Mais uma quarta feira, e a última coluna “Formaturas, Batizados e Afins” deste ano traz um balanço do ano no setor de ciência e tecnologia. Como sempre, texto assinado pelo professor de Biofísica Marcelo Einicker Lamas.

Hora de comemorar conquistas e planejar o futuro

Caros amigos,

Por ser este o último texto desta coluna para o ano de 2010, utilizarei este espaço para uma espécie de retrospectiva do ano na ciência e tecnologia e também para projetar os anseios de toda comunidade científica para o ano que chega.

O ano de 2010 foi marcado por grandes descobertas científicas em todo o mundo, algumas delas abordadas aqui nesta coluna de uma maneira mais direta ao público leigo. Aqui no Brasil podemos colocar 2010 como um ano bastante positivo para a área científica; seguindo a trajetória desenhada pelo Governo Lula que aumentou substancialmente os investimentos em pesquisa e ensino, proporcionando assim, também por aqui, grandes descobertas.

Na medicina, avançou a passos largos a questão das terapias avançadas (gênica e celular), com aprovação de leis que extinguiram impedimentos éticos e legais para o desenvolvimento de nosso País nesta área tão promissora e estratégica. Também avançaram muito os estudos no campo da neurobiologia, tendo o pesquisador brasileiro Miguel Nicolelis impressionado o mundo com suas descobertas que podem vir a ajudar deficientes físicos com próteses muito mais funcionais em um médio e longo prazo.

Ainda na área da medicina novos compostos naturais foram identificados, com ações poderosas sobre agentes causadores de importantes enfermidades como o vírus da AIDS por exemplo e o parasito causador da malária – o Plasmodium. Na Espanha pesquisadores conseguiram criar uma traquéia a partir de células tronco, abrindo uma nova avenida para transplantes. Também foram desenvolvidas novas tecnologias para tentar combater diferentes tipos de câncer e doenças prevalentes como a hipertensão e o diabetes.

Nas engenharias destacaria a enorme evolução de nossa indústria naval e petroleira, com abertura e consolidação de estaleiros, desenvolvimento de tecnologias de prospecção de petróleo, principalmente em altas profundidades no mar; incluído aí o potencial econômico da exploração do pré-sal. Com toda certeza coube ao setor de engenharia e arquitetura buscar novas medidas para frear a destruição do meio ambiente, pensando melhor nas ruas, cidades e edifícios; aproveitando ao máximo a luz natural, os ventos e a energia solar.

Foi um ano de investimento em novas modalidades de obtenção de energia – a chamada energia limpa – sem liberação de fumaça e sem degradação das nossas florestas. Depois da explosão de vendas dos carros com motores a álcool começam a surgir no mercado veículos movidos a hidrogênio ou a eletricidade. Estes são motores que não emitem dióxido ou monóxido de carbono e assim não agridem o meio ambiente e destroem a camada de ozônio já tão castigada. Harmonizar desenvolvimento com sustentabilidade seguirá sendo uma diretriz não apenas para o Brasil, mas para todo o mundo.

Nas ciências da terra houve o desenvolvimento de novas variedades de cultivos e o melhoramento genético através de cruzamentos de espécies distintas em laboratórios como da Embrapa, que com certeza colocarão o Brasil por muitos anos na liderança dos países produtores de alimentos no mundo. Também merece destaque o estudo das alterações climáticas que tem alterado todo o padrão de estações nos quatro cantos do mundo. O chamado aquecimento global é uma realidade e tem despertado vários grupos de pesquisadores que visam frear o que pode ser um dano irreparável ao planeta a médio e longo prazo.

No fim do mês passado, uma descoberta fascinante praticamente trouxe nova definição para a palavra VIDA, com o estudo que mostrou que uma bactéria consegue metabolizar o arsênico, elemento químico extremamente tóxico para a maioria dos seres vivos do planeta (ver coluna anterior para mais detalhes).

