Não sou cientista político, não sou pitonisa nem adivinho. Mas divido com os leitores algumas impressões e tentativas de predições, faltando 10 dias para o pleito em seu primeiro turno. Em tópicos, vamos lá:

1) Improvável, mas não impossível (Parte I): a Presidenta Dilma se reeleger em primeiro turno. Por mais que as pesquisas estejam divergentes – tema do próximo tópico – parece claro que há um crescimento nas intenções de voto da atual Presidenta. O que não sabemos é se será suficiente para liquidar a fatura em primeiro turno – acho improvável, mas não me parece impossível como era até duas semanas atrás.

A meu ver, é um crescimento até esperado: a propaganda eleitoral mostrou as iniciativas do governo nos últimos quatro anos e contrabalançou a campanha disfarçada feita por alguns órgãos de imprensa, o que se refletiu em aumento dos índices de aprovação e, consequentemente, de votos.

Além disso, os seguidos erros cometidos pela campanha de Marina Silva parecem ter afastado da candidata parcela do eleitorado mais à esquerda, que, ao que parece, alinharam suas intenções de voto à atual Presidenta.

2) Pesquisas: tem alguém mentindo. Os últimos números dos institutos de pesquisas para Presidente, que trouxeram divergências significativas entre os diversos institutos, deixaram claro que há algum tipo de manipulação política envolvida. Quem está fazendo? Não se sabe até agora.

Pessoalmente, meu feeling é de que os números reais estão em um meio termo entre os divulgados ontem pelo Vox Populi e os do Ibope.

Vale lembrar que somente se definindo de forma diferente a amostra pesquisada já se consegue influenciar significativamente o resultado esperado – pelo menos alguma coisa de Estatística na faculdade ainda me lembro…

20140906_0952513) Improvável, mas não impossível (Parte II): Pezão (PMDB) liquidar a fatura em primeiro turno.

O leitor deve estar pensando que enlouqueci, haja visto que a última pesquisa deu 29% para o candidato peemedebista e 26% para Anthony Garotinho (PR). Lembrem-se, contudo, que o PMDB carioca tem muita capilaridade na Baixada e no Interior, e historicamente os candidatos do partido crescem muito na reta final.

O mesmo vale para a disputa ao Senado: apesar da grande diferença de Romário (PSB) para Cesar Maia (DEM), o trabalho dos cabos eleitorais do PMDB deve deixar a disputa bem mais apertada, apesar da altíssima rejeição do ex-prefeito na capital fluminense.

4) Votos petistas migrando para Garotinho. É a única explicação que encontro para a queda expressiva dos números do candidato petista Lindbergh Farias na última pesquisa. Esta migração pode ser explicada por dois fatores: o desempenho de Garotinho na recente entrevista ao RJ-TV – onde fez críticas pesadas à Rede Globo de Televisão – e ao apoio explícito dado pelo candidato à reeleição da presidenta Dilma Rousseff.

5) Pezão é favorito no segundo turno, “ma non troppo”. Até pela máquina do Estado a seu favor, o atual governador é favorito, mas com os tempos de tv igualados não acredito que seja uma “lavada”. Neste primeiro turno Pezão tem praticamente 70% do tempo total de televisão e rádio, o que gera um desequilíbrio evidente – situação que não se repetirá no segundo turno. Por outro lado, a alta rejeição de Garotinho atrapalha bastante em um segundo turno.

Aliás, sua propaganda leva o eleitor desavisado a pensar que Pezão não é o atual governador, e sim oposição ao governo. Também esconde o ex-Governador Sérgio Cabral e o líder máximo do PMDB do estado, Jorge Picciani – que muitos analistas afirmam ser o governador de fato do Rio de Janeiro desde 2007. Diga-se de passagem, a chapa do atual governador é a fina flor do reacionarismo carioca, com Francisco Dorneles (PP) de vice e Cesar Maia como candidato ao Senado.

Em um segundo turno onde as duas chapas, digamos, possuem inúmeras visitas aos Fóruns e Tribunais da vida em seus currículos, sem dúvida alguma a tarefa será votar no menos pior. Confesso ao leitor que estou inclinado a anular, mas a cada vez que ouço a propaganda de Pezão mais me dá vontade de mudar de ideia e votar em Garotinho. A conferir.

20140906_1641246) O que há com Padilha em São Paulo? Que a candidatura do ex-Ministro não decolou é fato. Mas o PT em terras bandeirantes sempre teve um piso de cerca de 20% dos votos, independente de candidato, e as pesquisas indicam um número atual bem abaixo disso. Por outro lado, pelo que tenho visto da campanha a recepção parece estar sendo mais representativa que os atuais índices ostentados.

Cartas para a redação.

7) Em Minas, sem blindagem complicou. O candidato tucano à Presidência Aécio Neves, salvo uma reviravolta nestes dias restantes, deverá levar uma surra histórica em seus domínios, tanto no sufrágio presidencial como no Governo do Estado.

Isso pode ser explicado pela “quebra” da blindagem de que o PSDB mineiro dispõe dentro do Estado, com a imprensa local controlada a ferro e fogo direto do Palácio das Alterosas. Com Aécio candidato e exposto não somente nos debates como em setores da imprensa nacional, parece que os mineiros perceberam que os anos do PSDB no poder, afinal de contas, não foram nem perto do que a propaganda oficial apregoa.

Por outro lado, o ex-Governador Antonio Anastasia deve se eleger senador com alguma folga.

8) O fenômeno Perillo em Goiás. Mesmo com a apresentação de fartas provas ligando seu nome à quadrilha do contraventor Carlinhos Cachoeira – se o STF não abriu processo contra ele é outra história – o governador goiano não somente lidera as pesquisas como pode vencer ainda no primeiro turno. Não conheço profundamente a política do estado, mas me é bem surpreendente esta predição.

