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Mais um domingo, viagem a trabalho – onde aproveitarei para ver meu time jogar ao vivo hoje à tarde – e mais uma coluna “Bissexta”, do advogado Walter Monteiro. O tema de hoje é a administração de clubes de futebol e um interessante livro – que levo em minha bagagem – que analisa a questão.

A DOIS PASSOS DO PARAÍSO

Durante uns 45 dias a diretoria do Flamengo foi alvo da ira de sua imensa torcida, indignada com a ausência de reforços de qualidade para o restante do Brasileirão. E, de repente, com a materialização da dupla D2 (foto acima) como o novo ataque titular, tudo mudou da água para o vinho: o que era inércia e acomodação virou façanha, com direito à analogia com o agente Jack Bauer, aquele que resolve tudo em 24 horas. Torcedor é assim mesmo, bipolar, vai do céu ao inferno em segundos. Mas não a ponto de mascarar a realidade de que, mais do que Abu Dhabi ou a Premier League, o paraíso dos astros do futebol agora é tupiniquim.

Faz só pouco mais de um ano que a revista Placar publicou a relação dos maiores salários do futebol brasileiro. Na pole position, o Ronaldo Fenônemo, um ponto fora da curva, porque ele não é mais jogador, é só um popstar à caça de patrocínios. Em segundo lugar, o Imperador Adriano, ganhando R$ 362 mil, seguido de perto por Nilmar (R$ 360 mil) e Fred (R$ 350 mil). Bom, o Deivid, recém chegado ao ninho dos urubus, já emplacou R$ 500 mil mensais, mesmo sem ter um décimo da fama e prestígio dos antes citados.

Que ninguém ache que quero repercutir alguma crítica particular às opções rubro-negras. Afinal, o Flamengo fez o que todos estão fazendo. O atacante Emerson, que até ano passado era literalmente um Zé-Ninguém (tanto que foi alvo de chacotas quando chegou ao Flamengo para ganhar R$ 110 mil/mês), foi contratado pelo Fluminense por R$ 350 mil mensais.

O meu ponto é outro: que mercado é esse, capaz de permitir aumentos de 40% ou mesmo 200% em apenas um ano? Nem negócios de absurda rentabilidade, como bancos ou mineração de diamantes aceitariam saltos tão generosos. Infelizmente, esse é o mundo de futebol.

Há na praça um ótimo livro, que tenta explicar o fenômeno. Chama-se Soccernomics e às vezes enjoa um pouco, já que é muito centrado no futebol inglês, terra dos seus dois autores, um economista e um jornalista. Há muitas lições a serem retiradas do livro. A minha favorita é a conclusão de que a estupidez é tão ligada à indústria do futebol quanto o petróleo à indústria petroleira. Para eles, isso se torna óbvio quando executivos de futebol são seguidamente ludibriados por executivos de outras indústrias, simplesmente porque estes últimos entendem muito mais de negócios.

Ao contrário do que pensa o senso comum, futebol é um negócio minúsculo (quando comparado à economia real), de péssima lucratividade e repelente às boas práticas de gestão. O clube com maior receita em 2009 – o Real Madrid – não faturou nem a metade da menor empresa entre as 500 que formam o índice S&P.

Além de pequeno, futebol é um mau negócio, gerido aos sustos, a começar pela decisão mais importante, a nomeação do treinador. Os treinadores são escolhidos sem qualquer planejamento, geralmente sob a pressão dos maus resultados do antecessor e em questão de dias. Em uma empresa séria, a escolha do líder dura de 4 a 5 meses, nos quais o candidato apresenta o seu plano de negócios e enfrenta uma sequência longa de entrevistas. Num clube de futebol, alguém liga para o empresário do treinador e oferece o emprego, cujas qualificações mínimas de um gestor (habilidade para lidar com pessoas, caráter ilibado, etc.) nunca são sequer investigadas – aliás, as únicas coisas levadas em conta são os resultados pretéritos e, sobretudo, a disponibilidade para começar a trabalhar imediatamente.

Se a figura mais importante é escolhida desse modo tão irresponsável, o que dizer do resto do staff? Apesar de todos os clubes terem imensa oferta de mão-de-obra altamente qualificada disposta a trabalhar por salários modestos (torcedores apaixonados que dariam tudo para passarem um tempo se dedicando ao clube), a mediocridade impera – o padrão é contratar mulheres bonitas e homens com um passado ligado ao futebol ou que sejam amigos de algum dirigente. Isso sem contar a alta rotatividade, pois cada vez que a diretoria se renova, é hora de trocar todo mundo.

Mas o pior é que, mesmo que quisessem, os dirigentes de futebol não conseguiriam gerir o clube de forma decente. Isto porque a imprensa e os torcedores sempre exigem resultados para anteontem. Basta uma sequência de três derrotas para começar a pressão para demitir o treinador e contratar reforços. E as limitações orçamentárias nunca são levadas em conta, pois, enquanto em uma empresa comum aumentar os gastos de pessoal em, digamos, US$ 100 mil anuais, é precedida de uma longa batalha, em uma equipe de futebol se aumenta US$ 10 milhões da noite para o dia.

E quem resolve inverter essa lógica perversa se dá mal. Um milionário altamente preparado dirigiu o Tottenham por 10 anos e encasquetou de tocar a gestão a partir de um princípio singelo, o de não gastar mais do que arrecada. Quebrou a cara duas vezes: primeiro, os torcedores o odiaram, porque, como era de se esperar, os resultados em campo foram pífios; segundo, porque mesmo diante de um rigor orçamentário para manter uma saúde financeira, os lucros foram ridiculamente baixos e, por incrível que pareça, bem menores do que os de alguns times onde a farra dos gastos imperava.

Isso mostra que é impossível administrar um clube de futebol como uma empresa, porque, mesmo que alguém resolva levar a gestão a sério, sempre haverá uma penca de concorrentes dispostos a torrar fortunas para contratar estrelas, até porque, por maior que seja o rombo, um time nunca vai à falência.

Todas as conclusões, não custa lembrar, são baseadas em clubes ingleses, aqueles que, na teoria, são os melhores geridos do mundo, na liga mais rica do mundo. Imagine se alguém escrevesse um capítulo especial sobre o Brasil.

Por isso, dá para compreender que nossos clubes nem liguem de aumentar suas folhas de pagamento em 50% ou até mais do que isso de um ano para o outro. Ou que resolvam pagar a jogadores apenas medianos fortunas compatíveis com o que astros de primeira grandeza ganhavam há apenas quatro ou cinco anos. E, o que é melhor para a boleirada, essa dinheirama paga aqui mesmo na terra mater, de clima ameno e ensolarado, impostos suaves, treinos leves e idolatria sem fim. Estão, todos, a dois passos do paraíso!”

(Foto acima: City of Manchester, do Manchester City, o mais recente “novo rico” do futebol inglês)