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Orun Ayé – “A sociedade Nelson Piquet”

Ainda aproveitando a repercussão dos 20 anos da morte de Ayrton Senna, falo de outro brasileiro tricampeão mundial de Fórmula 1. O esquecido – e acredito que ele queria que seja assim – Nelson Piquet.

Nelson Piquet completou 60 anos antes de Zico e seu aniversário não teve a mesma repercussão que o do Galinho teve. Sofreu um acidente que quase o matou, esse acidente completou 20 anos e ninguém lembrou. Por quê?

Porque a personalidade de Piquet é assim.

Piquet nunca quis ser exemplo de atleta, nunca quis ser o bom moço, namorar estrelas de televisão ou levar a bandeira do Brasil no carro na volta da vitória. Nunca fez questão de ser simpático e ganhou o troféu “limão” da F1. Muitas vezes mal humorado, ríspido, brigão, teve uma briga que beirou a comédia com troca de socos em capacetes com Eliseo Salazar após uma colisão na pista.

Mas mesmo assim muitos gostam dele. E eu sou um deles, bem como o Migão e outros colunistas.

Gosto de F1 e comecei a acompanhar as “baratinhas” no começo dos anos 80. Acredito que minhas primeiras recordações de F-1 sejam de 1983, portanto no bicampeonato de Nelson Piquet. Portanto antes da “existência” de Ayrton Senna.

Para quem começou a acompanhar F-1 no auge do Senna ou para a molecada que veio após sua morte fica difícil imaginar que possamos gostar mais de um piloto que de Ayrton, mas acontece. Não há demérito nenhum nisso para Senna, que foi um piloto espetacular, não só um dos melhores pilotos como um dos maiores ídolos brasileiros de todos os tempos. Mas a gente não escolhe um ídolo por suas vitórias e sim por identificação.

Aliás, é uma enorme babaquice essa rivalidade entre torcedores de Piquet e Senna que dura até hoje, parecendo briga de comadres. Os dois eram pilotos espetaculares, tinham personalidades diferentes e o mais importante: eram brasileiros. Quem deprecia um piloto brasileiro campeão merece os de hoje.

sennapiquetContinuando. Comecei a torcer e ser fã do Piquet antes do Ayrton chegar a F-1 e a gente não costuma mudar de ídolo. Foi isso que fiz, não mudei, mesmo indo contra a maré de todos torcerem para Senna.

Piquet e Senna tinham qualidades e defeitos como pilotos e pessoas. Piquet era o cara que ganhava troféu limão, mas divertido, bonachão, parecia curtir a vida em sua plenitude não ligando para imagem. Foi capaz de ser homenageado num GP Brasil pilotando uma Brabham 30 anos depois de um título por Interlagos e no auge da fanfarronice dar a volta agitando uma bandeira do Vasco – diante de muitos torcedores corintianos na reta final de um Brasileirão no qual os dois clubes brigavam pelo título.

Tipo do cara que vai tirar uma foto com o maior rival e coloca “chifrinhos” nele.

 Acabou tendo uma imagem amaldiçoada.

Uma imagem perfeita foi construída em volta de Senna. Cara de família, bom filho, irmão, bom tio, trabalhador,esforçado, talentoso, corajoso, certinho, patriota… Ele até poderia ser tudo isso. Mas quem garante que Nelson também não é? Na intimidade ele não seja tudo isso?

Ayrton também era bonachão, gozador, existem várias histórias dele com Berger, também brigava, colecionava inimigos, tinha tendências políticas esquisitas e causou um acidente numa corrida que poderia ter matado seu companheiro de profissão e a ele.

Não existem pessoas totalmente más e boas. Existe aquilo que as pessoas querem mostrar e principalmente o que queremos ver.

Por quê de novo esse assunto Senna e Piquet? Por quê de novo falar de Fórmula 1? E quem disse que essa coluna é sobre Fórmula 1?

Não. Não é.

Sabe por quê o brasileiro, a nossa sociedade prefere Ayrton Senna em relação a Nelson Piquet? Porque ficou a marca que Nelson Piquet é sujo, mau caráter, malvado, bandido e Senna o bonzinho, mocinho, perfeito.

