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Volta de feriado, dia com bastante trabalho a fazer… Mas não podíamos ficar sem a já nossa tradicional seção “Samba de Terça”.
Nesta terça falo da única das “quatro históricas” que não havia sido retratado aqui: a Acadêmicos do Salgueiro, atual campeã do carnaval carioca – com todos os méritos, diga-se.
Como sempre, dentro do espírito da seção, vamos falar de um samba e um desfile que não entram para os anais de sambas históricos da “Academia”. Entretanto, é um belo samba.
A agremiação tijucana sempre teve como seu slogan o “nem melhor, nem pior, apenas diferente”. E diferente é o que ela faria naquele carnaval de 1989: um enredo sobre o Centenário da Abolição da Escravatura… um ano depois !
O enredo, dos carnavalescos Luis Fernando Reis e Flávio Tavares, fazia uma abordagem crítica da Abolição da Escravatura e lembrava ídolos negros campeões da luta pela liberdade, como a Escrava Anastácia e Martin Luther King. Também reverenciava a cultura e a religião africanas e refletia sobre a situação do negro na sociedade àquele momento.
Como diziam a sinopse e o roteiro de desfile. Notem o número de alas e de carros, muito diferentes dos tempos atuais.
“Descrição do Enredo
I – Introdução:
“Nem melhor, nem pior, apenas uma escola diferente”, essa frase define muito bem o Salgueiro, sempre arrojado e marcante, original e atrevido, verdadeiramente uma escola forte, livre e solta, comprometida com seu tempo e nele pioneira, sempre surpreendente e inovadora, e é assim que a desejamos no carnaval de 1989, livre e soberana em seu estilo, transmitindo liberdade e resistência.
Quando todos lembraram do negro em 1988, nós do Salgueiro só o faremos em 1989, não apenas Por sermos diferentes, também porque nos parece que o movimento negro, a luta negra não se finda em 88, ela é maior que o centenário dessa dita liberdade, dessa falsa abolição. É importante que essa chama não se apague e que no 101º, 102º, 103º ano da libertação dos escravos ainda se proclame igualdade entre negros, mulatos e brancos.
Por isso dizemos que o Salgueiro é atrevido, arrojado e diferente, pois quando essa chama de luta começar a arrefecer nós a avivaremos, a reacenderemos com nosso evoluir, cantar e dançar em :
SALGUEIRO – TEMPLO NEGRO EM TEMPO DE CONSCIÊNCIA NEGRA
II – Os Quadros:
1º Quadro: SALGUEIRO – TEMPLO NEGRO
Na primeira parte do desenvolvimento mostraremos o SALGUEIRO TEMPLO NEGRO, uma homenagem aos nove enredos Afros já cantados pelo Acadêmico do Salgueiro.
01 – Comissão de Frente – são os guardiãs do Templo Negro, altivos e imponentes, negros e elegantes, tradicionais e respeitosos senhores salgueirenses – velha-guarda.

