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Cantagalo, Pavão e Pavãozinho: A Alegria do Rio de Janeiro

Quando foi dito no samba de 2015 “A Alegria chegou por toda a cidade” podemos crer nisso. Muitos podem não dar a devida importância para a agremiação quando ela resolve trazer a cidade do Rio de Janeiro para o carnaval. Mas não leva o Rio ao espectador por trazer, leva por ter identidade carioca mesmo sem ser uma agremiação tão grande quanto as do Grupo Especial. Leva o Rio para ser assistido por muitos cariocas, fluminenses, turistas brasileiros e estrangeiros.

Exatamente dessa forma que a Alegria da Zona Sul se mantém, trazendo enredos que destacam bastante a vida do carioca. Por isso vale a pena ressaltar os enredos que a Alegria trouxe ao carnaval com o objetivo de retratar a cidade.

A Alegria surgiu como escola de samba em 1992 após a fusão de dois blocos. E estes blocos também surgiram de fusões. O Recreio de Copacabana junto com outros blocos além do Afilhados de Ipanema e Império de Ipanema deram origem ao Unidos do Cantagalo, representando o morro com o mesmo nome. Representando os morros do Pavão e Pavãozinho, existia a Alegria de Copacabana. Resultado da união entre Independentes do Pavãozinho e Império do Pavão.

Dada a criação da Alegria de Copacabana e Unidos do Cantagalo, os compositores dos dois blocos resolveram acabar com as disputas de samba e fundar uma única agremiação. Assim nascia a Alegria da Zona Sul. A principio a escola de samba tinha como cores azul, verde e branco, as mesmas cores do pavilhão da Acadêmicos da Rocinha, que voltou à Série A.

Especial (Segunda _ Acesso B 2010 410Porém, houve a mudança de cores para vermelho e branco devido a sua afinidade com o Salgueiro por causa de seu patrono, Waldomiro Paes Garcia, o Maninho – hoje falecido. Ele apadrinhava ambas as agremiações e em 2004 estreitou mais ainda esse laço entre a Zona Sul e a Tijuca quando a escola decidiu modificar as cores.

Nada mais carioca que estrear com um enredo para a sua cidade e a sua identidade. “Sou Mais Carioca” abordava os 100 anos do bairro de Copacabana, 50 anos do personagem Zé Carioca (que estampa o pavilhão da escola) e um ano de fundação da Alegria da Zona Sul. Conseguiu permanecer no Grupo de Avaliação em seu primeiro desfile, estando a frente da Renascer de Jacarepaguá e Unidos de Padre Miguel, agremiações que tem bastante força atualmente.

Em 1994, diferentemente do ano de estreia, a Alegria da Zona Sul consegue emplacar seu primeiro campeonato com o enredo Na dança das cores preto não é cor, mas negro é raça. Enredo que abordava tanto a cor preta, ou a ausência de todas as cores, quanto o negro que foi escravo, que é brasileiro, que é trabalhador e que construiu o nosso país e nossa cidade, infelizmente por meio da escravidão.

1995 foi um ano em que a agremiação de Copacabana não desfilou e houve o iminente rebaixamento para o Grupo E. No ano seguinte houve o retorno às raízes cariocas com o enredo “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça”, comemorando mais um centenário. Desta vez do bairro de Ipanema. Além de abordar a história do bairro. Conseguiu novamente o campeonato e a ascensão ao Grupo D.

Somente em 2004 a Alegria da Zona Sul trouxe em seu enredo uma relação direta com o Rio de Janeiro. Dorival Caymmi, o Mar e o Tempo nas Areias de Copacabana. Apesar de ser baiano, nascido em Salvador, Dorival morou em Copacabana e amava o bairro onde viveu. Em 1973, escreveu Peguei um Ita no Norte, música a qual o Salgueiro tornou o nome em título de enredo e foi campeã do Grupo Especial.

Coincidentemente no ano do primeiro desfile da Alegria como escola de samba. A passagem do samba da agremiação da zona sul que faz o link Rio-Bahia-Dorival é “O céu da Bahia está em festa/ Dança Ioiô, canta sinhá/ O som dos atabaques anuncia/ Caymmi vem nos braços de Iemanjá (rainha do mar)/ No Ita naveguei. Ôôô/ E vim no Rio morar/ Bateu forte o coração/ Copacabana é minha paixão”. Conseguiu a 6ª colocação ao levar para o desfile a homenagem aos seus 90 anos e ficou a frente da União da Ilha do Governador e Paraíso do Tuiuti.

Em 2005 contou com a voz incrível de Pixulé, vindo do Leão de Nova Iguaçu, ao falar do Teatro Rival com o enredo Teatro Rival, 70 anos de Resistência Cultural. Não poderiam ter escolhido um intérprete melhor, que se encaixou seu tom de voz com perfeição do inicio ao final do desfile. Seu primeiro ano desfilando com as cores alvirrubro. Obteve seu melhor resultado no carnaval desde 1993, garantindo o 5º lugar para a agremiação. Destaque para a passagem que dizia Teatro “Rival”, sempre “Leal”/ Orgulho do meu Rio.

