Sexta feira, jogo da seleção brasileira daqui a pouco, e mais uma resenha literária no Ouro de Tolo.

O livro de hoje é “mezzo” curitibano, “mezzo” carioca. Explico: o livro foi comprado no aeroporto Afonso Pena, em Curitiba, e me chamou tanto a atenção que parei pelo meio a leitura que eu vinha fazendo e comecei imediatamente a ler. Adiantei-o bastante no vôo de volta para o Rio e terminei de ler já na Cidade Maravilhosa.
Curioso é que eu nunca inicio uma leitura sem terminar a anterior. Mas este me prendeu e iniciei a leitura, que se revelou deliciosa.
Este livro é o segundo da série sobre histórias de canções que a editora Leya, portuguesa, está lançando no Brasil. O primeiro foi Chico Buarque de Holanda, já resenhado aqui mesmo.
Paulo César Pinheiro é um dos maiores compositores vivos da história não somente da música popular brasileira como do samba carioca. Muito precocemente iniciou-se na vida musical, sendo parceiro do grande Baden Powell aos incríveis dezesseis anos de idade. Foi parceiro de compositores como João Nogueira, Mauro Duarte – o saudoso “Bolacha” – Tom Jobim, Vinícius de Moraes e outros bambas da música popular brasileira.
Como se não bastasse, foi casado com Clara Nunes e, após a morte da grande cantora, com Luciana Rabello, irmã do grande violonista Rafael Rabello.
É autor de clássicos como “Lapinha”, “Vou Deitar e Rolar (Quaraquaqua)”, “Espelho”, “Canto das Três Raças”, “Portela na Avenida”, “To Voltando” e “Um Ser de Luz”, entre outros.
Ao contrário do livro sobre Chico Buarque, é o próprio Paulo César Pinheiro o autor do livro. Em uma prosa deliciosa e com estilo fluente, ele vai desfiando com sua memória prodigiosa as circunstâncias de criação destes clássicos da música brasileira. Bem como do nascimento de parcerias que se tornariam imortais na música brasileira.
Um bom exemplo é a parceria com o grande João Nogueira. Foram apresentados pela irmã de João, que era amiga da irmã de Baden Powell, em uma feijoada no Clube Mackenzie, no bairro do Méier. Foram amigos até o início de 1972, quando nasceu a primeira parceria, a imortal “Espelho” – em homenagem ao pai de João Nogueira.
São inúmeras histórias, cada uma melhor que a outra. Outro ponto que chama a atenção é a ligação do autor com a religiosidade e as várias passagens em que músicas tiveram este tipo de influência. Mesmo ele se dizendo cético.
Para os portelenses o livro também traz algumas novidades bastante interessantes. Não somente a história da composição do clássico “Portela na Avenida” – que reproduzirei na íntegra no próximo domingo – como algumas historinhas de bastidores da escola e do “racha” que gerou a Tradição. Além da revelação de que “Canto das Três Raças” foi sugerido a Carlinhos Maracanã, presidente então da azul e branco, como samba-enredo da escola. Mas…
“Propus ao Carlinhos Maracanã esse tema pra Portela. Só que escola de samba é outro papo. É problema. É guerra. Não se chega sugerindo um samba pronto. Tem todo um processo complicado que envolve ego, grana, disputa, prestígio interno. Na minha ingenuidade imaginei que magnífico desfile poderia ser pra azul e branco. Sonho, apenas. Desisti logo. Até hoje, porém, ainda visualizo este cortejo na Passarela do Samba.” (pp. 112)
Outra história bastante interessante é a de “Um ser de luz”, feita em homenagem a Clara Nunes. Mas esta ficará para mais tarde, pois será a música de hoje de nossa seção “Final de Semana”.

Em outro capítulo, traz uma revelação que talvez pouca gente saiba: que “To Voltando”, que se tornaria o hino da Anistia e da volta dos exilados políticos não foi feita com esta finalidade. Na verdade era uma canção que saudava a volta de um amigo após longa temporada de shows. Entretanto, como ele mesmo diz, “as músicas ganham vida própria”.

Complementando, desfaz uma dúvida que eu sempre tive: o porquê do título “Agora é Portela 74” em uma das canções, porque a letra dela não tem nada a ver com a águia de Madureira. Segundo o livro o título foi unica e exclusivamente para driblar a Censura vigente à época – a canção já havia sido vetada anteriormente.

Resumindo, é leitura indispensável para quem gosta de música. Na Livraria da Travessa, custa R$ 36.
Para fechar, vamos ver o próprio autor entoando dois clássicos de sua lavra, “Cicatrizes” e “Poder da Criação”.

4 Replies to “Resenha Literária – "Paulo César Pinheiro – Histórias das Minhas Canções"”

  1. Acabei de ler. Muito bom mesmo, a gente não consegue parar…
    Só não entendi porque a música Violão, parceria com Suely Costa ficou de fora, sendo esta uma das mais bonitas composições do autor. Vai ter um volume 2?

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