Em tempo: Ronaldo Caiado está praticamente eleito para o Senado pelo estado.

20140906_1646299) O contorcionismo do PT maranhense. Embora oficialmente o partido, em decisão imposta pelo diretório nacional, apoie o candidato dos Sarney, Lobão Filho (PMDB), na prática o que se vê é a militância fazendo campanha para Flávio Dino (PCdoB), líder nas pesquisas.

Note-se que, no Maranhão, a campanha não termina na urna – Jackson Lago foi retirado pela Justiça em 2009 em manobra com as digitais do clã, e dada posse à atual governadora Roseana Sarney.

Não é a única aliança insólita do PT nos estados: aqui mesmo no Rio de Janeiro o partido está coligado com o PSB e, em Alagoas, apoia a reeleição de Collor de Mello ao Senado contra Heloisa Helena (PSOL) – esta, apoiada pelo PSDB.

Essas alianças insólitas talvez sejam um preço a pagar pela manutenção do poder central, mas tem sua contrapartida no fato de que, à exceção de Minas Gerais, o PT não deverá conquistar nenhum estado de peso nas eleições para governador – embora não esteja fora do páreo no Rio Grande do Sul e tenha remotas chances na Bahia.

10) Bater na Petrobras dá voto? A campanha eleitoral vem sendo marcada por ataques intensos à governança da Cia, a ponto de respingar no quadro de empregados – tachado de “pouco produtivo” e “conivente com a corrupção” em recente spot de rádio de um dos candidatos à Presidência. Isso reforçada por setores da grande mídia, que não escondem sua disposição ideológica sobre o tema.

Que a Petrobras e seu quadro técnico viraram a “Geni” destas eleições é fato. A dúvida é até que ponto a empresa, considerada um orgulho nacional pela população, pode influenciar nas intenções de voto.

Aqui no Rio, onde a economia é fortemente dependente do petróleo e há muitos empregados e suas famílias, o efeito foi claro, em especial na queda dos índices da candidata Marina Silva (PSB). No restante do Brasil, não sei qual o resultado desta estratégia eleitoral.

20140906_16450111) Voltando a São Paulo, o Fenômeno Alckmin. Ainda que com alguns graves problemas de gestão – onde o iminente e severo racionamento de água e o escândalo das propinas conhecido como “Trensalão” são os mais graves – não somente o atual governador Geraldo Alckmin deve se reeleger em primeiro turno como José Serra é o favorito na corrida ao Senado.

Ainda que se saiba que o PSDB local conta com imensa simpatia da grande mídia e que os problemas maiores são mais restritos à capital e região metropolitana, parece ser um caso de “teflon” político: nada é percebido pela população como culpa do grupo político dominante, que vai para duas décadas ininterruptas no poder.

Longe de esgotar os assuntos, eis alguns pitacos. O leitor pode complementar na área de comentários.

9 Replies to “Algumas Notas sobre as Eleições de 2014”

  1. Vou falar de São Paulo onde voto e que pra mim tem de longe a situação mais inacreditável é a de São Paulo, quanto mais escuto o Alckmin, mais tenho certeza que São Paulo gosta de sadomasoquismo, as propostas do Alckmin são praticamente as mesmas de 4 anos atrás, ou seja propostas não cumpridas. Entendo que o interior de grosso modo pensa que tudo está muito bom, e isso talvez justifique em parte a atual situação, mas mesmo assim, a situação na Capital e região metropolitana, deveria por a situação das eleições pelo menos num segundo turno, mas isso não acontece, o que me intriga cada vez mais…

    1. Tem um pouco da blindagem da imprensa, um pouco de boa vontade dos institutos de pesquisa e muito do reacionarismo típico dos paulistas

  2. Sobre São Paulo ainda, eu acho completamente impossível o Padilha ter apenas 8% a campanha melhorou significativamente nas últimas duas semanas, com comícios espalhados pelas regiões petistas, além de algumas regiões do eleitorado bruto do Alckmin, como ITU que está em pé de guerra sobre a situação da água, ou seja não é possível que após as últimas duas semanas, ele não tem crescido nada.

    Sobre o Skaf, outra coisa que não dá pra entender, de longe é a campanha bem mais feita, além disso, ele é um cara que não tem a rejeição do PT, e poderia se aproveitar do eleitorado mais bruto do Interior, mas não é o que acontece, nas últimas duas pesquisas, caiu 6 pontos, ou seja a situação é cada vez mais inacreditável.

    1. Bruno, algo que me lembrei: nas duas últimas eleições os institutos de pesquisa só captaram a subida do candidato do PT “em cima da hora”. Minha percepção é parecida com a sua, como pontuei no texto.

      1. Entendo tudo isso, Migão, mas ainda fico inconformado, converso com algumas pessoas, e poucas bem poucas declaram voto no Alckmin, não sei se é o meu ciclo de amizade, mas não consigo entender, como metade da população paulista declara voto ao Alckmin nessas pesquisas.

  3. Por que a surpresa com Goiás e São Paulo? Pq os líderes nas pesquisas estão ligados a denúncias de corrupção?

    Isso ocorre tb na corrida presidencial, não é?

      1. Ah, tá. Então a diferença é a competência. Alckmin é incompetente e tem isso “disfarçado pela imprensa”.

        O governo Dilma — país praticamente parado por 4 anos, pressão inflacionária — é competente?

  4. A incompetência do Alckmin é disfarçada sim, você não vê com veemência nos telejornais os problemas que o estado sofre ou vê? Não considero o governo da Dilma totalmente competente, mas ele é bem melhor em qualquer nível que o governo do Alckmin em SP.

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