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A Beija-Flor, o Tuiuti e mais Algumas Notas sobre o Carnaval

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Eu deveria ter escrito este artigo ainda na semana passada, pós resultados, mas a Light me deixou sem luz desde a chuva da Quarta Feira de Cinzas até a noite de sábado, de forma que somente agora consigo parar para escrever fazendo um balanço sobre o carnaval 2018.

Sobre o título da Beija-Flor, o artigo do editor adjunto Fred Sabino publicado semana passada resume bem a questão. Considero, também, que a vitória refletiu a hegemonia do discurso da Lava Jato na sociedade, além de enveredar por um viés conservador. Explico.

Ao abrir o desfile colocando – estou simplificando para melhor compreensão – a corrupção da Petrobras como sendo a causadora dos problemas sociais do Brasil, a Beija-Flor repetiu o discurso da Lava Jato e de setores conservadores de que a corrupção da esquerda é o mal fundamental em nossa sociedade. Os ratos banhados em petróleo em uma das primeiras alas, bem como a reprodução (mambembe) do edifício sede da Cia em uma das alegorias são os exemplos apontados para a narrativa pela qual a escola de Nilópolis optou.

Um bom exemplo desse viés é que, ao contrário do Paraíso do Tuiuti, a Beija-Flor não sofreu pressões para alterar elementos de seu desfile para a noite das Campeãs. E nem deveria, pois reproduziu o discurso de quem detém o poder constituído atualmente.

Até aí, ok.

A escola adotou um viés com o qual não compactuo, mas foi a narrativa escolhida para seu enredo e este não deve ser julgado ideologicamente. A questão é que faltou carnavalização nos aspectos plásticos e visuais, especialmente em fantasias.

Estava claro que muitas das roupas utilizadas no desfile foram compradas em lojas populares, sem qualquer tipo de estilização ou carnavalização. Óbvio que não poderíamos exigir luxo, mas a Beija-Flor repetiu uma solução utilizada pela Tradição em 2003, no ano do desfile sobre Ronaldo Fenômeno. Naquela ocasião, a agremiação de Campinho trouxe diversas alas com os componentes vestindo shorts, chuteiras e camisetas com os nomes das equipes que o jogador havia defendido até então.

Guardadas as devidas proporções, a Beija-Flor utilizou o mesmo estratagema. Os uniformes do Colégio Pedro II utilizados em uma das alegorias e nos caixões foram claramente comprados em uma loja especializada e jogados direto no desfile – este é um bom exemplo, mas poderia citar outros.

Chega até a ser injusto com outras escolas que se esforçaram para vestir e fantasiar adequadamente de 2.500 a 3 mil componentes em um ano extremamente duro para as finanças das agremiações. Alas de short e camiseta, roupas baratas compradas em lojas populares e assemelhados fizeram 29,9 em 30 possíveis no quesito Fantasia. Não dá.

O mesmo vale para Alegorias, mas o julgamento deste quesito como um todo me pareceu, em um primeiro momento, bastante equivocado.

Ainda sob este aspecto, me parece claro que o Tuiuti se beneficiou da repercussão de seu desfile entre as noites de domingo e segunda feira. Como as notas são fechadas apenas após a passagem da última escola, os jurados tiveram acesso ao noticiário durante a segunda-feira e isso me parece ter exercido um efeito positivo sobre as notas da escola.

Ao contrário da Beija-Flor, a meu juízo era desfile para voltar às Campeãs, mas não com o vice-campeonato. Entretanto, é um prêmio para uma escola que não tinha nada a perder e que resolveu arriscar. Fica a lição para escolas como a União da Ilha, a São Clemente e a própria Imperatriz.

Ainda sobre o Tuiuti, a abordagem ideológica do enredo foi claramente oposta à da Beija-Flor, mas cabe aqui fazer uma diferenciação: o desfile teve um viés de esquerda. A escola, longe disso – como deixou claro no pré-desfile das Campeãs. Cheguei a achar engraçado ver pessoas ligadas à esquerda e que não acompanham carnaval o ano todo saudando a escola como tal.

As escolas de samba, historicamente, sempre tiveram um viés de dialogar e/ou aderir ao poder constituído – que, com breves exceções, sempre foi ideologicamente conservador.

Escrevi artigo em 2017 sobre a crítica e o carnaval onde digo que, à exceção da década de 80 do século passado, o desafio ao poder constituído sempre foi a exceção absoluta, não a regra. A própria relação de dependência das escolas de samba com o Poder Público – que deveria ser menor, mas isso é papo para depois – torna bastante escasso e estreito o espaço para a contestação e a crítica.

