa-se a optar ideologicamente. O PMDB, ao representar tudo, não representa nada além de corrupção e oportunismo. Apesar disso, e por vontade de boa parte do eleitorado, é impossível governar sem ele desde a redemocratização do país.

E, assim, PT e PSDB estão em crise, ambos arrastados pelo PMDB. E, fora deles, o cenário é ainda pior, exceto por um ou outro partido sem expressão eleitoral. O que leva a uma crise política perigosa.

Cabe aos três partidos dominantes formar um novo modelo de governança política, espera-se que de melhor qualidade. Não é o que parece que vá acontecer. E o risco ai é o do fortalecimento de radicalismos e de saídas extra democráticas, que é algo que qualquer cidadão razoável deve lutar contra.

Ou mudam os partidos hegemônicos. De nome, de estruturas, de lideranças, de representações. E é assim mesmo, partidos vivem e morrem. Só o que permanece é aquilo que eles representam.

Por isso mesmo, eu não defendo partidos, eu defendo ideias. Hoje, neste exato momento, no Brasil, estas ideias estão mais claramente representadas pelo PT, dentre os partidos viáveis. Amanhã, certamente será outro. Se eu fosse da idade do meu avô, teria sido varguista, votado no PTB. Aquele PTB não existe mais, o de agora nada tem a ver. O PT de daqui a 60 anos – quem sabe, 5 ou 10 anos – não será o mesmo que hoje governa. Por isso, eu sou governista, mas não petista.

O problema é que a maioria das pessoas que diz que não tem partido não está falando disso. Está falando de personalismo, de dar espaço a golpistas e oportunistas, da negação do fato de que cada um vê o mundo da sua forma, e isso se representa por forças políticas que, num corte de tempo, são partidos políticos sim. E negar a ideologia costuma andar de mãos dadas com um simplismo perigoso que leva ao totalitarismo. Negar a disputa saudável entre ideias é também uma ideia que, talvez por inconfessável, esconde-se sob o disfarce de não-ideia.

Estude História. Todos os movimentos totalitários nasceram da negação do debate livre entre modelos mentais, ou seja, entre ideologias. O conceito de nacionalismo como bem acima das opiniões e ideologias é a negação da democracia.

E, portanto, é também ideologia. Radical, totalitária, de extrema direita.

Portanto, você pode não escolher um partido. Porque partidos não são times de futebol. Porque você pode, mas não necessariamente precisa engessar na defesa de uma instituição. Não precisa escolher ou defender um partido. Mas deveria escolher e defender um lado. Uma ideia. Um conjunto de pensamentos. Uma ideologia. Porque a negação disso é uma coisa muito perigosa e, inevitavelmente, a escolha de um lado.

Goste você ou não.