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Vamos aos sambas de sábado no grupo de Acesso carioca.

Sábado, 14 de fevereiro

Alegria da Zona Sul

Enredo: “Kari’Oka”

Compositores: Márcio André Filho, Vaguinho, Adelson, Thelmo Augusto, Wagnão e Hebert Rocha

Intérprete: Alexandre D’Mendes

Antes de analisar propriamente o samba, devo novamente pedir licença parra falar sobre o meu gosto pessoal: quem me conhece sabe que eu sou o maior defensor do fim do que chamo de “trashofobia”, o preconceito contra sambas trash. Tem um grupo de sambas que classifico como “trash do bem”, todo ano tem um, que geralmente são os sambas que tem em mim o único apreciador. Considero importante entender que nem todo samba quer ser uma “Aquarela Brasileira”. Existem sambas concebidos para divertir, animar, sambas despretensiosos.

Enxergo isso, agora já entrando em uma análise, nesse samba da Alegria da Zona Sul, que trará um enredo sobre o jeito carioca de ser. Você percebe, quando ouve, a intenção dos compositores de fazer um samba para divertir e considero que fizeram isso bem feito. É claro que a letra peca pela excessiva falta de pretensão, um samba nota 10 precisa ir um pouco além disso, mas é um samba agradável de se ouvir.

Temos um bom refrão principal (“a alegria chegou por toda a cidade / um Rio de amor e felicidade”) e, ao longo do samba, versos irreverentes como “mermão se liga no papo, sou do balacobaco / tiro onda com paulista” ou “pago uma, devo três”. Também destaco o trecho mais poético do samba, “amante do sol, mas adoro beijar o luar”, mas, por outro lado, não consigo entender o sentido do verso “vai chegando o fim do mês” na parte final.

A melodia tem um bom entrosamento com a letra. Tem falhas, mas não tem grandes pretensões e, por isso, mesmo falha, passa bem. A segunda parte é bem melhor construída que a primeira, que em alguns momentos lembra pouco um samba-enredo. Acho apenas que o samba poderia ser levado em um tom mais baixo na primeira parte, pois alguns versos incomodam em uma audição mais atenta. Alexandre D’Mendes tem uma atuação despretensiosa como o samba e poderia ter gritado um pouco menos.

Letra do Samba: 4,8. Melodia: 4,8.Nota: 9,6.

Acadêmicos de Santa Cruz

Enredo: “Um pequeno menino se tornou um Grande Otelo”

Compositores: Zieco Santa Cruz, Ronny Remandiola, D’ Araújo, Marquinho Beija-Flor, Zé Glória e Dudu da Tijuca

Intérpretes: David do Pandeiro e Pavarotti

Está aí um samba que me surpreendeu muito na versão oficial. Com um enredo sobre o centenário de Grande Otelo, a Santa Cruz tem, talvez, o seu melhor samba desde que voltou ao Grupo de Acesso, lá em 2004. Letra e melodia apresentam um grande entrosamento e o samba apresenta boa riqueza poética e melódica, com variações interessantes, além de ser gostoso de cantar.

A primeira parte é o ponto alto do samba, logo depois de um refrão principal apenas “ok”. Os versos iniciais são brilhantes: “menino, pequeno sim / gigante em seu caminhar / sem eira, nem beira, venceu as barreiras / fugiu pelo mundo pra se libertar / em Uberlândia a pele negra, ama branca”. Acho apenas que os versos finais, “revista nesse teatro iluminado / no Cassino da Urca, uma Pequena Notável” são confusos. Eles fazem sentido, mas há de se fazer um esforço enorme para captar a concordância correta. No refrão do meio, de melodia muito interessante, me desagrada o trocadilho com “tê-lo” e “Otelo”.

A segunda parte tem uma melodia menos bem construída que a primeira, especialmente por conta dos primeiros versos, que destoam totalmente do desenho melódico do samba. Ainda assim, destaque para o verso “Eustáquio, ‘que queres’ moleque?”. Não é um sambaço, histórico, que vai marcar época, mas é um bom samba e que vai render bem na voz do grande David do Pandeiro e de Pavarotti, intérprete que não conhecia e que chamou minha atenção nessa gravação.