Ou, como nas palavras do historiador e ex-colunista deste blog Luiz Antonio Simas em sua página no Facebook:

“Escolas de samba sempre dialogaram e negociaram, desde a década de 1930, com instâncias externas: o poder público, via subvenção, o setor do turismo, empresas privadas, o crime organizado… Não interessa a nenhuma escola de samba fechar canais de diálogo com o poder instituído. Podem apostar (…)”

Tem muita gente me cobrando a promessa que fiz se a Grande Rio fosse rebaixada, mas prefiro esperar os desdobramentos do caso. O movimento por uma nova virada de mesa, trazendo de volta Grande Rio e Império Serrano, pode se concretizar dadas as últimas declarações à imprensa, todas na linha de “temos que respeitar o regulamento mas é uma pena que a Grande Rio esteja sendo rebaixada”.

Em uma opinião absolutamente pessoal e que não reflete a posição institucional da escola da qual faço parte, penso que 14 escolas com ascenso e descenso de duas me parece o modelo ideal. Mas para o modelo de negócios do carnaval essa instabilidade de resultados e de regulamento prejudica bastante, especialmente no que tange à captação de recursos.

Já que tocamos em estabilidade, o quarto lugar da Portela poderia ter sido um pouco melhor, mas é mostra da estabilidade que a gestão do grupo político Portela Verdade, do qual faço parte, trouxe à escola. Cinco carnavais, um título e cinco presenças no Desfile das Campeãs, sendo com o Salgueiro a única agremiação que esteve em todos os anos no sábado das Campeãs. Não à toa, as duas lideram o atual ranking da Liesa.

Não é pouca coisa. Como escrevi na semana passada, chegou a hora de um enredo que toque profundamente a emoção do portelense. Pelo que conversei durante o Desfile das Campeãs com diversas pessoas, não é um sentimento somente meu.

Finalizando, a dança das cadeiras no mundo do samba começou cedo este ano. A recém promovida Unidos do Viradouro contratou o carnavalesco Paulo Barros, em negociação cuja qual já havia rumores não confirmados antes mesmo do carnaval e que se confirmou posteriormente. O carnavalesco campeão Edson Pereira troca de lugar com Barros e fará a Vila Isabel para 2019.

A Vila Isabel dispensou o mestre de bateria Chuvisco e seu intérprete Igor Sorriso anunciou que não fica na escola – a tendência é de que seja reposto com a volta de Tinga, extremamente identificado com as cores de Noel. Mocidade, Mangueira e Portela renovaram com seus carnavalescos, respectivamente Alexandre Louzada, Leandro Vieira e Rosa Magalhães. O Salgueiro também já havia renovado com Alex de Souza antes do Carnaval.

A Tijuca contratou Patrick Carvalho, coreógrafo da aclamada comissão de frente do Paraíso do Tuiuti.

Acredito que outras mudanças irão depender muito de que grupo a Grande Rio irá desfilar em 2019, bem como da permanência ou não de Laíla na Beija-Flor.

Ou seja, o carnaval 2019 já começou.

Imagens: Fabiano Artiles, Arquivo Ouro de Tolo e G1 (Tuiuti)

58 Respostas para “A Beija-Flor, o Tuiuti e mais Algumas Notas sobre o Carnaval”

  1. Fred Sabino disse:

    Se o julgamento de fantasia e alegoria desse ano foi baseado na orientação da Liesa, seria melhor acabar logo com os dois quesitos e só julgar os de pista. Assim todo mundo investe menos e dane-se o visual, ficamos só no samba.

  2. Romulo Tesi disse:

    Conhecendo o costume das escolas em seguir as tendências ditadas pelos resultados do ano anterior, mais escolas virão com enredos políticos. Resta saber se serão mais Beija-Flor ou Tuiuti. Acredito na primeira opção.

    • Pedro Migão disse:

      Minha leitura é um pouco mais ampla: penso que teremos para 2019 não somente mais enredos políticos – e sim, mais Beija Flor – mas, especialmente, mais enredos apelando à emoção dentro das características de cada escola.

  3. Luis Fernando disse:

    Agora o discurso utilizado é “as fantasias traduziam o enredo”. Então quer dizer que se uma escola falar sobre nudez, basta todos desfilarem pelados que tá bom? Não força né?

    Outro argumento utilizado pelos torcedores foi o da “vitória do samba”. Sim, o samba é belíssimo, e na minha opinião foi o que mais foi cantado pela avenida. E claro, é escola de samba, logo, ter uma campeã com força nesse quesito e em outros influenciados por ele, como bateria, evolução e harmonia, é bom para que outras caprichem mais nessa parte. Porém, temos de lembrar que a parte visual deve ser minimamente razoável. Títulos com base na emoção causada tiveram um visual que ao menos era condizente com um desfile de escola de samba. Para premiar o que a Beija-Flor apresentou, então é mais fácil virar desfile de bloco.