02 – Carro Abre-Alas – será o carro título do enrêdo, totens, chifres e panteras fazem proteção à gruta negra, à pantera templo, símbolo da luta e da coragem negra – SALGUEIRO NEM MELHOR NEM PIOR , APENAS DIFERENTES.
03 – Ala dos Leopardos
04 – Ala dos Sacerdotes
05 – Ala das Negras Raízes
06 – Ala do Banzo
07 – Carro Navio Negreiro – aprisionados vinham os negros em navios sem cor e sem bandeira, era finda liberdade, em alto mar mas ainda em terra, era o sonho de liberdade que ainda existia, mas ali morreria, iniciava-se a escravidão.
08 – Ala da Democracia Racial
09 – Ala da Guarda Quilombola
10 – Ala da Nobreza de Palmares
11 – Carro Portais de Palmares – negro escravizado é sonhando e tentando liberdade, nas matas, nos sertão negro retoma a liberdade e lembra MÃE – AFRICA, MÁSCARA, ESCUDOS E LANÇAS no rodopiar de negritude, negro era livre de novo com a FORÇA DE ZUMBI.
12 – Ala do Rei Zumbi
13 – Ala da Consciência Negra
12 – Tripé Xica da Silva – saudoso ano de 1963, primeiro campeonato salgueirense. O Minueto foi destaque desse enrêdo, só nos cabe o recordarmos na graciosidade das crianças do Salgueiro.
13 – Ala do Minueto (crianças)
14 – Ala dos Negros da Xica
15 – Ala da Suntuosidade Negra A.
16 – Carro dos Jardins da Xica – negra feia nobre, feita livre, comprada pela graça, pelo amor, atrevida e requintada, fez – se rainha em seu jardim a negra influência sobre o requinte dos salões, Ouro e Palha, Veludo e Prata.
17 – Ala da Suntuosidade Negra B.
18 – Ala do Ouro Negro
19 – Ala de Passistas
20 – Ala de Chico-Rei
21 – Carro de Chico-Rei – “Era o ouro depositado na pia” – Cabeça Negras, ouro nos cabelos, negra riqueza, liberdade enfim – Chico-Rei.
22 – Ala dos Negros Senhores
23 – Ala de Religiosidade Negra
ERGUE-SE O PAVILHÃO SALGUEIRENSE – NO RODOPIAR DE DORIS E NA ELEGÂNCIA DE ELCIO – 1º CASA DE MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA.
24 – Ala das Baianas do Bonfim
25 – Ala das Mucamas A.
26 – Carro da Bahia Negra – negra Bahia, dos orixás, das oferendas, da Festa da Lavagem do Bonfim, muito brilho, muito espelho, num belo sincretismo – Oxalá – Senhor do Bonfim.
27 – Ala das Mucamas B.
28 – Ala da Capoeira
29 – Ala do Séquito do Rei
30 – Ala da Embaixada Negra
31 – Tripé da Festa para um Rei Negro – é festa no Recife, a corte negra vinda do Congo visita a negrada pernambucana, lampiões e máscaras, adornos africanos em terras holandesas.
32 – Ala dos Príncipes Africanos
33 – Ala das Lembranças D’África
34 – Ala dos Pássaros da Liberdade
35- Carro do Valongo – Rio de Janeiro – Cais do Valongo, são negros acorrentados esperando a escravidão, a liberdade já vai longe, é um sonho longe que se vai, como as gaivotas do cais.
NOS DOIS ÚLTIMOS ENRÊDOS AFROS – “DO IORUBÁ À LUZ, A AURORA DOS DEUSES” “NO BAILAR DOS VENTOS RELAMPEJOU MAS NÃO CHOVEU” FALA O SALGUEIRO DOS NEGROS ORIXÁS, ASSIM TEREMOS:
36 – Ala de Exú
37 – Tripé Exú – Abridor de caminhos, despachos em potes de barro, o Tronco de Exú, Tridentes em Ouro, Vermelho e Preto.
38 – Ala de Samba Show
39 – Ala de Iansã
40 – Tripé de Iansã – São nuvens, são raios, é tempestade, é Iansã.
41 – Ala de Pai Xangô A.
42 – Carro de Pai Xangô – “Xangô é nosso Pai, é nosso Rei”, protetor do Salgueiro, morro e escola, da mesma cor, em seu trono, guarnecido por leões, Xangô, pai protetor, guerreiro como nós, justiceiro do bem, salgueirense também.
43 – Ala de Pai Xangô B.
44 – Ala de Ogum A.
45 – Tripé de Ogum e Oxossi – Irmãos de sangue e luta, Ogum o guerreiro, Oxossi, o caçador.
46 – Ala de Ogum B.
47 – Ala de Oxumaré A.
48 – Tripé de Oxumaré – Serpente no lado masculino, arco-íris no momento feminino – Deusa do tempo, das cores e do movimento.
49 – Ala da Cultura Salgueirense
50 – Ala de Oxum
51 – Tripé de Oxum – Ouro e Riqueza, Águas de Rio, Cachoeiras, Mamãe Oxum.
52 – Ala de Oxalá
53 – Tripé de Oxalá – A pureza da paz, a sabedoria a limpidez de intuito e da vontade – Branco e Brilho – benção de Oxalá.
Antes, porém, de mostrarmos a 2ª parte do enrêdo, façamos uma rápida reflexão sobre o título: SALGUEIRO TEMPLO NEGRO, nos parece que não somente o Acadêmicos do Salgueiro merece o título como também o próprio morro do Salgueiro, que outrora fora um quilombo, refúgio de negros fujões, leia – se: sedentos de liberdade, e hoje numa visão social é um novo quilombo, por ser uma comunidade carente, predominantemente negra e afastada pela elite branca e dominante, como outros morros e favelas, e que ainda mantém viva, apesar de serem pequenas as manifestações, resquícios tradicionais dos negros como o caxambú, o jongo e a folia de reis.
Sem dúvida alguma, o morro do Salgueiro é também um Templo Negro.
54 – Ala da Tradição Salgueirense
2º CASAL DE MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
55 – Ala da Musicalidade Salgueirense
56 – Ala da Cultura Salgueirense A.
57 – Carro da Tradição Salgueirense – O morro do Salgueiro, alegorizado, fantasiado onde floresce a tradição, a cultura, a liberdade e o amor salgueirense – “Salgueirar vem de criança”.
58 – Ala da Cultura Salgueirense B.

