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Estava assistindo à ótima série Inesquecível Sapucaí, conduzida por Milton Cunha no site do G1 (aliás, Milton também foi um dos protagonistas do também excelente programa “A Roda” no sábado passado), e fiquei refletindo sobre o discurso de Lícia Caniné, a Ruça, ex-presidente da Unidos de Vila Isabel.

Da forma poética, estética e, sobretudo, política com a qual a Vila se apresentou naquele carnaval de 1988. A mesma Vila que, nos anos seguintes, falaria da Declaração Universal dos Direitos do Homem (“Direito é Direito”, 1989) e da reforma agrária (“Se essa terra fosse minha”, 1990).

A mesma Vila que no ano de 2008 saudou os trabalhadores do Brasil e os direitos consolidados na CLT de Getúlio Vargas.

Um viés de esquerda, diriam analistas políticos. É a mesma Vila que foi campeã emocionando a passarela com apoio financeiro do agronegócio, em 2013, e que saudou um político socialista logo depois (Miguel Arraes, no desfile de 2016).

Que agora vai saudar a História oficial – ou a versão oficial da História – da Princesa Isabel, como personagem emblemática para louvar a cidade imperial de Petrópolis. Uma visão talvez mais “direitista”. Ou, pelo menos, menos revolucionária.

São faces de uma relação construída entre as escolas de samba e o poder ao longo dos anos. Nos primórdios do desfile somente a História dos livros, aquela que a Mangueira contesta este ano, era apresentada. Era um tal de exaltação a próceres e figuras que fomos ensinados – ou orientados – a admirar e reconhecer como heróis. Ou gente importante, que seja.

Nos anos 80, período do fim da ditadura, a crítica política entrou em cena e fez a fama, forjou o DNA de algumas escolas de samba. Como a “saudosa” (que tristeza quase usarmos verbos no passado para nos referir a ela) Caprichosos de Pilares e a São Clemente, entre outras. Enredos que falavam da violência no trânsito, nas grandes cidades, a americanização do Brasil, as promessas não cumpridas de políticos, a dívida externa e as riquezas exploradas do país, o menor abandonado e a própria comercialização do espetáculo. O Samba Sambou nunca foi tão atual.

Passamos, depois, por um momento quase que de “despolitização” do carnaval. Muito enredo CEP, muita homenagem ou apenas temas e enredos abstratos ou comercializados, mais prosaicos. Vez ou outra pintava um Betinho (Império Serrano, 1996) ou a mesma Caprichosos falando de uma política negra em seu desfile sobre a negritude (citação a Benedita da Silva, em 1998).

Mas, via de regra, as escolas passaram a evitar um envolvimento mais direto com críticas ou posicionamentos declarados.

Então, em 2003, a Beija-Flor explicitamente homenageia o então recém eleito Lula, numa grande alegoria, num enredo que falava de combate à fome. A gravação do samba no CD terminava, inclusive, com o slogan da campanha petista (“A esperança venceu o medo”). Muito menos uma crítica e mais uma clara aproximação do poder que se constituía. A Portela, da mesma forma, surfou a onda da proximidade afetiva com o então prefeito Eduardo Paes para falar de um “Rio de Paz”, óbvio trocadilho, exaltando, (in)diretamente alguns aspectos da administração municipal.

No efeito sanfona de um morde e assopra as duas primeiras colocadas do carnaval passado tinham temática bem politizada. Dirão alguns, numa análise que não é de todo equivocada, que a Beija-Flor assumiu um discurso de grande aceitação em parcela mais conservadora, e também na onda do anti-petismo (a mesma escola que homenageou Lula…), com ratos na Petrobras e críticas duras a episódios como Mensalão e denúncias que marcaram, especialmente, as administrações do PT no governo federal.

Por outro lado, o Paraíso do Tuiuti virou a queridinha dos setores ditos mais progressistas, ou de esquerda, ao falar de cativeiro social, denunciar o racismo da sociedade e ironizar movimentos como o da FIESP e seus patos amarelos, que marcaram presença nas passeatas pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Sem falar da Mangueira em crítica direcionada ao prefeito Marcelo Crivella.

Em 2019 não dá para apontar uma batalha ideológica. Mas é possível notar um posicionamento bem definido de algumas agremiações. A Mangueira, já citada, com o enredo sobre herois não reconhecidos pelos livros. Numa lista em que não falta a vereadora Marielle Franco, assassinada há um ano.