    Em relação as notas, conforme lembrado por vários analistas, o “arrastão” ao final do desfile certamente influenciou os julgadores. Basta ver que no módulo 4 as notas foram 10…

    E Pedro, também sou favorável a ter 14 escolas no Especial. Sou completamente contra viradas de mesa, a do ano passado foi um absurdo, mas se esse ano ela for a causadora de voltarmos a ter 7 escolas por dia, até que não seria tão ruim. Claro que o dano institucional, em tempos de bispo prefeito, é péssimo, mas sair da Sapucaí ao final dos desfiles antes das 5h30 da manhã é inadmissível. E permitiria a escolas tradicionais como Império Serrano e Estácio uma oportunidade maior de se estabilizarem no grupo especial e tentarem chegar mais perto de seus dias de glória.

    • Luis Fernando disse:

      Lembrando que o discurso que falei aqui são dos torcedores ou simpatizantes da Beija-Flor…

    • Pedro Migão disse:

      Como escrevi no texto, o que me incomoda é a instabilidade de resultados e regulamentos, que hoje valem e amanhã não mais de acordo com as conveniências. No mais, concordo que o desfile precisa se encerrar sob a luz do dia.

      Também acho que a Série A precisa ser repensada, mas vou esperar os desdobramentos dessa possível virada de mesa para escrever sobre o tema.

    • Fred Sabino disse:

      Luis Fernando, é exatamente isso o que penso, e a maioria também. Mas pena que alguns fanáticos enxerguem apenas o que lhes convêm, e vociferam que a Beija-Flor é perseguida, que tem panelinha de jornalistas (inclusive os que são torcedores apaixonados da escola), que é chororô de perdedor, e outras imbecilidades. Concordo também com os demais pontos levantados

      • Pedro Migão disse:

        Li em um comentário que o Marcelo de Mello “persegue a Beija Flor”. Quase caí da cadeira quando li isso…

      • Luis Fernando disse:

        Além disso, sabe o que acho mais engraçado, Fred e Pedro? O fato de como esses fanáticos mudam de argumento dependendo do desfile. Teve cidadão que achava que a Beija-Flor deveria ter sido a campeã em 88 por estar muito mais rica e luxuosa do que as “pobres” Vila Isabel e Mangueira, também usando esse argumento para justificar as seguidas vitórias sobre a Unidos de Tijuca de Paulo Barros (com algumas até sendo justas, sim) e, agora, mete essa de “vitória do samba”…

        • Pedro Migão disse:

          Pois é…

        • Fellipe Barroso disse:

          No ótimo artigo de Fred Sabino sobre o título de Nilópolis cheguei a sugerir um experimento (Impossível, claro!): realizar o mesmo desfile com uma Escola pequena.
          Tenho certeza de que seria um festival de críticas vindas de torcedores da Beija-Flor e um “já sabido” rebaixamento.
          …mas como foi a Beija-Flor, estão cantando de vanguardistas, e idiotas somos todos nós que “não entendemos a proposta”…

          • Pedro Migão disse:

            Se é uma escola de menor nome que faz este desfile, já teria participado este ano mesmo da apuração da Série A…

          • Giorgio Silveira disse:

            Sugiro um outro experimento: realizar o mesmo desfile da Beija-Flor pela Mangueira.

            AHHH, já posso até ver manchetes: “Verde e Rosa inaugura uma nova era nos desfiles das Escolas de Samba. Revolucionária !!! Que catarse popular !!!”

            Não me lembro em 2016 ninguém ficar escrevendo que a Mangueira deveria ter perdido o título pois desfilou com um carro alegórico apagado e que isso, pelo regulamento do Quesito Alegorias e Adereços, deveria ter sido punido.

            O que reclamo é a falta de coerência: os defensores de quesito de chão, de repente, se tornam defensores dos quesitos cenográficos! Se isso não é recalque, não sei o que mais seria.

          • Pedro Migão disse:

            Giorgio, eu fui um dos que mais apontei os desfeitos da mangueira em 2016. Além do carro apagado, a primeira metade da escola muda

  4. Erick Araújo disse:

    Mas esse é o exato problema do enredo da Beija-Flor. Falta um refinamento, um cerne que ligue todos os pontos, um transporte para o mundo do Carnaval.

    São Clemente falou de menor abandonado nos anos 80, mas soube trazer o tema pra esse mundo carnavalesco. Já a Beija-Flor, quis vencer pelo impacto, pela crueza do argumento e da dura realidade, refletindo o grito das massas inconformadas. É uma boa tática que gerou a contaminação de quesitos.

