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Mostrando o caráter democrático deste blog, a coluna “Orun Ayé”, do compositor – e rubro negro como o Editor Chefe – Aloísio Villar faz uma homenagem ao Vasco da Gama por ocasião da passagem do aniversário do clube, ocorrido na última terça feira.
Não é a primeira vez que o clube alvinegro é tema deste blog. Quando da conquista da Copa do Brasil ano passado o título foi tema de post de autoria da colunista  – ela sim, vascaína – Anna Barros.
Aproveito para parabenizar a equipe cruzmaltina e ressaltar que rivais fortes fazem o futebol forte, como escrevi em outra ocasião.
Sua imensa torcida é bem feliz
Bem, é domingo, dia de mais uma coluna e hoje vou falar do aniversário do Vasco.
É… É isso mesmo, vou falar do Vasco. Não, não fiquei maluco.
Quem me conhece sabe que sou rubro-negro fervoroso, apaixonado e que um dos meus esportes favoritos é brincar com os vascaínos. Provoco, debocho, tiro do sério, mas procuro sempre manter tudo nos termos da brincadeira e do respeito.
É assim que eu vejo futebol: como uma grande brincadeira, motivo para confraternizar com os amigos e rir um pouco esquecendo os problemas do dia a dia.
Tem gente que leva o futebol pro lado do ódio, vê como inimigo um ser humano apenas porque ele torce por outro clube. 
Esse modo ridículo e nojento de ver a vida e o futebol nunca verão comigo e em uma semana que torcedores do Flamengo assassinaram um vascaíno [N.doE.: pior, ao que parece um dos suspeitos pertence à Torcida Jovem do Flamengo mas segundo consta sequer torce pelo clube] achei por bem fazer uma coluna dessas.
Principalmente por eu ser assumidamente um “rubro negro” chato e que torce contra o Vasco em tudo que é possível.
O Clube de Regatas Vasco da Gama foi fundado em 21 de agosto de 1898 por um grupo de remadores inspirado nas celebrações do quarto centenário da descoberta do caminho das Índias ocorrida em 1498. Por isso deram ao clube o nome do navegante português autor da descoberta.
O Vasco nasceu com a ideia de ser um clube mais democrático. Suas cores, o preto, vermelho na cruz e o branco se encaixam em uma situação de comunhão de etnias.
A religiosidade tem forte presença na história do Vasco, sendo o único time grande do Brasil a ter uma Capela dentro do estádio. A Capela para Nossa Senhora das Vitórias.
O vascaíno tem muito orgulho de sua história, principalmente pela democracia racial. Em 1904 Cândido José de Araújo foi o primeiro mulato eleito presidente de um clube esportivo brasileiro.
Em 1923 iniciou-se na primeira divisão do futebol carioca com um empate de 1 x 1 com o Andaraí. Aí começou uma das histórias mais bonitas do futebol brasileiro, o futebol como inclusão. O time vascaíno era todo composto por negros, mulatos e nordestinos e os outros clubes não suportavam essa ideia. Vieram as acusações de falta de profissionalismo e a alegação que analfabetos não poderiam atuar.
Com isso o Vasco começou a pagar professores para ensinarem seus alunos a assinarem as súmulas. O Vasco foi campeão naquele ano.
No ano seguinte Flamengo, Fluminense, Botafogo e outros abandonaram a Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT) e fundaram a Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (AMEA), não autorizando o Vasco a entrar na mesma. A condição para a aceitação era o clube se livrar de doze jogadores de “profissão duvidosa”. O Vasco recusou.
Apenas no ano seguinte o Vasco entrou na AMEA. Sob alegação que não tinha estádio e por isso ainda sofrer restrições da AMEA o clube decidiu construir um na Chácara de São Januário, que fora um presente de D.Pedro I à Marquesa de Santos.
E assim o Vasco foi construindo sua história junto aos outros grandes do futebol carioca. Em 1948 tornou-se de forma invicta o primeiro clube brasileiro campeão sul americano. O chamado “expresso da vitória” foi base da seleção brasileira vice campeã mundial de 1950 com os jogadores Alfredo II, Augusto, Eli do Amparo, Danilo Alvin, Maneca, Chico e o técnico Flávio Costa. Além do grande artilheiro, um dos maiores jogadores de nossa história Ademir Menezes e um dos jogadores símbolos do nosso futebol e um dos homens símbolos de nosso país, o goleiro Barbosa.
Barbosa, um negro humilde e formidável goleiro, deve ter sido o mais psicopata e facínora da história do Brasil. Isso porque cumpriu uma pena de mais de cinquenta anos e, mesmo morto, continua cumprindo a pena.  
Qual foi seu crime? Ter falhado numa final de copa do mundo.
O brasileiro, apesar de todo errado, não admite o erro. O brasileiro, apesar de ter um lugar reservado para os fracassos seus do dia a dia, não admite fracasso e foi assim, implacável com Barbosa até sua morte. O pobre goleiro, o grande homem morreu provavelmente tendo até o fim em seus sonhos defendido aquela bola fatal e assim não ser considerado um dos maiores vilões da história do Brasil.
Acima até dos corruptos que nos roubam sorrindo.
