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http://www.youtube.com/watch?v=u1_YluE-ePA

Neste domingo de Páscoa, a coluna “Orun Ayé”, do compositor Aloisio Villar, relembra algo para que não se repita: o aniversário do Golpe Militar de 1964. No decorrer do post o leitor pode ver os programas citados no artigo.

Anos de Chumbo

No final do ano passado a ESPN Brasil, através do jornalista Lúcio de Castro, fez uma série chamada “Anos de Chumbo” mostrando os bastidores das ditaduras militares de Brasil, Argentina, Chile e Uruguai – e sua relação com o futebol. Vi e revi os documentários e fiquei muito impressionado.

Na hora pensei que valia uma coluna. O problema é que o ano começou e muitos assuntos foram surgindo, o carnaval a pleno vapor… e fui adiando. Quis o destino que o dia 31 de março esse ano caísse em um domingo. A data perfeita.

Hoje é um dia pra lembrarmos. É domingo de Páscoa, o da ressurreição de Cristo onde com a família celebramos o amor Dele por nós, o sacrifício que fez pela humanidade e dia de estarmos em comunhão com a família.

Mas também é dia de lembrar outra data. Os quarenta e oito anos do golpe militar que pôs o Brasil na escuridão por vinte e um anos.

Uma grande vantagem dos tempos de democracia estável em que vivemos. Podemos falar a palavra “golpe”. Quando eu era criança os livros falavam em “revolução”.

E aí vai o primeiro erro que este aqui que é especialista em nada e dá pitaco em tudo acha que existe. Na minha humilde opinião uma revolução é feita quando querem mudar o sistema, o status quo, a realidade em que vivemos e essa de 1964 foi justamente para manter tudo como estava.

Inventaram um inimigo, o presidente João Goulart, inventaram um motivo, o risco do país virar comunista. Um parêntese: documentos indicam que esse golpe teve apoio e patrocínio dos Estados Unidos, mestres em inventar motivos e vilões. Como no ataque ao Iraque onde falavam em armas químicas e não acharam nem um trinta e oito, mas esse assunto de repente vem em outro texto.

Golpe feito pelas classes dominantes do país. Apoiado pela classe média, pela TFP, pela imprensa e por muitos políticos que se amedrontavam com a “ameaça comunista”. Golpe dado com a promessa que duraria pouco e durou muito. Golpe que aos poucos fez boa parte desses que apoiaram ver que foram traídos e se tornarem alvos daqueles que apoiavam.

Golpe dos ais, do AI 5 e do ai de dor que provocou em quem lhe opunha e em suas famílias.

As ditaduras sul americanas calaram vozes. Seja com a censura, seja com os desaparecidos políticos como Rubens Paiva, cuja família não conseguiu lhe dar um enterro. Sejam os argentinos que eram torturados enquanto os compatriotas vibravam com os gols na Copa, aquelas pobres mães em vigília na Plaza de Mayo por seus filhos que nunca retornaram pra casa. Os chilenos assassinados no Estádio Nacional.

A ditadura provoca feridas nunca cicatrizadas. Provocam sentimentos contraditórios como ver o governo admitir que Wladimir Herzog foi assassinado em suas dependências. Ao mesmo tempo o alívio da admissão de culpa e o fim dessa via crucis traz o sentimento ruim de saber que passamos por tudo isso e pessoas que deviam nos proteger foram capazes de tais atrocidades.

Provocou arte de grande valor, o biscoito fino de nossa história nas vozes e nos talentos que poucas vezes esse país viu. Provocou exílio dessas mesmas cabeças pensantes. Não era proibido proibir, era proibido pensar. Gente foi presa, torturada e obrigada a sair do país apenas porque pensava diferente. Apenas porque queria liberdade. Liberdade de pensar, de agir, de ir e vir, coisas tão comuns em qualquer ambiente democrático. Mas não éramos uma democracia.

Alguns morreram nos porões do DOPS, alguns na guerrilha do Araguaia, outros nunca saberemos como. Enquanto o Brasil estava em guerra a imagem passada para o país era diferente. Do Brasil que crescia.

“Ninguém segura esse país”, “eu te amo meu Brasil, eu te amo”, “Brasil ame-o ou deixe-o”. O Brasil dos noventa milhões em ação que vibrava com os gols de Pelé em cia e crescia com o progresso atravessando a transamazônica.

Reclamamos muito do Brasil de hoje, com razão já que existem muitos motivos de reclamação. Mas nós que não vivemos a ditadura militar em sua plenitude temos noção do que é viver sob um regime de exceção?

A noção de ter sua casa invadida a qualquer hora e levarem uma pessoa da família? O desespero de não saber como ela está? Saber que pode não voltar? Não saber em quem pode confiar?

Não ter direito a pensar, a falar, a votar. Hoje reclamamos quando temos que assistir horário político ou então votar. Temos noção de quantos sofreram afogamento em um barril, foram colocados em um pau de arara, tomaram eletrochoques, foram seviciados, tiveram as bocas colocadas em canos de descarga de carro, jogados de helicópteros, humilhados, assassinados apenas para que perdêssemos alguns minutos de um domingo qualquer pra ir votar?

