Fanáticos por escolas de samba estão contando as horas para o início das disputas de sambas de enredo para o Carnaval 2016. Mas não nos esqueçamos que este gênero musical não tem sobrenome à toa.

Ou seja, para ouvir um samba de enredo é preciso existir um enredo. Um tema. Uma história para ser contada e cantada na avenida. Sendo assim, vamos por os bois à frente dos carros.

O enredo é um dos quesitos pelos quais mais me interesso na hora de ler as justificativas dos jurados. Sim, porque fanáticos que contam as horas para as disputas de samba também leem justificativas, passado o calor e os protestos anuais em torno dos resultados.

Não sei se é preciosismo de quem acompanha a festa há muito tempo mas tenho notado com bastante frequência que histórias já abordadas no carnaval têm sido revisitadas – para evitar um deselegante ‘copiadas’ ou ‘repetidas’.

O martelo ainda não foi batido em Nilópolis mas o Marquês de Sapucaí pode ser o enredo da Beija-Flor. Só que o nobre que dá nome à rua/avenida de desfiles já não foi homenageado pela Imperatriz Leopoldinense? Aliás, (mais) um primoroso trabalho de pesquisa de Rosa Magalhães. Sei não, mas das duas, uma. Ou será preciso dar uma volta ao mundo para encontrar uma nova abordagem ou ficará parecendo prato requentado.

E as Olimpíadas? Tá certo que a efeméride é quase irresistível. Afinal, em 2016, pela primeira vez não só o Brasil mas a América do Sul sediará os Jogos. Mas como será que a União da Ilha vai fugir daquilo que já vimos desenvolvido por ela mesma em 2012? Ou pela Mangueira em 1997? Ou até mesmo pela Portela falando do Pan em 2007? O evento pan-americano não tem o mesmo porte esportivamente falando mas o tema é correlato. E tome deuses gregos, colunas, aros e atletas convidados.

O que mais pode pintar de “deja vu” por aí? Será que as viagens de Paulo Barros em azul e branco terão algo da experiência tijucana de mundos além da imaginação? Ou das utopias e mundos imaginários que Severo Luzardo fez para o Império da Tijuca? Falando nisso, que semelhanças o tema da Mocidade de Louzada e Edson pode ter com o escolhido por Paulo para a Portela? Se é que em Padre Miguel não haverá uma mudança de rumos em relação ao enredo já escolhido.

A conferir.

África? Estados ou cidades brasileiras? Homenagens a personalidades? Na falta de grana são sempre opções. Sinto muita falta de enredos com o toque pessoal de um carnavalesco talentoso. Ou algum legitimamente original. Mesmo que possa, de cara, parecer releitura.

Quando soube que o Renato Lage faria a Ópera do Malandro no Salgueiro logo me lembrei do enredaço que ele desenvolveu no Império, “Foi malandro é”, em 1984. Ao ler a sinopse vi que não se trata de uma cópia de si mesmo (e eu nem esperava que fosse) e sim mais uma grande contribuição do Renato à nossa maior festa popular.

Posso apostar que o samba do Salgueiro para o ano que vem terá uma qualidade acima da média da safra. Apenas pelo fato de os compositores terem em mãos uma boa sinopse e uma grande ideia em que se inspirar.

Também original e com o toque pessoal da professora Rosa, o enredo da São Clemente, apostando na veia crítica que caracterizou a escola nos anos 80 e 90. Promete. E, apesar da chuva de pedras por parte de alguns, acredito que Zezé di Camargo e Luciano e o universo sertanejo podem, sim, render uma história bem brasileira e interessante na Imperatriz.

É esse ineditismo que aguça a curiosidade e incentiva e desafia os compositores. Quando se precisa criar em cima do que já foi criado, lido, relido, escutado a chance de lançar mão de lugares comuns que empobrecem a letra da obra é maior. Este é um dos efeitos colaterais da falta de originalidade. Vou continuar torcendo para que bons enredos – novos e originais – sejam divulgados nas próximas semanas.

Abaixo uma lista de repetições no Grupo Especial e Série A entre meados dos anos 80 e agora. Quem for bom de memória ou de busca em sites será muito bem vindo a colaborar com outras coincidências.