2º Quadro: SALGUEIRO EM TEMPO DE CONSCIÊNCIA NEGRA
Durante todo o ano de 1988, comemorou -se o centenário da abolição da escravatura, nos parece no entanto que esse momento é mais de reflexão, é mais de conscientização do que propriamente de festividades, é tempo de repassar esse 100anos de abolição dentro de uma análise real, sem falsos sentimentalismos, numa visão nua e crua de uma realidade negra no Brasil; verdadeiramente o negro ainda não se libertou, ainda é preconceituado e num dado sentido ainda é escravo de uma sociedade que o alija de todo o processo social, cultural, político e financeiro. E ainda se diz que em nosso país não há preconceito racial, não há preconceito de cor, e é triste reconhecer essa farsa, o preconceito não é nítido, não é claro, ele vem escamoteado, não Por palavras, mas por gostos e atitudes que o torna mentiroso e hipócrita. E se assim não fosse não existiria uma Lei, hoje tornada inafiançável , que pune o preconceito racial. É triste afirmar: no Brasil há discriminação.
A partir de toda essa reflexão, não poderíamos considerar como “Redentora” a Princesa Isabel, não achamos conveniente sua inclusão em nosso enrêdo, a final liberdade não se assina, se conquista numa luta constante, sem trégua até que venha a liberdade, assim como lutou Zumbi dos Palmares, líder maior de todo o movimento negro brasileiro , ou como ANASTÁCIA, negra escrava, corajosa e destemida, hoje símbolo abençoado da resistência, ou ainda como João Cândido, marinheiro negro, dito livre, porém escravizado pelas chibatadas da oficialidade branca, que liderando a, em sua grande maioria, negra marujada pôs fim aos castigos na Marinha brasileira. Três negros fortes, marcantes, orgulho da raça, símbolo sempre vivos da resistência negra que personalidade coragem e destemor de toda a luta, de toda a consciência.
59 – Tripé João Cândido – “Sem revolta e sem chibata”. E foram canhões tornados negros que apontaram para o Rio, enfim acabou o castigo, foi-se a chibata, veio a liberdade pelas negras mãos de João Cândido.
60 – Ala dos Novos Grilhões
61 – Ala da Luta Negra (crianças)
62 – Carro da Consciência Negra – “Linda Anastácia sem mordaça o novo símbolo da massa a beleza negra me seduz”, entre guerreiros e atabaques o som da religiosidade negra – sem mordaça – livre.
63 – Ala de Samba Show II
64 – Ala a Luta Negra não se finda A.
65 – Tripé Zumbi – Zumbi é consciência negra, é raça , é força e destemor, é negritude, símbolo vivo de uma luta, que hoje recomeçar no livre e despojado cantar salgueirense .
66 – Ala a Luta Negra não se finda B.
67 – Ala da Esperança Negra
68 – Ala da Elegância Negra (baianas)
69 – Ala da Velha-Guarda
70 – Ala dos Negros Guerreiros (bateria)

III – Abordagem do Enrêdo
Um dos maiores líderes negros da humanidade foi o reverendo norte – americano Martim Luther King que certa vez afirmou: “BLACK IS BEAUTIFUL” – “NEGRO É BELO”, e essa frase nos inspirará por todo o enrêdo, até mesmo nos permitiremos aprofunda-la um pouco mais, o negro não só é belo, mas também é rico, pomposo, forte, exuberante e fundamentalmente LIVRE, e é nessa riqueza, nessa beleza e nessa liberdade que abordaremos nosso enrêdo. As fantasias serão leves e ricas e trarão sempre a característica africana, já que acreditamos que enquanto na África o negro ainda respirava liberdade e por aqui só sentiu preconceito, evitaremos inclusive, a figura do negro escravo, servil e submisso, que tanto agrada à elite dominante, optaremos Por um negro forte, guerreiro. Resistente e livremente africano. As alegorias serão coerentemente negras, criativas e pomposas belas e adequadamente ricas.”
 