Letra do Samba: 4,8. Melodia: 4,9. Nota: 9,7.

Inocentes de Belford Roxo

Enredo: “Nelson Sargento – Samba inocente, pé no chão”

Compositores: André Malheiros, Miro, Manelão, Tico do Gato, Vinicius Ferreira, Juruna Zona Sul, Abílio Mestre-Sala, Chiquinho do Bar, Almir Há Há, Hélio Porto, Paulo Mauricio Brasil, Sidnei Pinto e Ricardo Barbosa

Intérprete: Nino do Milênio

Apostando na encomenda de samba-enredo, a Inocentes de Belford Roxo terá mais um bom samba para tentar voltar ao Grupo Especial. Com um enredo em homenagem aos 90 anos de Nelson Sargento, a escola de Belford Roxo traz uma obra que aposta na riqueza poética e em uma melodia mais bem trabalhada, com variações bem construídas e que valorizem a letra.

A letra em questão é das melhores do ano com sacadas muito inteligentes que fazem referência à carreira do grande sambista no Exército e com versos muito bem compostos como “salve a boemia, a nostalgia das madrugadas ao luar” e “sempre que regas melodia / vejo brotar a flor do samba”. Também vale o destaque para o verso “o samba agoniza, mas não morre” no refrão principal. A melodia também é muito correta, mas sinto falta de algum momento de maior explosão e acho o refrão do meio um pouco arrastado. Nino do Milênio, mais uma vez, não tem um bom desempenho.

Letra do Samba: 5,0. Melodia: 4,8. Nota: 9,8.

Unidos de Padre Miguel

Enredo: “O Cavaleiro Armorial Mandacariza o Carnaval”

Compositores: JR Beija-Flor, Ribeirinho, Toninho do Trailer, Carlinho do Mercadinho, W. Corrêa, Lauro Silva, Diego Rodrigues e Cabeça do Ajax

Intérprete: Marquinhos Art’Samba

Esse foi outro samba que cresceu bastante em sua versão oficial. A Unidos de Padre Miguel, com um enredo sobre as histórias de Ariano Suassuna, tem mais um grande samba que deve lhe ajudar a brigar pelas primeiras posições. A composição tem uma melodia rica, com variações muito bem construídas e ousadas. É um samba agradável de se ouvir e gostoso de se cantar. O refrão principal é simples e cumpre bem seu papel.

A letra também é muito boa com sacadas muito inteligentes, sobretudo na primeira parte. Os compositores traduziram fielmente a sinopse e construíram versos excelentes como “chora a poesia pra cotovia que não voa mais” e “ao lado de Caetana há mais de uma semana”. Muito bons são o refrão do meio e o começo da segunda parte, principalmente na segunda passada e o irresistível forró colocado na gravação: “é no Nordeste que a ‘bataia acuntece’ / sai pra lá, cabra da peste / ‘vade retro’ assombração”. Minha única ressalva é quanto à primeira parte ser um pouco complicada de se entender sem a sinopse. Apesar das boas sacadas, falta clareza na letra. Outro intérprete dos mais subestimados, Marquinhos Art’Samba tem ótimo desempenho.

Letra do Samba: 4,9. Melodia: 5,0. Nota: 9,9.

Império da Tijuca

Enredo: “O Império nas águas doces de Oxum”

Compositores: Bola, Dudu, Marcão Meu Rei, Márcio André, Gallo e Alexandre Alegria

Intérprete: Pixulé

Voltando ao segundo grupo após um rebaixamento bastante contestado, o Império da Tijuca tem mais um sambaço para a sua discografia, agora em um enredo sobre Oxum. Enredo afro não dá samba ruim, enredo afro no Império da Tijuca menos ainda. A composição tem dois refrões irresistíveis, que me remetem aos sambas dos tempos pré-Sapucaí. O primeiro com um “ooooo” muito bem sacado e o do meio ganhando muito com o estilo de gravação adotado pelos produtores do CD e ficou espetacular quando cantado só pelo coro.

