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Como eu havia prometido no post anterior com a resenha do livro, transcrevo aqui o relato do autor Paulo César Pinheiro sobre a composição “Portela na Avenida”, um dos seus maiores sucessos e que faz vibrar o nosso coração portelense a cada vez que é entoado.

Vamos ao texto, que é das páginas 114 e 115 do livro:

“Um dia, Clara me fez uma encomenda. Queria gravar um samba que falasse sobre a Portela, sua escola do coração.

Era de praxe, os compositores homenagearem sua escola do coração, amiúde. Para serem aceitos na ala tinham que exaltá-la ao menos uma vez. Cantavam na quadra formalizando sua entrada. Todos já haviam feito o seu, da Velha Guarda aos mais jovens. Ela já havia solicitado a todos e nenhum samba novo se apresentava. Argumentei que depois de “Foi Um Rio Que Passou em minha Vida”, de Paulinho da Viola, realmente era uma tarefa de difícil execução. A melodia era magistral e, praticamente, definitivos seus versos. ninguém se atrevia a arriscar. Fora lançado em 1970. Dez anos, portanto, sem outro nos mesmos moldes. E eu era verde e rosa, criado em São Cristóvão, com parte da infância entre o Pedregulho e o pé do morro de Mangueira e a adolescência na subida do Paraíso do Tuiuti. Ela insistiu, achando que eu não fugiria do desafio. E o Mauro [Duarte], também azul e branco, seria o parceiro ideal para a empreitada. Como a uma mulher não se nega um pedido de coração, topei a parada.

Conversei com o Bolacha e ele se empolgou. Dias depois me trouxe uma idéia musical muito boa. Somente um pedaço, mas já dava pra pensar em algo. Aí é que eu vi onde me metera. Tinha de ser à altura do anterior famoso. Sendo menor, seria apenas mais um e não valeria a pena. O nó estava dado e meu trabalho era desfazê-lo. O tempo foi passando, e nada do que vinha me agradava. Rasguei muito papel, rabisquei muita bobagem e não conseguia o estalo. Andava de um lado pro outro da casa, ia na janela, na varanda, no portão, e a luz da inspiração não acendia. Prestes a desistir, resoilvi deixar por conta dos deuses da Música o desfecho do encargo a que me atribuí. Não sendo dessa feita, tento no ano seguinte. E relaxei o espírito combalido.

Na outra manhã fui tomar uma brisa na sacada. De lá, perdido em divagações, imerso em meus pensamentos pus-me a observar o cantinho de Clara. Era uma mesa de fazenda antiga encostada na parede da sala. Sobre ela uma toalha de renda branca e um grande oratório aberto. Em torno dele as imagens dos orixás espalhados e, dentro, os santos católicos. No centro, em destaque, uma escultura em madeira de Nossa Senhora da Aparecida, a Padroeira do Brasil. Encimando a pequena igrejinha, pregada na parede, cinzelada em bronze fino, a pomba do Espírito Santo de asas abertas. Um arrepio me percorreu o corpo. Os olhos cintilaram. A mente abriu. Estava ali, na minha cara, o que eu buscava tanto. Era só misturar o sagrado e o profano como faz o povo intuitivamente, em suas manifestações folclóricas. O manto azul e branco da  santa era a massa compacta dos integrantes da Escola entrando na avenida. A procissão do samba num cântico de fé pra festa do Divino. A águia, símbolo maior, virando a pomba do Espírito Santo num andor, seguindo pela passarela do templo do carnaval. Os fiéis da missa, na mais grandiosa festa do mundo, em direção ao altar da praça da apoteose.

Confesso que, enquanto escrevia, os olhos marejavam. A emoção me pegou de jeito. Consegui atender o desejo de Clara, destrançando o nó do óbvio. O samba hoje é, para meu orgulho, o que esquenta a bateria e a garganta do puxador antes da entrada da Portela na avenida.”

Obviamente, a letra, para completar o texto:

(Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro)

“Portela
Eu nunca vi coisa mais bela
Quando ela pisa a passarela
E vai entrando na avenida
Parece a maravilha de aquarela que surgiu
O manto azul da padroeira do Brasil
Nossa Senhora Aparecida
Que vai se arrastando
E o povo na rua cantando
É feito uma reza, um ritual
É a procissão do samba
Abençoando
A festa do divino carnaval

Portela
É a deusa do samba,
O passado revela
E tem a Velha Guarda como sentinela
E é por isso que eu ouço essa voz que me chama
Portela
Sobre a tua bandeira, esse divino manto
Tua águia altaneira é o Espírito Santo
No templo do samba

As pastoras e os pastores
Vem chegando da cidade e da favela
Para defender as tuas cores
Como fiéis na santa missa da capela
Salve o samba, salve a santa, salve ela
Salve o manto azul e branco da Portela
Desfilando triunfal sobre o altar do carnaval”

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2 Replies to “Portela na Avenida, a História – por Paulo César Pinheiro”

  1. Não sou carioca e não tenho contato com o mundo do carnaval, mas a licenciatura poética só pode ser mesmo coisa dos Deuses para entender, desbravar e explicitar a alma de um povo. “Portela na Avenida” é o exemplo típico de como nós pobres mortais temos que fazer os devidos laudatórios aos seus autores.

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