  • Homenagem a Roberto Carlos – Unidos do Cabuçu (1987) e Beija-Flor (2011)
  • Homenagem a Jorge Amado – Império Serrano (1989) e Imperatriz (2012)
  • Homenagem a Xuxa – Unidos do Cabuçu (1992) e Caprichosos (2006)
  • Homenagem a Maria Clara Machado – Jacarezinho (1992), Ilha (2003) e Porto da Pedra (2011)
  • Homenagem a Ariano Suassuna – Império Serrano (2002) e Unidos de Padre Miguel (2015)
  • Homenagem a Luiz Gonzaga – Unidos de Lucas (1982), São Clemente (Gonzaguinha e Gonzagão, 2006) e Unidos da Tijuca (2012)
  • Homenagem a Portinari – Tuiuti (2003) e Mocidade (2012)
  • Homenagem a Vinicius de Moraes – Tuiuti (2004), Império (2011) e Ilha (2013)
  • Homenagem a Nelson Rodrigues – Império da Tijuca (1994), Unidos da Tijuca (2001) e Viradouro (2012)
  • Homenagem a Chiquinha Gonzaga – Mangueira (1985) e Imperatriz (1997)
  • Homenagem às mulheres – Porto da Pedra (2006) e Mangueira (2015)
  • Visita dos índios à França – Imperatriz e Império Serrano (1994);
  • Sapatos e calçados – Estácio (1999) e Porto da Pedra (2013)
  • Língua Portuguesa – Unidos da Tijuca (2002) e Mangueira (2007)
  • Loucura – Salgueiro e Porto da Pedra (1997)
  • Bahia – Viradouro (2008), Portela (2012), Tradição (2006), Rocinha (1996)
  • Pará – Beija-Flor (1998), Viradouro (2004) e Imperatriz (2013)
  • Amazonas – Portela (2002, 2004), Grande Rio (2006/2008, Coari), Beija-Flor (Manaus, 2004), Salgueiro (Parintins, 1998) e Tradição (1998)
  • Rio Grande do Sul – Beija-Flor (2005), Vila (1996) e Caprichosos (Porto Alegre, 2002)
  • Minas Gerais – Portela (1999) e Salgueiro (2015)
  • Pernambuco – Mangueira (frevo, 2008), Mocidade (aliada a homenagem a Fernando Pinto, 2014), Portela (Olinda, 1997), Império (2000);
  • Maranhão – Mangueira (1996), Grande Rio (2002) e Beija-Flor (São Luís, 2012)
  • Rio de Janeiro – aí é covardia e a lista seria imensa. Passados os 450 anos vamos dar um descanso ao tema???? O mesmo vale para enredos relacionados à importância da água em nossas vidas.

P.S.: para encerrar, credito boa parcela de explicação a um rebaixamento tido por muitos como injusto, o “Batuk” do Império da Tijuca em 2014, à escolha do enredo. Na minha modesta opinião, extremamente semelhante ao “Tambor” salgueirense, campeão em 2009. Faltou algo inovador e sobraram as mesmas referências. Só uma reflexão.

23 Replies to “Enredos do Nosso Samba”

  1. Gil,

    Contribuindo para sua lista, teve o avião salgueirense patrocinado pela TAM e o avião da Beija-Flor patrocinado pela VARIG no mesmíssimo ano. Salvo engano 2005.

  2. Bem lembrada a coincidência aérea. Bem como os tabajaras e tupinambás na corte francesa, campeão com a Imperatriz e um quase desastre para o Império, em 1994. Se estendermos nossa pesquisa encontraremos muitos mais. A minha preocupação é com a opção pelo mais fácil ou mais comercial em detrimento das grandes ideias.

    1. Confesso que incluí 1994 na edição/revisão do texto, bem como Lucas 82 rs. Também tem 87, onde Império Serrano e União da Ilha vieram com enredos sobre a comunicação

  3. Bom dia!

    Prezado Carlos Gil:

    Muito se cobra sobre o ineditismo e as novidades que as Escolas de Samba devem apresentar a cada ano.
    Depois de muito cobrar pelas mesmas causas, em 2015 mudei de perspectiva.
    Prefiro não dissertar sobre ela aqui para não ocupar muitas linhas de comentários. Isto é assunto para outras plataformas!

    Em relação à Império da Tijuca, pode-se dizer que “Batuk” é uma parte de “Tambor”, e esta parte foi muito bem explorada.

    Atenciosamente
    Fellipe Barroso

    1. Tem outra questão que, penso, impacta nisso. No Grupo Especial as fontes “naturais” de recursos não cobrem os gastos necessários. Daí a necessidade de patrocínio ou reciclagem.

