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Histórias Brasileiras – “O Mártir da Ciência”

Nesta quinta a coluna “Histórias Brasileiras”, do historiador Luiz Antonio Simas, parte de um lindo – e pouco conhecido – samba de enredo para contar a história do médico Oswaldo Cruz na erradicação da febre amarela.

Oswaldo Cruz que, aliás, acabou ligado de outra forma ao samba – ele dá nome ao bairro que é o berço da nossa querida Portela.

O Mártir da Ciência

Um dos sambas de enredo mais bonitos que conheço é o “Benfeitores do Universo”(acima), cantado em 1953 pela velha Cartolinhas de Caxias. Hélio Cabral foi o autor da obra-prima com a qual a escola desfilou no carnaval da Baixada Fluminense.

A Cartolinha de Caxias, para quem não sabe, uniu-se em 1972 às escolas União do Centenário, Capricho do Centenário e União da Vila São Luís para formar o GRES Grande Rio – agremiação que, em 1988, foi incorporada pela Acadêmicos de Duque de Caxias no processo que deu origem ao GRES Acadêmicos do Grande Rio.

Em meio a personagens como Santos Dumont, Pedro Américo, Aleijadinho, João Caetano, Rui Barbosa, Carlos Gomes, Castro Alves e José do Patrocínio, o samba da Cartolinhas exalta a figura maior do Dr. Oswaldo Cruz, louvado pelo sambista como o “mártir da ciência”. O samba é bonito pacas e a homenagem é justa. Explico as razões.

“Se eu não exterminar a febre amarela em três anos, pode me fuzilar”. Foi assim que o jovem sanitarista Oswaldo Cruz – tinha apenas 29 anos na ocasião – embarcou na proposta do presidente Rodrigues Alves, que prometera sanear na marra a cidade do Rio de Janeiro.

Viver pelas bandas do Rio no início do século XX, é bom esclarecer, não era exatamente uma beleza. A febre amarela atacava no verão (causando cerca de mil e duzentas mortes por ano); a varíola fazia a festa no inverno (três mil e tantos defuntos por temporada) e, em todas as estações, a peste bubônica espalhava a morte pelo balneário de São Sebastião.

O presidente da República, que tinha perdido um filho numa epidemia de febre amarela, deu carta branca para que Oswaldo Cruz resolvesse os problemas das epidemias. O sanitarista não conversou e mandou brasa na campanha de higienização do Rio.

Para começar, criou um esquadrão que caçava ratos pela cidade, com o intuito de atacar a peste bubônica. Obteve a adesão entusiasmada da população, ainda mais quando prometeu que pagaria 300 réis por ratazana morta. Teve malandro que, para sair do sufoco, começou até a negociar a venda de roedores no mercado paralelo.

Após a campanha vigorosa e bem sucedida contra a peste, a ordem era liquidar os mosquitos para eliminar a febre amarela. Foi criada uma brigada de combate aos focos, com autorização para invadir residências, pulverizar casas, interditar mocambos e, em último caso, tacar fogo em tudo.

O que a imprensa carioca fez com o sanitarista não está no gibi. Oswaldo Cruz foi ridicularizado em dezenas de caricaturas, recebeu o epíteto de “czar dos mosquitos” e ganhou fama de maluco – já que pouca gente acreditava que eram de fato os insetos que transmitiam a febre amarela.

O principal assessor de Cruz, o Dr. Carneiro de Mendonça, chefe da brigada mata-mosquito, foi chamado de “mosquiteiro-mor”, “fanático estegomicida”, “Maomé do sanitarismo”e “Dona Maria, a louca do saneamento público” pelos homens de imprensa mais aguerridos.

Mal sabiam os detratores que o homem estava certo. Oswaldo Cruz, atualizado com o que havia de mais moderno na medicina sanitarista, acreditava firmemente na descoberta do médico cubano Carlos Finlay, que em 1881 afirmara que o mosquito rajado Aedes aegipty, nosso velho conhecido, era o transmissor da maldita febre.

O esforço de guerra funcionou, o mosquito era mesmo o vilão da novela e o sanitarista, tremendamente ridicularizado, liquidou a doença, conforme prometera ao presidente da República. Hoje, na cidade que vez por outra é sitiada pela dengue, as armas mais eficientes da saúde pública contra os insetos parecem ser mesmo as raquetes chinesas que, vendidas por uns caraminguás nos sinais de trânsito, matam os insetos eletrocutados com requintes de crueldade.

Nada se comparou, porém, ao bafafá que explodiu quando o Congresso aprovou a proposta mais polêmica da revolução sanitária de Oswaldo Cruz; a lei da vacina obrigatória contra a varíola. Mas isso é papo para outro texto. Prometo contar em breve, com direito a mais samba, como é que foi o fuzuê da vacinação.

Abraços.

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