A obra em si tem uma melodia envolvente, o que se chama de “pegada afro” e tem como grande mérito traduzir uma sinopse bastante confusa. O samba é didático, fácil de cantar e é gostoso de se ouvir. Eu, que não sou exatamente um entendedor das religiões africanas, entendi perfeitamente o começo, meio e fim do enredo através do samba – ao contrário da sinopse. O problema está lá no final, no inacreditável verso “como é bom te ter, a Formiga é você” uma alusão clara e forçada à frase “Presidente Tê: a Formiga é você”. No mais, samba brilhante. Pixulé mais uma vez se coloca como um dos principais intérpretes da atualidade ao conduzir de maneira brilhante o samba.

Letra do Samba: 4,9. Melodia: 5,0. Nota: 9,9

Renascer de Jacarepaguá

Enredo: “Candeia! Manifesto ao povo em forma de arte”

Compositores: Cláudio Russo, Moacyr Luz e Teresa Cristina

Intérpretes: Diego Nicolau e Evandro Malandro (Part. Especial: Teresa Cristina)

Quando três grandes compositores se reúnem para fazer um samba em homenagem a um dos maiores sambistas de nossa história, coisa ruim não pode dar. O enredo em homenagem à Candeia deu para a Renascer de Jacarepaguá um dos melhores sambas do ano com tudo aquilo que um grande samba deve ter: uma letra excelente, muito bonita, simples de cantar e uma melodia irresistível.

É um samba ousado, diferente, que poucos compositores apostariam em uma disputa e que só poderia vir mesmo de uma encomenda. Tem trechos sensacionais como “não basta ter inspiração / pra cantar samba é preciso muito mais” e um refrão principal pra se cantar com gosto. A melodia é perfeita do início ao fim com direito a um trecho espetacular em “é jongo, é camafeu é capoeira / olha o peixeiro na feira / Jurema no catimbó”. Não dá para não cantar e não dá para se cansar de ouvir. Evandro Malandro e Diego Nicolau conduzem o samba com correção.

Letra do Samba: 5,0. Melodia: 5,0. Nota: 10,0.

Acadêmicos do Cubango

Enredo: “Cubango, a realeza africana de Niterói”

Compositores: Sardinha, Gustavo Soares, Wagner Big, Diego Moura, Júnior Fionda, Lequinho, Gabriel Martins e Igor Leal

Intérprete: Preto Jóia

E vamos nós com mais um sambaço. Depois do sucesso do samba de 2014, a parceria vencedora da disputa do ano passado apostou na mesma fórmula para praticamente o mesmo enredo – agora sobre as raízes africanas da Cubango – e conseguiu um resultado ainda melhor. O samba tem uma melodia bem trabalhada, muito parecida com o de 2014, mas tem uma letra superior.

Não tem como não elogiar e muito os versos “aqui chegou aos olhos da Lei clandestino / mudando de vez seu destino / um novo caminho brilhou / em nossa terra a semente germinou”, na primeira parte, e “negro mantém a esperança / de ver um dia a bonança chegar / negro tem força e não cansa / é a essência africana a lutar”. É um típico samba afro, bom como quase todos do gênero, e que tem um refrão do meio espetacular, com destaque para os versos “se baixou deixa girar / pro ritual continuar”, esse último uma continuação, digamos assim, do “vai começar o ritual” do samba do ano passado. Preto Jóia conduziu bem o samba e adotou um estilo que casou bem com o estilo de gravação do CD. Por outro lado, o samba pedia interpretação e gravação mais valentes.

Letra do Samba: 5,0. Melodia: 5,0.Nota: 10,0.

Estácio de Sá

Enredo: “De braços abertos, de Janeiro à Janeiro. Sorrio, sou Rio, sou Estácio de Sá”

Compositores: Dominguinhos do Estácio, Tinga, Merica, Adriano Ganso, Eduardo Martins e Dani Meroneze

Intérpretes: Dominguinhos do Estácio e Leandro Santos

Para encerrar, o melhor samba do Carnaval de 2015 no Rio de Janeiro. Um verdadeiro poema à Cidade Maravilhosa, uma obra à altura de toda a grandeza da Estácio de Sá. Um samba que não é “só” espetacular em letra e melodia, mas é também um lindo samba. Aquele que você ouve e te emociona. Eu, que não sou carioca, fico arrepiado com essa maravilhosa obra que sobra em uma safra de muitos sambas de alto nível.