O mesmo Tuiuti, com um enredo que permite diferentes interpretações políticas – inclusive em relação a homenageados “ocultos”. A São Clemente reedita seu enredo de 1990 sem querer aliviar nas críticas (como fizera em 2010, quando venceu o Grupo de Acesso falando do “choque de ordem na folia”). E até na letra do samba da Imperatriz os tais patos amarelos são alvo de ironia novamente.

Lembrando que na Série A também haverá, como no enredo da Unidos de Padre Miguel, sobre Dias Gomes, um viés de crítica política e social bem nítido [1].

No ensaio técnico do temporal, antes da apresentação da São Clemente, o governador Wilson Witzel recebeu uma chuva também de vaias. Sinal de que o povo do samba acordou de certa letargia institucional e resolveu soltar a voz para se posicionar.

Como vejo o carnaval como algo que vai muito além do mero espetáculo audiovisual, acho válido. Mais que isso, necessário e orgânico. Ao longo do tempo a festa sempre foi palco para manifestações populares, sendo ela mesmo uma grande manifestação de resistência e, por que não?, contracultura. Não se trata de transformar a Passarela em palanque.

Não se trata de exigir ou cobrar das escolas que sempre tragam reflexões políticas. Mas esse tipo de abordagem pode e deve fazer parte do cardápio cultural que nos é apresentado em cada noite de desfile. Agrade ou não a versão da História que está para ser contada ali, o que importa é termos histórias para contar.

[N.doE.: a Unidos do Porto da Pedra, também na Série A, trará referências ao PT e a Lula em seu desfile. PM]

Imagem: Arquivo Ouro de Tolo

11 Replies to “Olha a Crítica! Que Assim Seja…”

  1. Fala Migão ! Belo texto, mas só 2 correções. Quem homenageou Vargas em 2000 foi a Portela e não a Vila, que tratou da cultura indígena. E o “pato mergulhado no dinheiro” no samba da imperatriz ao meu ver é uma clara referência ao Tio Patinhas e não aos patos da Fiesp, o que na minha opinião, não tem conotação política, mas sim ao dinheiro, tema da escola.
    No mais, grande artigo, acho que as escolas podem e devem apresentar críticas políticas, só tenho certo receio qdo há partidarização, o que é bem diferente.
    Um forte abraço ! Valeu !

    1. Neto, o artigo é do colunista Carlos Gil.

      Obrigado, irei corrigir sobre 2000. Sobre partidarização, penso ser inevitável no momento histórico que o Brasil vive hoje.

        1. Valeu Migão ! Imaginei que fosse mesmo. Correção feita, segue o baile ! Parabéns ao Carlos Gil pelo belo texto. Bom carnaval a todos!

    2. não vejo problema algum, desde que ninguém não partam pra ignorância, todo mundo tem o direito de defender seu ponto de vista.

  2. Além de todos os fatores citados neste texto do Carlos Gil, e em outros do Pedro, acho que contribui também para o enfraquecimento dos enredos críticos o fato do público presente aos desfiles na Sapucaí hoje ser bem diferente do que era na década de 80. Na verdade, já é bem diferente até mesmo do que o dos ensaios técnicos. Acho difícil que os enredos críticos de São Clemente e Caprichosos, hoje, causem a mesma reação na avenida, vamos tirar a prova com o retorno de “O Samba Sambou” na Segunda-Feira de Carnaval…

  3. Dos enredos criticos de sampa,a Tatuape tem um viés de direita, porque no face do Carnavalesco da escola seu posicionamento político, e no vídeo de lançamento do enredo, aparece as manifestações pelo imimpeathman (MBL); quanto Tucuruvi parece um algo mais progressista; já na Aguia, o componente polémico foi expulso, só no dia do desfile da pra saber.

    1. Bem, ao meu ver e pelo que entendi, a Tatuapé está tentando imitar a Beija – flor do ano passado, só que com um viés bem mais à direita que a própria escola de Nilópolis (também, São Paulo é a casa do MBL), mas o Tucuruvi terá uma temática menos esquerdista e menos agressiva que a Tuiuti. A princípio, o Bolsonazi da Águia de Ouro sim, foi expulso, mas vai que a esquerdista Tuiuti bote um aqui no Rio, como eu estou temendo que isso aconteça (e Deus permita que isso não aconteça, porque mexer com Bolsonaro é mexer num vespeiro, muito por causa dos bolsominions e da bancada do PSL)

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