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Neste sábado, uma (fantasmagórica) edição da coluna de contos do compositor Aloísio Villar, a “Buraco da Fechadura”.
Dona Carola
Ter mãe superprotetora não é fácil e Henrique era um rapaz que conhecia bem esse drama.
Henrique era filho único de uma mulher que ficou viúva bem jovem, então dedicou a vida a esse filho. Dona Carola, mulher dos tempos antigos, religiosa fervorosa, moralista ferrenha e que seguia preceitos bem antigos.
Henrique tinha que seguir essa cartilha. Mesmo sendo um rapaz de trinta anos, formado em economia na PUC e trabalhando no Banco do Brasil, era visto por dona Carola como o “filhinho da mamãe”.
Ele nunca deixou de morar com a mãe, por achar mais cômodo e para não deixar a pobre senhora sozinha, mas isso interferia em sua vida e fazia que o marmanjo fosse tratado como criança.
Dona Carola quem o acordava de manhã e quando Henrique sentava à mesa para o café ela já estava posta com tudo que ele gostava. Leite, achocolatado, suco, pão, margarina, requeijão, presunto, queijo e um delicioso bolo de fubá que só dona Carola sabia fazer.
Henrique despedia-se pro trabalho pedindo benção a mãe e dona Carola entregava uma marmita a ele com o almoço por não querer que o filho comesse besteiras na rua. Também entregava um guarda chuva e um casaco mesmo no verão senegalesco do Rio de Janeiro e que nenhuma nuvem passasse nem perto da cidade.
Era por precaução, dizia dona Carola. 
E dona Carola passava o dia tomando conta da casa, rezando e ligando para Henrique no trabalho querendo saber se estava tudo bem, se ele se alimentou direito e reclamando que estava passando mal. Dona Carola tinha uma saúde de ferro, mas era hipocondríaca.
Como vocês podem ver as coisas não eram fáceis para Henrique e já imaginam como era para o rapaz namorar.
Arrumou muitas namoradas ao longo dos anos, mas nada dava certo. Nenhuma agüentava dona Carola e ela não suportava nenhuma. Era inimizade à primeira vista e a velha senhora sabotava tanto as relações de seu filho que ele acabava sendo largado.
Dona Carola queria Henrique só para ele.
Na cabeça da mãe nenhuma mulher prestava; só que Henrique já trintão sentia necessidade de conhecer uma mulher legal, se apaixonar e constituir sua família. Dona Carola não viveria para sempre, ele não poderia ser eternamente o filhinho.
Nessa situação que Henrique começou a reparar numa mulher que começara a trabalhar recentemente no banco. Branca, cabelos negros, cheia de charme… Linda. Ela devia ter a faixa etária de Henrique e ele resolveu conhecê-la melhor.
Aproximou-se e papo vai, papo vem, tornaram-se amigos. Descobriu que ela se chamava Carla e um dia Henrique convidou a moça para jantar. Enganou a mãe dizendo que faria hora extra no trabalho e levou Carla ao cinema e depois para o jantar romântico.
Jantaram e Henrique levou Carla de carro até sua casa. Estacionados na frente da residência deram o primeiro beijo e a coisa foi ficando mais ardente até que Carla convidou Henrique para entrar.
Henrique se animou com o convite, mas na hora de dizer sim e adentrar os aposentos com aquela gata estonteante seu celular tocou. Era dona Carola dizendo que estava tonta e com sensação que desmaiaria.
Henrique desligou o telefone pedindo desculpas a Carla e contando que teria que ir embora, pois, sua mãe não passava bem. Carla ficou frustrada, mas disse que entendia e que mãe era importante.
Henrique voltou para casa e continuou saindo com Carla sempre que dona Carola não tentava atrapalhar. Começaram a namorar e Carla levou Henrique para almoçar em sua casa e conhecer seus pais.
Depois do almoço Carla cobrou que o namorado fizesse o mesmo e levasse a ela para conhecer sua mãe. Henrique engasgou com o licor que tomava e respondeu que não sabia se era uma boa.
Carla perguntou se Henrique tinha vergonha dela e o rapaz respondeu que não, muito pelo contrário e que o problema era sua mãe, uma pessoa difícil. Carla não aceitou aquela conversa e exigiu que Henrique marcasse para se conhecerem.
Resignado o rapaz voltou para casa e contou à mãe que estava namorando e queria que ela conhecesse sua escolhida. Dona Carola fez cara de poucos amigos, mas topou mandando que o filho levasse a namorada em casa.
Henrique levou Carla e dona Carola para almoçar em um restaurante e Carla tentou ser toda simpatia tratando a velha bem, mas dona Carola não era fácil: parecia zagueira do Bangu.
Dona Carola olhava sério para Carla o tempo todo, não dizia uma palavra e olhava fixamente a menina que se constrangia. O clima na mesa era pesadíssimo e um momento Henrique levantou para ir ao banheiro.
Com o rapaz ausente dona Carola perguntou a Carla quais eram suas intenções com o filho. Carla sem graça respondeu que as melhores possíveis, ela queria casar com Henrique e ter filhos. A senhora respondeu que nunca, só passando por cima de seu cadáver e que ela costumava comer o fígado das pretendentes de Henrique com molho ferrugem e salada de alface.
Carla sentiu um arrepio na espinha e Henrique voltou à mesa perguntando se estava tudo bem. Carla assustada respondeu que sim e dona Carola, sorridente, pediu mais vinho ao filho.