Como ilustram estes exemplos, passaria páginas e páginas detalhando algum tipo de evolução promovida pela ciência e tecnologia em qualquer um de seus ramos, o que espelha o progresso que tivemos não apenas no Brasil, mas em todo mundo. Também resgato o que escrevi numa das primeiras colunas sobre a necessidade de investimento no setor científico. Este investimento é totalmente revertido em ações afirmativas que apontam para o desenvolvimento de nossa Nação.

Mas e o futuro? Bem, começa um novo Governo e com ele novos desafios. A Presidente Dilma Roussef terá de mostrar logo de cara a intenção de seu governo atacando alguns pontos ainda vulneráveis na questão científica. Reforçando que são pontos escolhidos por mim e portanto, passíveis de críticas da parte de vocês queridos leitores:

1- Fortalecer o ensino em todos os níveis. Dados recentes da ONU mostram que o Brasil tem um desempenho pífio em educação. Ficamos atrás de países que beiram o caos por terem sido ou estarem passando por problemas graves como guerras. Isso obviamente é algo que merece total cuidado! Fortalecer o ensino fundamental e médio, unificando os currículos obrigatórios e valorizando a profissão de professor é um ponto importantíssimo para melhorarmos nossos índices e mesmo o mais importante que números, melhorar a formação de nossos jovens.

É inadmissível que um professor receba menos de R$ 1.000,00 enquanto cargos de nível médio no serviço público chegam a ter remuneração de mais de R$ 2.000,00. Melhorar não apenas o salário dos professores, mas permitir que estes se capacitem para atualização de conteúdos e metodologias de ensino, aliado a uma reforma nacional dos estabelecimentos de ensino, terá um resultado a longo prazo similar ao que se observou em nações emergentes como a Coréia do Sul. Quanto mais forte for o ensino fundamental e médio, melhores serão os alunos que chegam às Universidades, e melhores profissionais serão estes jovens ao se formarem, garantindo não apenas a geração de mão de obra capacitada e revertendo em prol de ações de inclusão social bastante eficientes.

2- Seguir apoiando a pesquisa em todas as suas áreas, com liberação de recursos e disponibilização de novas vagas para docentes e pesquisadores nas Universidades e Centros de Pesquisa. Ajudaria muito também ao nosso setor científico uma profunda atualização das questões legais envolvendo importação de equipamentos e matérias utilizados nas pesquisas, que representa hoje um grande entrave para a agilidade e competitividade de nossos grupos com os demais países.

3- Combater a Biopirataria que todos os dias rouba de nossas florestas e mares biomassa que gera produtos naturais que são isolados, identificados, patenteados e posteriormente vendidos para nós por preços proibitivos. Será este o tema de uma das primeiras colunas em 2011.

4- Manter campanhas importantes como a vacinação contra pólio, vacinação contra gripe, conscientização e combate à dengue, prevenção da AIDS, câncer de mama, próstata e outros; e ainda as iniciativas de esclarecimento e tratamento dos dependentes químicos que estima-se, já sejam 10 milhões se considerado apenas o crack como substância entorpecente.

Atacar estes pontos de cara, permitirá uma chance de resolver problemas graves que estão de alguma maneira freando o nosso desenvolvimento científico e por tabela, nosso desenvolvimento como nação soberana.

Desejo a todos vocês um Feliz Natal, e um Ano Novo repleto de saúde, alegrias e realizações. Obrigado pela leitura das colunas, e sintam-se a vontade para sugerir temas no próximo ano. Por motivo de minhas férias na Universidade, devo voltar apenas em Fevereiro. Até lá!

Marcelo Einicker Lamas”

8 Replies to “Formaturas, Batizados e Afins: "Hora de comemorar conquistas e planejar o futuro"”

  1. E como que se pretende fazer isto sem que se incentive de alguma forma os professores? Através do incentivo à mediocracia feito pelo governo Lula através de cotas exageradas e direcionadas ao público alvo errado (negros ao invés de pobres, pois os segundos incluem os primeiros, já que os negros são maioria entre os pobres)?