É um samba perfeito. O refrão principal é excelente com seu “Deixa Falar, aqui é Estácio” e a escola chega mandando seu recado nos versos iniciais da primeira parte: “eu sei que você me conhece / meu nome é Estácio de Sá / eu conquistei com orgulho esse chão / muito mais que inspiração / escolhi para ser meu lugar”. A poesia continua em “o por do sol mais dourado / deita-se na Guanabara / dorme entre o mar e a montanha / nos braços do Criador / que abençoa a todos / com nosso jeito de ser carioca alegre e festeiro / levando o Rio pra sempre no peito”.

A melodia, que tem perfeito entrosamento com a letra, cresce demais no refrão do meio, que também é muito bonito com seu “quando a pomba anunciou, a festa começou / chovem confetes pela cidade / na fé do negro, ê povo batuqueiro / ecoa aqui um grito de liberdade”. Na segunda parte, destaco a melodia nos versos “aros do esporte se entrelaçam / e o mar de esperança encontra Iemanjá”. Depois desse verso, porém, vem os versos mais brilhantes do Carnaval. Não, não é apenas do samba, é do Carnaval mesmo. É daqueles que certamente ficarão marcados na história: “se você quer matar-me de amor, que seja aqui / olha meu povo chegando, Medalha de Ouro na Sapucaí / pra cantar e cantar e cantar / não dá mais para segurar / a saudade apertou e agora eu vou voltar”.

Aí, meu amigo, aí não tem como segurar. Para melhorar, pelo menos no CD, a bateria de Mestre Chuvisco não acelerou muito o samba como de costume, o levando no andamento certo. Se a Estácio fizer tudo certo em termos plásticos, vai ser difícil da escola não matar essa saudade do Grupo Especial. Dominguinhos do Estácio voltou a fazer uma gravação excelente ao lado do jovem Leandro Santos, que mais uma vez se mostra um dos nomes interessantes da nova geração.

Letra do Samba: 5,0. Melodia: 5,0. Nota: 10,0.

Considerações Finais: safra muito boa, de muitos sambas de qualidade e que ganhou um CD diferente, com uma produção diferente. Eu gostei, embora tenha prejudicado um pouco alguns sambas, como o da Cubango, e feito outros, como Bangu, Em Cima da Hora, Tuiuti e, principalmente, Império da Tijuca, crescerem muito. Do melhor para o pior, em minha avaliação, temos os sambas de:

  1. Estácio de Sá
  2. Acadêmicos do Cubango
  3. Renascer de Jacarepaguá
  4. Unidos de Padre Miguel
  5. Império Serrano
  6. Império da Tijuca
  7. Inocentes de Belford Roxo
  8. Em Cima da Hora
  9. Paraíso do Tuiuti
  10. Unidos de Bangu
  11. Acadêmicos de Santa Cruz
  12. Alegria da Zona Sul
  13. Unidos do Porto da Pedra
  14. União do Parque Curicica
  15. Caprichosos de Pilares

6 Replies to “Os sambas de enredo da Série A para o Carnaval de 2015 – II”

  1. Olha… é bom considerar que esse samba do Império da Tijuca pode crescer muito mais na avenida. Pixulé é intérprete de avenida. Vai saber levar esse samba pra incendiar o sábado. Pra mim, o Imperinho é uma das únicas escolas que pode impedir o acesso de Estácio e/ou Renascer – ao menos pelo samba e pelo que ele pode render na avenida.

    1. Renascer, ao menos para mim, é carta fora do baralho. Não pelo samba, mas por outros fatores. Pra mim, a Estácio é a grande favorita e só pode, de fato, ser surpreendida pelo Imperinho, pela Cubango ou pela Unidos de Padre Miguel.

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