      No Grupo de Acesso, então, a situação é quase desesperadora quanto a este aspecto.

      1. Mas aí é que está (e se eu estiver enganado, corrijam-me): cobram a falta de algo novo e aí, quando vem um Ayrton Senna, um Zico, um Zezé di Camargo e Luciano, um Rock in Rio ou uma Alemanha, antes da escola desenvolver o enredo já falam que é uma porcaria, que não é enredo pro Carnaval, etc.

        Se é mal desenvolvido, é outra história. Mas, no meu entender, qualquer tema pode ser carnavalizado. Até mesmo o fim do mundo, Beto Carrero ou o futebol.

        Afinal, quem diria que um poema, como foi em 1987, pudesse virar um desfile encantador?

          1. Penso eu que uma boa sinopse pode carnavalizar qualquer desfile. Minha simples opinião, claro! =D

            O problema do Império Serrano em 1997 é que a sinopse foi bem confusa e o samba chutou-a para o alto! Deu no que deu…

  4. Xuxa e Caprichosos foi em 2004. Aliás, a própria Caprichosos com o Chocolate, em 1996 e 2006.

    Tem também a arte dos jogos (Mocidade 1993 e Viradouro 2007), tem a Favela (Lins 2011 e São Clemente 2014) e, se não falhe a memória, além da Vila Isabel em 2009, o Boi da Ilha também já falou do Teatro Municipal!!

  5. E a Cubango falando de água? Água Não, por favor! Ainda mais no Acesso. A Renascer já falou umas duas vezes (Águas de Março e Aquaticópolis), Inocentes também. Império com Caxambu e o poder milagroso das fontes, Império da Tijuca esbarrou no tema com Oxum. E, é claro, que na sinopse da verde e branco de Niterói tem um ritual qualquer que veio da África – com todo respeito aos temas afro. Tenho a maior simpatia pela escola mas acho que passou da hora de se reciclar nos enredos.

  6. E Rodrigo, concordo contigo quando reclama do preconceito com certos temas. Concordo que um bom desenvolvimento pode nos mostrar novidades, curiosidades, trazer surpresas. Por isso acho uma certa covardia com a Imperatriz. O filme “Os dois filhos de Francisco”, por exemplo, é bem legal.

    1. A Imperatriz vai calar a boca de muita gente, Carlos!

      Em 2013 a Mocidade perdeu a chance da vida focando só no Rock in Rio. Se contasse a história do rock poderia ser um desfile mais agradável – tirando o visual que, sabemos, foi prejudicado pela falta da verba do patrocinador.

      Ainda quero ver desfiles homenageando Austrália e Argentina. Acho dois países geniais e que dariam uma boa história.

      Em um dos Carnavais virtuais, já foi abordado também “as maneiras do homem buscar a felicidade”. Seria um tema bem bacana pra um Renato Lage ou um Paulo Barros!

      Até eu quero resgatar a minha escola virtual pra contar a história do carro! É outro tema que, se bem desenvolvido e sem cair na mesmice, dá um baita desfile!

      1. Só lembrando que em 2013 a Grande Rio traria a história do Fusca e a Globo vetou alegando merchandising

  7. Se não me engano:

    – Em 1987 a Unidos de Lucas também homenageou Vinícius de Moraes;
    – Em 1975 a Estácio de Sá, na época Unidos de São Carlos, também falou do Pará com o mesmo samba da Viradouro 2004;
    – Em 1970 coloca Amazonas para a Portela também com o mesmo samba de 2004;
    – Se Olinda da Portela entra como Pernambuco, então coloca Araxá como Minas para a Beija-Flor também;
    – Rio de Janeiro como enredo? Todas as escolas em 1965 e de lá pra cá mais algumas.

  8. Faz algum tempo que eu gostaria de ver uma escola de samba falando sobre Malandragem. E ainda bem que vai ser o Salgueiro nas mãos do Lage, assim como foi o Império nos anos 1980. De longe a melhor escolha de enredo para o próximo carnaval.

  9. Os enredos escolhidos até agora não são ruins em sua maioria, parece que a maioria será com uma linha interessantes nos temas.
    Já sobre a lista de enredos repetidos, existem alguns temas que até valem a repetição devido ao tempo de intervalo que foi apresentado, como os dos anos 70/80. Mas há outros temas que têm se repetido com frequência, como se não houvessem outros enredos inéditos para serem explorados pelas escolas.

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