Após um rebaixamento lamentável devido às expectativas criadas para o desfile do ano de 2006, que apresentou A Alegria é show de bola [1], após muitos eventos amplamente divulgados, em locais da alta sociedade e com muitos famosos, trouxe para o desfile um carnaval atrasado e teve o revés de não apresentar a última alegoria por problemas técnicos, voltando ao Grupo B.

O meio da tabela em 2007 com o enredo “Negro não se humilha nem humilha a ninguém. Todas as raças já foram escravas também” também não agradou [2]. A Alegria da Zona Sul retoma o Rio como foco de enredo no ano de 2008. Chegou o General da Banda! Albino Pinheiro, Alegria do Rio foi o enredo que destacou a vida do fundador da Banda de Ipanema e portelense. Era advogado, mas tinha interesse imenso no movimento da cultura carioca. O resultado foi um pouco melhor que o ano anterior, 5ª colocação.

Com o enredo Heitor dos Prazeres, carioca da gema, sambista de coração a agremiação não foi rebaixada ao Grupo C por 0,7 ponto em 2009, quando foi prejudicada por abrir o desfile. Heitor foi um carioca legítimo. Tocava cavaquinho e clarinete e compôs sambas e marchinhas. Dentre essas composições a de maior sucesso foi composta com Noel Rosa, Pierrot Apaixonado. Foi um dos fundadores do que veio a se tornar a Portela.

O retorno aos enredos sobre o Rio veio no ano de 2013 após a LIERJ assumir os Grupos A e B, fundir e nascer a Série A. Neste ano o tema foi “Quem não chora não mama” que constava como um dos autores e intérprete o saudoso Edmilton Di Bem. Chega a ser difícil ler o nome “Alegria da Zona Sul” sem ouvir a voz do intérprete no grito de guerra.

E foi um desfile difícil. Em 2011 já havia sofrido com incêndio no barracão e em 2013, no ano de falar do Cordão do Bola Preta no desfile, também houve incêndio. Apesar das muitas perdas, a escola entrou bem, passou pelas dificuldades e posso afirmar que o desfile foi emocionante. Não pelas perdas que precederam o desfile, mas de ver até os empurradores de carros alegóricos brincando o carnaval como se estivessem no Cordão do Bola Preta. Das 19 agremiações, ela se colocou na 14ª colocação.

Em 2014 foi o ano de falar da origem, da raiz da escola, o bairro de Copacabana. O último ano de Edmilton como voz da Alegria da Zona Sul. Sacopenapã foi um enredo que gostei bastante, mas teve sua leitura prejudicada por algumas fantasias estarem descolando e não estarem mais representando o que descrevia o enredo, mesmo apresentando muita beleza. Teve problemas na última alegoria que se chamava “Fé e Alegria” e ela não entrou para o desfile. Por pouco não ultrapassa o limite da cronometragem também.

20140301_224145Neste ano de 2015, para comemorar os 450 anos da cidade do Rio, a Alegria não poderia fazer diferente. Com o enredo Kari’Oka, destacando os pontos turísticos e hábitos do carioca, a agremiação fez um desfile modesto e conseguindo a 13ª colocação, a frente apenas das rebaixadas. Mas trouxe uma bateria bastante cadenciada ao mesmo tempo que trouxe alegorias fracas em relação as demais agremiações.

O que me surpreende positivamente nos desfiles da Alegria da Zona Sul ao mostrar o Rio ou ícones da cidade, é a vontade em fazer dar certo. Não importa se não vai conseguir patrocínio, mas manter a marca registrada parece ser essencial para a escola. Assim como a Mangueira preserva suas batidas de caixa e surdo, como a Mocidade mantém a cadência de suas caixas e a São Clemente que não utiliza apitos para comandar a bateria. São esses tipos de marcas que não podem morrer no carnaval. Visar a cultura, perpetuar a brincadeira mesmo que seja uma brincadeira séria.

Que a Alegria possa nos trazer bastante dela para nós e não se deixe somente fazer carnaval comercial. Já existe muito disso no domingo e segunda feira de carnaval.

[N.do.E.1 – foi neste ano de 2006 que certo compositor, colunista desta revista eletrônica, chegou à final de samba enredo – onde se fez uma junção de quatro dos cinco finalistas. Adivinhem qual samba ficou de fora? PM.]

[N.do.E.2 – presenciei uma história hilária neste desfile de 2007. No meio de um mar de camisas, um diretor de Harmonia vira para outro e fala:

– Canta, porra!

A resposta foi rápida:

– Canta você!

No comment. PM]

Imagens: Arquivo Ouro de Tolo

3 Respostas para “Cantagalo, Pavão e Pavãozinho: A Alegria do Rio de Janeiro”

  1. Rodrigo Mariano disse:

    Muito bacana esse texto. Parabéns ao autor…

  2. Thiago Nabuco disse:

    Muito obrigado! Espero que todos curtam!

  3. Douglas Santos São Pedro disse:

    Belo texto… Captar essa essência da escola é para poucos… Fico muito triste quando vejo pessoas q dizem amar o carnaval, ficar esculachando certas agremiações, menosprezando, não dando espaço pra captar certas características belas como essa…. A Alegria ganha a bastante tempo meu respeito, pela sua forma d fazer carnaval, imprimindo identidade característica… Com todos componentes brincando o carnaval,

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