Quantas petições on line valem o gesto de enfrentar uma ditadura? Sejam os cem mil da passeata pela morte do estudante Edson Luis ou um simples gesto como parar um tanque na Praça da Paz Celestial – que não foi uma ditadura sul americana, mas é uma ditadura que existe até hoje.

Aliás, não vejo diferença entre ditaduras. Seja militar, civil, de direita, esquerda, no Brasil ou em Cuba a melhor das ditaduras nunca será superior à pior das democracias. Ditaduras são como estupro: não há atenuante no estupro porque a mulher era prostituta ou trajava vestido curto, não há atenuante em ditadura se ela investe em educação, cultura, esportes ou obras.

Porque tudo isso tem seu preço. Educação de verdade ensina o certo, não apenas o seu lado, o mesmo pode se dizer de cultura, esporte que o esportista tem que fugir do país não pode ser considerado. Obras faraônicas como grandes estradas que ligam o nada a lugar nenhum ou usinas nucleares que expõem a população a riscos e geram dívidas serão pagas nas gerações futuras.

Calar uma oposição, filtrar informações, ensinar apenas o que quer cria gerações de acéfalos e demora em passar esse problema. Vinte e um anos em que vivemos numa democracia e o brasileiro ainda não aprendeu a pensar, ainda não aprendeu a ser cidadão com seus direitos e deveres. O brasileiro é o japonês que não sofre as conseqüências de uma bomba atômica, mas de uma bomba moral que ainda deixa vestígios. Ainda deixa radioatividade.

http://www.youtube.com/watch?v=NbzdzCMiQSQ

Deixa penumbra, deixa mistérios. Uma caixa preta que ninguém tem coragem de abrir, uma lei de anistia em que muitos comemoram, mas que serviu principalmente pra encobrir crimes, ao contrário da Argentina que pune os assassinos de seu regime totalitário. O Brasil mesmo sendo uma democracia estabilizada é uma democracia com medo. Medo dos fantasmas que lhe percorrem a alma arrastando as correntes.

A impressão que dá enquanto não é aberto tudo o que ocorreu no regime militar é que o Brasil ainda vive dentro do DOPS.

Mas taí a comissão da verdade, estão aí os fatos que pipocam no dia a dia, como do presidente da CBF José Maria Marin então deputado estadual pedindo a prisão do Herzog.

Os criminosos do regime estão envelhecendo, morrendo; não podemos deixar tudo nas mãos divinas para resolução. Temos que nós punir os culpados que ainda não perecem no inferno para nunca mais nós voltarmos ao inferno.

Hoje é 31 de março de 2013. Dia de lembrar, lembrar muito. Lembrar o quanto a liberdade é importante, o quanto a discordância é válida. Lembrar aqueles que lutaram, aqueles que perderam a vida, os torturados, os exilados, os brasileiros que queriam um país melhor e pagaram por isso de alguma forma.

E também aqueles que tanto combateram o governo e quando viraram um se venderam. Viraram corruptos, condenados da justiça e hoje mancham todo um passado.

Temos datas pra tantas coisas nesse país, 31 de março devia ser o dia da liberdade. Devia ser um feriado tão importante quanto 7 de setembro e ensinado em sala de aula como o dia que nos tiraram algo tão importante, mas o pessoal que partiu num rabo de foguete trouxe de volta.

Que os anos de chumbo sejam apenas um capítulo triste de nossa história e essa atrocidade toda apenas faça parte de um documentário.

Apesar de você. Hoje já é novo dia.

[N.do.E.: embora a historiografia consagre 31 de março como o aniversário do Golpe Militar, os historiadores não militares, hoje, consideram 1º de abril como data real do golpe. Mas, sendo um ou outro, não importa. Importa é a lembrança para que jamais se repita]

3 Replies to “Orun Ayé – “Anos de Chumbo””

  1. Perfeito, mas discordo de uma parte (a democracia é ótimo por isso. Não é perfeita, mas prefiro a “pior” democracia do que a “melhor” ditadura de esquerda ou direita).

    Sou a favor da comissão da verdade, mas não para punir. Apenas para esclarecer os fatos do regime. A Lei da anistia foi uma via de mão dupla… Para os militares, quem lutou contra o regime e os guerrilheiros que lutaram com armas, sequestraram e roubaram. A lei da anistia foi uma vitória. Foi o inicio da queda do regime, Foi a queda da ditadura.

    E uma pequena correção: é 49 anos. Em 2014, serão completados 50 anos da “revolução”, do golpe!

    1. Mais ou menos. Quem se opôs ao regime foi torturado, exilado ou preso. E os algozes e torturadores?

      1. Como diz no texto, estão velhos e muitos mortos. Se é para punir, vamos punir os guerrilheiros – que roubaram e sequestraram – juntos com os militares. Sou a favor da comissão da verdade para esclarecer, trazer a verdade. Não para revanchismo. E, a presidente Dilma concorda comigo. Pode pegar as declarações dela sobre a comissão da verdade.

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