    Vamos ser sinceros: ao governo de ocasião (qualquer que seja ele) NÃO INTERESSA POVO BEM EDUCADO, porque na mentalidade de corromper e ser corrompido é melhor uma população conformada e que não exija administração bem feita por não saber, nem acreditar que esta seja possível.

    Afinal, quem não pôde aprender bem matemática e não recebe o suficiente não deve acreditar (pela própria experiência prática) que existe possibilidade de conseguir equilibrar um orçamento sem se atolar em dívidas ou passar fome. Quem não aprendeu bem o português não consegue interpretar o que existe por trás de um texto e afirmar se concorda ou discorda dele. Simplesmente, recebe o bolsa-família e não entende a máquina de roubalheiras por trás deste dinheiro de que tanto necessita.

    Puxar o saco do governo de ocasião não ajuda.

  2. Caro Bruno,
    A questão é mesmo decisiva. Uma revolução na Educação vai trazer inclusão social e desenvolvimento. Claro que para a classe política, um povo sofrido, sem educação, sem água, luz, esgoto…é muito mais facilmente ägradado”com migalhas ou com subterfúgios que não resolvem os problemas. A questão Bruno, é mantermos alerta e tentarmos fazer valer esta revolução da educação. Feliz Natal cara!
    Marcelo E. Lamas

  3. Caro Pedro,
    Não se deve acreditar em tudo que se mostra em planilhas, estatísticas…ainda mais em questões que envolvem dinheiro…poder…cobiça. Os sinais do aquecimento global estão aí. Alteraçoes substanciais no clima, nas chuvas…e isso não está acontecendo por acaso. Precisamos cuidar do Planeta.
    Um abraço e Feliz Natal
    Marcelo E. Lamas

  4. Caro Marcelo, o dinheiro está do lado do “aquecimento global”: governos, grandes bancos, ONG’s e -surpresa! (ou nem por isso)-, as petrolíferas.

    Por não acreditar em planilhas, estatísticas e coisas do género que suportam a teoria do “aquecimento global”, demonstrado pelos documentos revelados pelo ClimateGate.

    Aliás, na Europa, por exemplo, estão a registar-se algumas das temperaturas mais baixas das últimas décadas, contradizendo, o “aquecimento global”.

    um abraço e bom Natal

  5. Marcelo e Xará Costa,

    Eu vou escrever com calma depois, mas eu trabalhei dois anos com geólogos aqui na Petro e todos eles, em uníssono, contestam a tese do aquecimento global.

    O argumento é que no tempo geológico a ação do homem é irrelevante. O “Superfreaknomics”, que jé resenhei aqui, defende a mesma tese.

    Depois com calma eu irei pesquisar textos sobre o assunto e colocar aqui.

    p.s.- Bruno, os cotistas são os que mais tem se interessado pela pesquisa científica.

  6. Só saberemos em alguns anos se este interesse se traduzirá em resultados. Se traduzir, acho ótimo. Se não traduzir, algo errado foi feito. E para consertar? Como faz?

    Trazer o pobre à escola é instrumento de ascensão social. Nós fizemos isto por nossos méritos, não se esqueça… Dar oportunidades ao outros, é dar oportunidade que eles possam demonstrar os próprios méritos.

    E é pelos méritos que devemos subir, ou fica a impressão de que existem castas separadas e cria-se uma mentalidade de guerra civil. Vai incentivar o aparecimento de “neonazistas” que vão vociferar contra negros, índios, pardos e nordestinos. Por uma raça pura que, no Brasil, está muito distante da realidade… Quando deveríamos vociferar contra corruptos e privilegiados do sistema. Onde negros não se incluem, com certeza…

    E nós dois nos incluímos em categorias que vão ser prejudicadas sem qualquer auxílio das políticas oficiais, como pardos e nordestinos emigrados e seus descendentes…

  7. Bruno, concordo contigo que era melhor cotas por renda e, dentro delas, por negros.

    Entretanto, pesquisas já indicam que estudantes cotistas possuem resultados melhores na universidade.

    abs

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