Henrique e Carla continuavam o namoro, com dona Carola tentando atrapalhar de todas as formas. A moça pensou em ensaiar um “ou ela ou eu”, mas sabia que se daria mal nisso e resolveu seguir a política do “se não pode vencer, una-se a ela”.
Chegou num sábado à tarde na casa do namorado levando o vinho preferido da sogra que, surpresa, agradeceu à nora. Henrique também ficou surpreso e perguntou que novidade era aquela. Sem responder Carla contou que tinha mais uma surpresa e tirou um ingresso do bolso.
Dona Carola perguntou o que era aquilo e Carla respondeu que era um presente. A moça sabia que dona Carola era louca pelo filme “O mágico de Oz” e soube que o filme totalmente resmaterizado fora relançado em um cinema do centro da cidade. Quis dar o ingresso de presente.
A velha ficou exultante, pela primeira vez deu um sorriso para a nora e deu um beijo em seu rosto agradecendo pelo presente. Entrou correndo em seu quarto para se arrumar e ver o filme enquanto Henrique abraçava a namorada elogiando a idéia.
Dona Carola foi ao cinema enquanto os pombinhos ficaram em casa namorando. Ela entrou na sala e achou esquisito estar meio vazia e só ter homens dentro. O filme começou e a velha senhora se encantava em rever a pequena Dorothy e seus amigos. Ela lembrava cada pedaço da história, cada música, mas algo estava diferente.
Ela via o filme e se espantava pensando “a história não era assim”. Dona Carola se assustava cada vez mais até que ao ver Dorothy fazer certas coisas com o homem de lata deu um grito e desmaiou.
Algum tempo depois, no auge dos amassos, Henrique recebeu telefonema pedindo que fosse com urgência ao cinema. Ele foi e lá descobriu que sua mãe estava morta: infarto fulminante.
Henrique chorava a perda da mãe e Carla tentava entender o que ocorrera. Até que prestou atenção aos letreiros do lado de fora do cinema: não era “O mágico de Oz” que passava ali, era “O sádico de Oz”, um filme pornô.
Dona Carola foi enterrada e Henrique se viu sozinho. No meio daquela solidão percebeu que estava livre e mesmo com saudades da mãe notou que poderia fazer o que quisesse.
Ligou para Carla pedindo que ela passasse em sua casa. A namorada entrou e ele foi logo jogando a moça na parede, beijando e tirando sua roupa. Era livre, ninguém mais iria lhe impedir, até que ouviu um grito “que pouca vergonha é essa?”.
Parou, olhou para o lado e Carla perguntou qual era o problema. Henrique perguntou se a namorada não tinha ouvido nada e ela respondeu que não, o rapaz então decidiu deixar pra lá e continuou beijando até que ouviu um “para Henrique!!”.
Henrique soltou a namorada, olhou para o lado e deu um grito: “mãe??”. Era dona Carola, estava lá assombrando o filho e Carla perguntou o que ocorria. Henrique assustado perguntou se ela não via sua mãe ali e Carla respondeu que não e que o namorado precisava descansar indo embora.
A vida de Henrique virou um inferno. A todos os lugares que ia sua mãe estava do lado e só ele via. Isso foi fazendo que o pobre Henrique começasse a ter problemas no trabalho e pior, com Carla.
Todas as vezes que os dois ficavam sozinhos seja na casa de um deles ou motel dona Carola aparecia e Henrique começava a brigar com a mãe. Como só ele via o fantasma de dona Carola, Carla começou a pensar que o namorado estava louco.
Essa situação levou ao desgaste do namoro e seu fim. Carla não queria ver Henrique mais nem vestido de verde e amarelo e pediu transferência para outro banco.  
Henrique ficou solteiro, tentou conhecer outras mulheres, levar para seu apartamento, mas dona Carola era implacável e nada dava certo. O rapaz já se encontrava em desespero por não conseguir se livrar da mãe e se abriu com um amigo, que achou uma solução.
Levá-lo a um terreiro.
O amigo levou Henrique a um centro e lá o Pai de Santo disse que tinha a solução. Recebeu um preto velho e passou uma série de coisas que Henrique teria que fazer e assim despachar sua mãe para o além.
Henrique seguiu à risca as recomendações do preto velho e arriou um despacho na esquina de casa. Não encontrou galinha preta e da esquina ligou para o amigo perguntando se podia usar caldo maggi. O amigo puto respondeu que já era quatro da manhã e não enchesse o saco. Desligou – e Henrique resolveu usar o caldo mesmo.
Henrique fez a macumba e ela deu certo. Percebeu com o tempo que a mãe não aparecia mais. Ele estava livre. Henrique foi até a igreja preferida de sua mãe, acendeu uma vela para ela pedindo desculpas pela macumba e clamando que sua alma fosse para um bom lugar.
Com as semanas passando e vendo que tudo estava resolvido decidiu procurar Carla em sua nova agência bancária. Com um buquê de flores na mão pediu desculpas a ex namorada por todas as confusões, disse que estava tudo resolvido e pediu uma nova chance.
Carla amava Henrique, deu um sorriso, pegou o buquê e lhe deu um beijo apaixonado sob aplauso de todos.
De noite Henrique e Carla entraram no apartamento do rapaz se
agarrando e tirando a roupa. Com o pé Henrique abriu a porta do quarto e quando entraram deu um grito.
Carla se irritou, disse que o rapaz não tinha jeito e foi embora largando o coitado lá sozinho olhando aquela imagem dantesca em sua cama: Dona Carola pelada rindo abraçada ao preto velho.
Não há lugar melhor que o nosso lar…