Na década de 70 o Vasco foi o primeiro carioca campeão brasileiro, com gol de Jorginho Carvoeiro sobre o Cruzeiro. Nos anos 80 com uma geração formidável que continha Romário, Geovani, Mauricinho, Sorato, Bismarck, Acácio e outros capitaneados pelo já maduro Roberto Dinamite o Vasco conquistou títulos como o bicampeonato carioca em cima do Flamengo em 87 e 88.

Em 89, sem Roberto e com Bebeto, contratado ao Flamengo em uma das transações mais nebulosas do futebol, o Vasco ganhou seu segundo título na véspera do segundo turno das eleições presidenciais.
Os anos 90 foram mágicos para o clube. Conquistou finalmente um tricampeonato carioca e a partir de 1997 comandou o futebol brasileiro ganhando um carioca (1998), um torneio Rio São Paulo (1999), dois brasileiros (1997 com show de Edmundo e 2000), Libertadores no ano de seu centenário 1998.
E o talvez mais impressionante título da história do Vasco e de qualquer clube no mundo, a Mercosul de 2000 quando foi para o intervalo do jogo em São Paulo com o Palmeiras tendo um jogador a menos, perdendo por 3 x 0 e virou em 45 minutos para 4 x 3.
O domínio vascaíno durou de 1997 a 2000. Nesse período, até 2001 a rivalidade com o Flamengo aumentou muito graças ao polêmico vice presidente e depois presidente do clube Eurico Miranda, que provocava os rubro-negros e conseguiu o ódio não só desses como de torcedores de muitos clubes.
Vasco e Flamengo decidiram nesse período três vezes o campeonato carioca e mesmo em todas as ocasiões o Vasco tendo elencos superiores o Flamengo saiu vencedor. O auge dessa disputa ocorreu em 2001, com o sérvio Petkovic fazendo um gol no fim do jogo dando o tricampeonato ao Flamengo.
Dessa época também se tornou mais forte a brincadeira relacionando o Vasco a vice campeonatos e a estigma que o clube não vence finais contra seu maior rival.
O Vasco ainda foi campeão carioca em 2003 e depois entrou em um calvário. Foram oito anos sem títulos de primeira divisão, elencos fracos, polêmicas formadas por Eurico… Toda essa confusão resultou em um rebaixamento para a segunda divisão no campeonato brasileiro em 2008.
Mas o Vasco, ao contrário de outros clubes, voltou no campo à divisão de elite. Durante o campeonato do rebaixamento o ídolo Roberto Dinamite assumiu a presidência do clube pegando os “pepinos” da administração anterior e em 2009 pôde trabalhar melhor contratando um bom técnico, Dorival Junior e montando um elenco apropriado para a competição.
O Vasco voltou, mas ainda encontrou problemas de auto estima como a terrível Taça Guanabara que fez em 2011, onde chegou a estar na zona de rebaixamento para a segunda divisão do campeonato carioca. Mas como um navegante enfrentou a tormenta e com reforços pontuais, novo técnico (Ricardo Gomes) e a força de sua camisa voltou aos títulos ganhando a Copa do Brasil de 2011 e chegando ao vice campeonato brasileiro no mesmo ano.
Esse ano com Ricardo Gomes afastado por um AVC fez uma boa Libertadores e está entre os primeiros do brasileiro mostrando que um clube nunca deixa de ser grande.
Esse é um pequeno resumo da história do Vasco.
Um resumo que a maioria das pessoas já conhece bem, mas é sempre bom contar porque faz parte não só da história do futebol brasileiro, mas como da luta do povo brasileiro. O Vasco nasceu pobre, preto, analfabeto e português – por mais estranha que seja essa combinação – e dessa miscelânea nasceu uma história de luta, superação e uma das entidades mais brasileiras que existem.
Não sou Vasco, nunca torcerei pelo Vasco, adorei quando ele caiu pra segunda divisão e amo até quando ele perde na peteca. Mas o meu clube do coração, o Flamengo, precisa de um Vasco grande para ser grande. Muitas das histórias mais bonitas da vida do Flamengo têm participação do Vasco.
Os avôs rubro negros se lembram do tricampeonato carioca em 1944 com gol do Valido sobre o Vasco. Nossos pais do gol de Rondinelli de cabeça no carioca de 1978 e nós do gol do Pet em 2001.
Assim como os vascaínos do gol do Cocada em 1988 e do Edmundo rebolando num 4 x 1 em 1997. Flamengo e Vasco são dois irmãos que vivem as turras, brigam, se xingam, mas um depende do outro pra sua sobrevivência e futuro.
Não existe o time certo ou errado para torcer, existe aquele por qual nosso coração é tocado e no amor não existe o certo ou errado: o errado é não amar.
E que nossas batalhas sejam sempre dentro do campo, fora dele só se for sacaneando um ao outro.
Parabéns Vasco por seu aniversário, seus 114 anos de glórias, que o clube exista por muitos e muitos anos ainda, ganhe seus títulos claro, mas que na grande maioria perca para o Flamengo e seja nosso eterno vice.
Evidente que tinha que dar uma zoada né? Faz parte do jogo e dessa união Brasil/ Portugal.
P.S. – Essa coluna é dedicada a todos os meus amigos vascaínos. Alguns dos melhores amigos que tive na vida foram e são vascaínos e se tivermos que morrer por causa dessa rivalidade que seja morrendo de rir – nos provocando.