Ayrton Senna é o que o brasileiro quer ser.

O brasileiro. Sim o brasileiro que, por exemplo, apoiou quando alguns “justiceiros” amarraram um moleque infrator em uma árvore sem roupas depois de bater nele.

Vibraram, deliraram, repetem a esmo o lema “bandido bom, é bandido morto”. Defendem a justiça com as próprias mãos e quando alguém se levanta contra, pede que a justiça seja feita e existem leis para isso propondo um debate soltam as pérolas “leva pra casa” ou “vai pra Cuba”. Argumentos idiotas de pessoas idiotas que não sabem debater.

Aplaudem comediante que faz piada ofendendo, humilhando, esquecendo que a piada é uma forma do oprimido se vingar do opressor, não o contrário. Aplaudem jornalista que incentiva o “Olho por olho, dente por dente”.

E ficam com cara de bunda quando lincham uma inocente que pensavam ser sequestradora de bebês como o caso do Guarujá.

O que faz um cara que lincha ao descobrir que era inocente a vítima? Diz “foi mal, desculpa aê, foi nada pessoal”? O que diz alguém que tem penetração pública e incentiva a barbárie quando algo assim acontece?

E um parente da linchada? Ele tem direito de matar quem linchou a mulher? Tem né? Faria justiça.

Como disse o Pedro Migão em brilhante artigo, todos têm sangue nas mãos.

É linchamento de inocentes, é racismo, é arbitrariedade policial, é mensalão, trensalão, briga de torcidas, gente morrendo com privada na cabeça, traficante humilhando policial, policial humilhando povo, povo querendo dar jeitinho pra se dar bem e falando mal de político que faz o mesmo, político que ta nem aí pro país e só quer levar o seu…

… Todos os assuntos que eu já falei uma porrada de vezes, que vários colegas falaram uma porrada de vezes, que já encheram o saco.

Eu estou de saco cheio de falar nesses assuntos, de uma vez por mês pelo menos escrever uma coluna no Ouro de Tolo ou em meu blog porque nossa sociedade fez alguma merda.

Sempre falamos que o povo brasileiro é um povo honesto, trabalhador, guerreiro, sofrido e é verdade. Mas também é um povo bunda, um povo terceiro mundista que quer levar vantagem em tudo, que se acha no direito de julgar os outros fazendo merda, que come risole de frango e arrota caviar. Um povo que a justiça só interessa quando é a seu favor.

Ninguém quer uma vida justa, quer uma vida em que se dê bem. E com isso tudo a que conclusão que chego?

Que o povo brasileiro, a nossa sociedade sonha em ser Ayrton Senna, mas é Nelson Piquet.

Somos a sociedade Nelson Piquet. Bem humorados, gozadores, mas cheios de falhas, erros e fazemos chifre no otário ao lado. E não achem isso ruim. Poderia ser pior. Sociedade Felipe Massa.

Não somos ruins, mas estamos muito longe de ser os bonzinhos que pensamos. Somos legais, mas nem tanto. Ninguém vai assumir o linchamento da mulher no Guarujá. Somos assim. Quando a coisa aperta assoviamos e fingimos que não é com a gente.

jairrodriguesNão precisávamos ser a sociedade Ayrton Senna. Quem dera se fôssemos a sociedade Jair Rodrigues. Levando a vida com sorriso no rosto, alegria e sem fazer mal a ninguém.

Não quero ser esperto como Nelson nem perfeito como Ayrton.

Feliz como Jair já bastava.

2 Respostas para “Orun Ayé – “A sociedade Nelson Piquet””

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  1. […] colunas que chamaram a atenção e causaram repercussão. A última foi a de domingo passado: “A sociedade Nelson Piquet”. A total democracia e liberdade que o Migão nos dá para escrever e o nível acentuado de […]

  2. […] sua realização. Isso delimita datas e prazos e é especialmente necessário no Brasil com sua “Sociedade Nelson Piquet” que adora ser […]


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