    Ao menos duas coisas ficaram claras: 1 – A Beija-Flor não tem carnavalesco além daquele que cuidou das fantasias; 2 – O herdeiro da escola ainda tem muito o que aprender.

    E sobre a Portela, seria realmente interessante um enredo que toque a comunidade, em especial um que já chegou ao ponto de ser uma “lenda urbana”. Mas a escola tem condições de dar o que tal enredo mereceria e precisaria?

    • Pedro Migão disse:

      Erick, que lenda urbana é essa? Fiquei curioso agora

      Sobre a Beija Flor, depois deste texto ter subido vi duas fotos sobrepostas comparando as fantasias da escola deste ano com Em Cima da Hora 2015. A semelhança é visível – a diferença é que, na escola do Acesso, a opção foi involuntária e não proposital.

  5. sabino,avisa ao migão que o cahe rodrigues está fora da imperatriz,e o tinga deixou mesmo a tijuca para vila.

  6. Eu entendo e concordo em partes com o texto. Mas, serei sincero: adorei a Beija-Flor ter ganho. Melhor um desfile que quer passar alguma coisa – com um samba magistral – do que se ganhasse o Salgueiro e seu samba-miojo!

    • Pedro Migão disse:

      Eu gostava bastante do samba do Salgueiro no CD, mas ao vivo realmente faltou alguma coisa.

    • Fellipe Barroso disse:

      Nem na gravação do álbum o samba do Salgueiro agrada. Um enredo desses claramente precisava de uma obra mais densa.
      São 25 anos de “Peguei um Ita no Norte…”, e o Salgueiro persiste em tentar repetir a fórmula.
      O que mais me irrita é pensar que nas vezes em que “saiu da caixa”, brindou-nos com belas obras, como “O Rio no cinema” e “Gaia”. Curiosamente também foram desfiles problemáticos…

      • Pedro Migão disse:

        Os 40 pontos de “Tambor” e “Sinhá” também não ajudam nisso…

        • Fellipe Barroso disse:

          Quando palavras se repetem no samba:
          – Vai, meu Salgueiro! Salgueiro!
          – O danado desse cheiro sô…Ô sinhá! Atiçou meu paladar…Ô sinhá!

          …o jurado entende melhor…é tipo fixar a matéria…
          /\ Estou tentando uma justificativa plausível…

          • Pedro Migão disse:

            É, pode ser…

            A sério, é o segundo ano seguido onde o Salgueiro perde o título neste quesito. Não irei me arvorar a dar conselhos, mas parece claro que algo precisa ser feito.

          • Luis Fernando disse:

            Pelo menos para mim, o problema é que tanto na safra de 2017 quanto esta, fui ouvir os sambas esperando um novo malandro batuqueiro, o que, logicamente, não aconteceu. Pode ser que essa inglória comparação esteja pesando nos componentes, compositores e até mesmo para os jurados…

          • Pedro Migão disse:

            Olhando de fora, não me parece ser somente isso. Seria até interessante se algum leitor mais por dentro do Salgueiro nos ajudasse a elucidar a questão

  7. Demétrius disse:

    Pedro e Fred,

    A LIESA tem alguma explicação razoável para manter as justificativas dos jurados sob sigilo durante 1 mês???

    Por que não divulgam imediatamente após o resultado???

  8. Júlia Moura disse:

    Assistindo alguns desfiles e até mesmo fazendo uma reflexão sobre o carnaval de 2018, pensei no bom momento para a Portela olhar para dentro de si e colocar um enredo sobre sua história ou um de seus bambas. Muitas Agremiações já foram falar sobre os grandes nomes da Portela e por que não a Portela resolver falar dos seus? Com propriedade e grande identidade que a própria comunidade teria. Clara Nunes é um enredo que nos renderia um grande desfile. Por que não?

  9. André Luis Ferreira mota disse:

    não querendo mudar de assunto transmissão da tv só piora cada ano aquela praga do estúdio no final e um saco perde grito de guerra das escolas começa mostrar as escola com 15 até 20 de desfile está complicado.

    • Pedro Migão disse:

      Não via o desfile ao vivo pela tv há dez anos e sim, piorou bastante. A transmissão do Grupo Especial foi muito aquém do que se deveria esperar

      • Nati disse:

        Essa transmissão é uma bela porcaria. Cortam tudo. Não passa mais os esquentas. Esse ano mal se viu as comissões de frente. Ja tava mais que na hora de passar os direitos para quem quiser mesmo passar

        • Pedro Migão disse:

          Eu não via o desfile pela TV desde 2008. Confesso que não gostei muito do que vi este ano, achei bem ruim a transmissão.

          Por outro lado, eu não tenho ilusão de que outra tv aberta faria melhor. Talvez uma segunda transmissão mais segmentada em canal fechado pudesse ser uma saída.

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