A escola desfilou já na manhã de segunda feira de carnaval, 06 de fevereiro de 1989. Fez um belo desfile e era apontada como uma das favoritas, ao lado de Beija Flor, Imperatriz e União da Ilha. O resultado, porém, colocou a escola no quinto lugar, com 207 pontos.
O regulamento daquele ano previa descarte de notas e eram computadas apenas duas notas por quesito, havendo apenas notas inteiras. O inconformismo na vermelha e branca da Tijuca após o resultado gerou um protesto que considero genial para o Desfile das Campeãs: uma faixa onde se lia apenas:
“NEM MELHOR, NEM PIOR. APENAS ROUBADO”
Isto é a Academia e sua longa e bem vinda tradição de subversão no samba carioca.

Em minha opinião, achei justo o resultado da escola naquele ano, a propósito.

Aqui você pode ouvir o samba, em sua versão de estúdio. Abaixo, um vídeo do desfile original da escola. O curioso é que a versão de estúdio é bem mais acelerada que o samba na avenida.
Passemos à letra:
Autores
Alaor Macedo, Helinho do Salgueiro, Arizão, Demá Chagas, Rubinho do Afro
Puxador: Rixxa
“Livre ecoa o grito dessa raça
E traz na carta
A chama ardente da abolição
Oh! Que santuário de beleza
Um congresso de nobreza
De raríssimo esplendor
Revivendo traços da história
Estão vivos na memória
Chica da Silva e Chico Rei
Saravá os deuses da Bahia
Nesse quilombo tem magia
Xangô é nosso pai, é nosso rei
Ô Zaziê, Ô Zaziá
O Zaziê, Maiongolé, Marangolá
Ô Zaziê, Ô Zaziá
Salgueiro é Maiongolê, Marangolá
Vai, meu samba vai
Leva a dor traz alegria
Eu sou negro sim, liberdade e poesia
E na atual sociedade, lutamos pela igualdade
Sem preconceitos sociais
Linda Anastácia sem mordaça
O novo símbolo da massa
A beleza negra me seduz
Viemos sem revolta e sem chibata
Dar um basta nessa farsa
É festa, é Carnaval, eu sou feliz
É baianas,
O jongo e o caxambu vamos rodar
Salgueirar vem de criança
O centenário não se apagará”

Semana que vem, a pedidos, União da Ilha. O samba ? “Fatumbi”, 1998.

10 Replies to “Samba de Terça – "Templo Negro em Tempo de Consciência Negra"”

  1. Fala Migão,

    fiquei te aguardando no domingo … o churrasco estava muito bom … banda de rock e muito chope e dança …
    aliás neste fim de semana que mais fiz foi comer churrasco e tomar minhas cervejinhas mas confesso … esta 3ª feira parece 2ª tal é a minha ressaca … hehehehehe

    Vovô Xaruto

  2. Essa era a época que o Salgueiro apresentava sambas muito bons. A partir do título (discutivel) de 1993 (podem me criticar, mas a Imperatriz 93 estava sensacional), o Salgueiro caiu numa de fazer sambas oba-oba, com letras repletas de clichês (“Vem amor”, “vou sacudir a cidade”, “explode coração” e outros jargões empobrecidos), que nada acrescentam.

    Uma pena que o samba de 2010 parece ter voltado aos tempos do oba-oba…

  3. Migão, venho defendendo essa tecla da queda de qualidade nos sambas do Salgueiro, a partir de 1993, ha muito tempo. É que nem um time jogar defensivamente e ser campeão, aí todos os técnicos resolvem imitar o estilo de jogo, só pq deu certo.

    Interessante que antes do Samba OBA-OBA de 1993, o Salgueiro vinha de 4 sambas muito bons: o de 1989 (citado em seu blog), o de 1990 (Sou Amigo do Rei, um samba que gosto muito, desfile igualmente maravilhoso, desenvolvido pela Rosa – pra mim, o SAL em 1990 devia ser vice e não a Beija-Flor), o de 1991 (sobre a Rua do Ouvidor, samba magistral, desfile novamente excelente da Rosa) e o de 1992 (samba de mediano pra bom, sobre o café).

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