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Nesta terça feira, a coluna “Bissexta”, assinada pelo colunista Walter Monteiro, fala não somente das pessoas – especialmente mulheres – que saem sozinhas como, principalmente, sobre a mania que o ser humano tem de julgar os outros.
Embora o post do colunista enfoque as mulheres, guardadas as devidas proporções confesso que em minhas andanças petroleiras pelo Brasil às vezes tenho a mesma impressão quando me sento sozinho em bares e restaurantes.
Mulheres, Camarões, Ondas e Tartarugas
Amiga minha casou-se com o trabalho faz anos. A moça tem seus predicados e pretendentes, mas tem horror só de ouvir falar em casamento e mesmo em relacionamentos. Homens só prestam se forem furtivos, ausentes e bissextos.
Dia desses, a moça saiu do trabalho em pleno sábado e foi viver um dia de menina.
Passou em casa, tomou um banho relaxante, vestiu uma roupa bonita, perfumou-se, maquiou-se e partiu para o shopping, à cata de spas, massagens e compras redentoras. Planejou finalizar à noite jantando em um restaurante com vista para o Guaíba, fingindo que mirava a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar ao fundo, atracada a um risoto de camarão, com chope gelado. Sozinha, ela e as muitas sacolas de compras, o restaurante à meia luz, com suas poltronas forradas em vermelho sedução.
Foi aí que a porca começou a torcer o rabo.
A etiqueta vigente leciona que mulher alguma deve entrar em um restaurante de insinuações românticas se não tiver devidamente escoltada de um macho, ainda mais na transição para o domingo – todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite. Qualquer mulher que entrasse ali de saia minúscula, de burca ou fantasiada de Carmem Miranda, mas de braços dados a um acompanhante (ou vá lá, a uma amiga ou em grupo) chamaria menos atenção.
Todos dela se compadeceram: imagina, que vida infeliz, em pleno sábado aqui sozinha, sem ninguém para repartir o risoto, tomando chope, tadinha, afinal nem um vinho ela pode pedir, quem toma vinho sozinha? Era garçom, era maitre, era a moça do caixa, a moça do banheiro, todos os casais enamorados a lançarem olhares de soslaio, um misto de compaixão e estranheza.
Calhou da amiga me contar a história na véspera de uma viagem minha para o Rio. Eu viajo toda semana para o Rio, quase sempre pela Azul, que entretém seus passageiros com uns vídeos repetidos da televisão paga.
E eu vejo sempre um reality show que retrata a vida de uma família, “Nalu pelo Mundo”. Copiei e colei a descrição do programa:
O surfista Everaldo Pato, Fabiana e a pequena Isabelle Nalu formam uma família “sem casa”, que roda o mundo em busca de aventuras e ondas perfeitas. A série mostra o dia a dia da família, que viaja para lugares paradisíacos, surfa altas ondas e se diverte com os pontos de vista da menina sobre todas as experiências.
A ideia do programa, imagino, seja retratar uma vida que para muita gente seria um sonho: um casal jovem, bonito, com uma filha linda, que passa o tempo todo viajando para lugares incríveis, sem maiores preocupações.
O protagonista é um surfista profissional – embora eu nunca o tenha visto competindo, só se divertindo, mas aí a culpa deve ser minha, que não sou um telespectador assíduo. A mãe é cinegrafista, nada mais perfeito para o programa, ele pega onda, ela filma. A menina tem 4 anos e só brinca. Todos parecem muitíssimo felizes em suas respectivas vidas.
Mas eu me deprimi vendo a vida deles…
A pequena Isabelle Nalu, que dá nome à série, quase nunca é vista na companhia de outras crianças, não tem vínculos com ninguém, não interage com outras crianças. A série está na quinta temporada e Isabelle tem apenas 4 anos: o que me deixa a impressão de que ela é uma versão havaiana de Truman, o famoso personagem de Jim Carrey que nasceu na TV. 
Não vai à escola, pois sua mãe, seguindo aquela linha de direitistas americanos fanáticos, declarou que vai assumir a responsabilidade pela educação da menina. Belinha já visitou mais de 20 países, acompanhando a busca de seu pai por boas ondas.
A mãe tem, basicamente, duas atividades:
a) um papel de dona de casa clássico (se é que o termo se aplica, já que a família não vive em casa), cuidando da filha, fazendo limpeza, cozinhando, coisas assim;
b) filmar cenas para o programa, que se resume às citadas tarefas domésticas, ao marido e seus amigos pegando onda e às cenas da família em permanente deslocamento.
Não há como não se chocar com o paradoxo proposto pelo reality show: uma família com uma roupagem de uma modernidade extrema (inclusive pelas roupas de adolescente que o protagonista insiste em vestir, mesmo quase quarentão), mas que cultua hábitos do passado, como a submissão ao pai como centro das atenções e detentor do controle absoluto dos desígnios de todos – a ponto de mãe e filha perderem suas respectivas identidades e conformarem-se apenas em seguir o surfista sem fronteiras.
Em que pese o terceiro milênio, a vida ainda tem dessas coisas… Uma mulher independente e bem resolvida é alvo de olhares maliciosos quando resolve comer um risoto de camarão desacompanhada; uma mulher que se dedica a filmar o marido é cultuada na TV como um modelo de sonhos.
O bom é que tanto a minha amiga quanto a mulher do surfista parecem exalar felicidade o tempo inteiro, enquanto os tolos garçons e eu próprio ficamos aqui, a julgá-las com nossos olhares preconceituosos, que se recusam a admitir que pessoas possam ser felizes à sua maneira ao invés daquela que idealizamos.
O leitor aí sabe por que a tartaruga vive mais de 100 anos? É porque ela não se mete na vida de ninguém. Tartaruguemos, pois.