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O leitor não sabe, mas estou de molho desde a última sexta feira devido a duas artroscopias nos joelhos. Com isso, abre-se uma temporada de leituras profícuas nesta temporada de molho.

E a primeira leitura desta temporada foi este “A Revolução da Cerveja Artesanal”, de autoria de um dos fundadores da cervejaria Brooklyn Brewery, Steve Hindy. Eu havia comprado a edição em inglês quando estive visitando a cervejaria americana – novembro de 2013 – mas não havia lido e aproveitei para ler a edição brasileira.

Hindy, hoje sócio minoritário da cervejaria, conta no livro a história da chamada “Revolução Artesanal” americana, o movimento que levou a hoje fatia de 10% que as artesanais americanas detém no mercado yankee. Tudo começou com a cervejaria Anchor Brewing, comprada em 1965 por Fritz Maytag e que estava falindo. A cervejaria existe até hoje e alguns de seus exemplares podem ser encontrados aqui no Brasil.

CFuxLnXWIAE8TIgHindy passeia pela cronologia do mercado artesanal, mostrando as diversas “ondas” e as dificuldades enfrentadas. Passa pela definição do que seria uma cervejaria “artesanal”, a partir do caso da Boston Beer, que hoje fabrica cerca de 2 milhões de barris por ano. Hindy traça um perfil do fundador da cervejaria, Jim Koch, e o crescimento alcançado pela Boston Beer se utilizando de métodos de publicidade semelhantes aos das majors do setor – e diferentes do “boca a boca” utilizado pelas artesanais típicas.

Também aborda as tentativas de entrada das “majors” neste mercado, seja via aquisição de cervejarias, seja via produtos diferenciados. Este fenômeno traz todo um debate, abordado no livro, se isto é benéfico ou não ao segmento e se estas devem participar das associações de empresas deste segmento.

O caminho até a formação de uma associação única é outra das histórias contadas no livro. O dilema sobre união ou não com as grandes cervejarias para fins de lobby político – visando um tratamento diferenciado em termos de impostos e se unir contra o lobby proibicionista, forte nos Estados Unidos – é bastante presente no decorrer dos anos, com marchas e contra marchas.

Hindy traça o perfil de várias das mais importantes cervejarias americanas deste segmento, como a DogFish Head, a New Belgian, a Rogue, a Allagash, a North Coast e outras. Hindy mostra as diferenças entre as cervejarias que se estabeleceram a partir de um “bar cervejaria” e as que já se iniciaram propondo venda ao público no varejo. Frisa a importância da “cerveja local” e do apoio das comunidades a estes empreendimentos, assim como o papel revitalizador destas cervejarias a regiões anteriormente decadentes das cidades onde se sediam.

20141022_203516Também é interessante ler sobre as histórias da criação de diversas cervejarias e as soluções encontradas para driblar a falta de capital necessário para adquirir os equipamentos. Muitas improvisações e fabricações de instalações próprias, em expressão de criatividade.

Um pedaço importante do livro é quando Hindy mostra as peculiaridades do sistema de distribuição de bebidas americano, com as dificuldades impostas às pequenas empresas. Ao contrário do Brasil, teoricamente as empresas distribuidoras de bebidas são independentes das grandes empresas por exigência da legislação. Na prática, isso não acontece, especialmente nas distribuidoras ligadas à Ambev (Budweiser), em política existente antes mesmo da compra pela empresa belgo brasileira.

Paradoxalmente, a entrada da major controlando a grande cervejaria americana acabou auxiliando as cervejarias artesanais, pois as grandes distribuidoras da AB-Inbev começaram a buscar outras alternativas – e com maior lucratividade – visando se antecipar a uma eventual tomada de controle da distribuição por parte dos novos executivos.

Uma curiosidade é que a “Pliny the Elder” – considerada por muitos a melhor “Double IPA” do mundo, infelizmente nunca tive oportunidade de experimentar – e o próprio estilo “Double IPA” surgiram por acaso: a quantidade de lúpulo na cerveja foi dobrada a fim de encobrir eventuais defeitos que a nascente cerveja pudesse ter.

20131105_123542Outro debate que permeia o livro é a distinção entre os cervejeiros que fabricam a própria cerveja e os que chamamos hoje de “ciganos” – que alugam capacidade ociosa de outras cervejarias. Durante a história, em muitos momentos ser um “cigano” depunha contra o cervejeiro, mas esta hoje é uma questão superada – e já começa a haver uma nova “onda” nos Estados Unidos de investidores abrindo unidades fabris exclusivamente para atender a estes cervejeiros “ciganos”.

Outro fenômeno interessante é que a onda de demissões causada pelas fusões e incorporações que atingiram as cervejarias “mainstream” liberou uma grande gama de profissionais altamente qualificados às artesanais americanas. A própria Brooklyn Brewery conta em seus quadros com profissionais oriundos da Busch.

Lendo o livro se percebem algumas questões bastante semelhantes ao que o cenário brasileiro vem enfrentando atualmente. Especialmente no que toca à união ou não a fim de fazer lobby pelos seus interesses nos círculos políticos, a questão tributária e a da distribuição. Por outro lado, por termos um desenvolvimento “tardio” algumas questões com as quais os americanos lidaram em sua história aqui estão superadas – como a própria questão dos “ciganos”.

O livro de Hindy – que hoje é acionista minoritário da Brooklyn – é indispensável para se entender como o cenário americano se desenvolveu e se tornou uma referência no restante do mundo. Comprei na versão brasileira da “Amazon”, que, aliás, está entregando bastante rápido os pedidos. Infelizmente escrevi esta resenha “a seco”, haja visto estar tomando anti-inflamatórios pós cirurgia.