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Hoje é terça feira, dia de nossa coluna semanal. Iremos falar um pouquinho do Grupo Especial, porque o samba que lembraremos é para lá de especial: Unidos de Vila Isabel 1994.
Este samba é do tempo em que a escola do bairro de Noel ainda não havia “se modernizado”, como ocorreria na década seguinte. A azul e branco da Zona Norte oscilava pelas posições intermediárias, mas como de hábito apresentava grandes sambas de enredo; tradição que ostenta desde a década de sessenta e os imortais sambas de Martinho da Vila.
1994, a propósito, marca a primeira vitória de outro titã da escola: André Diniz. O jovem compositor, de quem tenho a honra de conhecer e ter certo grau de coleguismo, messiânico como eu, colecionaria vitórias a partir daí. Sempre com grandes sambas, não somente na Vila, mas sempre grandes composições.
O enredo contava a história do bairro de Vila Isabel, sede e nascedouro da escola. Disponibilizo a sinopse da escola, escrita pelo saudoso carnavalesco Oswaldo Jardim – falecido precocemente após uma batalha contra as drogas – que faz muita falta aos desfiles de hoje:
“Caros amigos, muito prazer, eu sou a Vila. Para que possamos nos conhecer melhor, hoje vou falar-lhes um pouco sobre mim mesma, contar-lhes um pouco sobre mim mesma, contar-lhes minhas histórias e meus segredos, apresentar a vocês meus admiradores e meus muitos filhos, que certamente entraram para a história imortal da Cidade do Rio de Janeiro.
Meus primeiros habitantes foram os índios Tamoios e Tupinambás que permaneceram em meus recantos até a fundação da cidade. Em seguida vieram os Jesuítas que difundiram em minhas terras grande plantação de cana-de-açúcar. Assim, durante muitos anos, fiquei a serviço da Coroa Portuguesa. Nessa época me chamavam de Fazenda dos Macacos.
De Bragança
Foi com este nome que fui parar nas mãos reais de D.Pedro I que logo me adotou como sua preferida. Era fazenda de que ele mais gostava. Por meus caminhos, sua majestade cavalgava sempre na intenção espairecer o espírito e recompor suas idéias. Um dia, D.Pedro se casou novamente. Grande festa aconteceu. Foram sete dias de feriado e entre os presentes de casamento oferecidos a Duquesa de Bragança lá estava eu. Seria agora uma espécie de residência da Família Real. Assim permaneci por mais alguns anos até que um dia mudei de dono.
E Drumond
Agora sou de João Batista Viana Drumond, o nosso conhecido Barão. E foi com ele que comecei a crescer realmente. E vejam só, chegaram a fundar uma Companhia Arquitetônica na cidade só pra me urbanizar. Ruas e avenidas no modelo francês, batizadas quase que em sua totalidade com nomes de abolicionistas famosos ou de moradores ilustres como: Joaquim Nabuco, Bezerra de Menezes, Manoel de Abreu, Teodoro da Silva e outros tantos. De quando em vez recebia a visita do Imperador D.Pedro II que guardava muito carinho e admiração. Comecei a Ter vida própria, ganhei um zoológico no antigo caminho do goiabal, o primeiro internato para menores carentes com ensino profissionalizante, o Colégio João Francisco Bragança, autor da melodia do Hino à Bandeira. Ganhei também um lugar para corrida de cavalos, o Prado de Vila Isabel. Fui ficando importante. Logo chegaram os bondes e com eles muitos admiradores. Minhas ruas se encheram de gente bonita e bem vestida.
Rosa
Era o início do século. Minha avenida principal era o Boulevard, nela misturando-se a elegância francesa e amabilidade carioca. Fui crescendo. Apareceram fábricas e com elas mais moradores. Uma delas, a fábrica Confiança de Tecidos, ficou imortalizada na canção do grande filho Noel Rosa, “Três Apitos”. Os três apitos acionados pelas mãos do Seu Luiz Alves, pernambucano como quase todos os operários da Confiança, que trouxe consigo um pouco da herança de sua terra. Através dele, por minhas ruas desfilou o mais importante Frevo da cidade “Os Lenhadores”. Muito bem ensaiados e com muita alegria, faziam nos dias de carnaval. A festa dos moradores do bairro. Mas não só de frevo vivia meu carnaval: meus blocos eram de balançar o coreto. Era difícil saber o melhor: “Cara de Vaca” ou “Faz Vergonha”.
Minhas batalhas de confetes nos bondes e nas ruas eram inenarráveis. Com carros próprios ou até mesmo alugados, os corsos eram esperados com ansiedade. Com suas capotas arriadas, os automóveis exibiam odaliscas, sultões, piratas e tantos outros personagens que desfilavam sob chuva de confetes e serpentinas. Fui caraterizada por minhas festas. As Juninas com pé-de-moleque pra quem quer que fosse. A Festa do Divino também atraía muita gente, promovida pelo “Seu Garganta”, dono de uma vacaria, que nessa ocasião distribuía carne para os mais carentes da comunidade.
Minhas tardes de Domingo eram românticas: ver a sorte no realejo, levar a namorada ao cinema pra assistir Tom Mix e depois tomar sorvete de pistache com soda, na confeitaria Vila Isabel.
Fui me tornando cada vez mais a predileta dos amantes, namorados e poetas. Quando a noite caía, o som dos violões invadia as minhas calçadas, vindo de várias partes, da Leiteria Vita, do Ponto-do-Cem-Reis e até mesmo das esquinas. Nessa época, os chamados “Tangarás” reinavam nas minhas madrugadas, iluminadas pela luz da lua e acompanhados de uma boa “cascatinha” gelada. Um verdadeiro bando de poetas e amantes da boêmia que entre outros cantavam com a presença de Almirante e João de Barro (Braguinha).
O gosto pelo samba foi tomando conta de mim. Cada vez mais, noites iam se enchendo de cadência e compasso. E lá do alto do Morro que ainda lembra meu nome, Morro do Macaco, em 1946 surgiu, das mãos de Seu China, a minha Escola de Samba Unidos de Vila Isabel, que sem dúvida nenhuma, hoje é o reduto dos meus maiores artistas e amigos. Sim, porque filho de artistas sempre foi o meu forte. Acho que não há no mundo que não conheça Noel Rosa. Quem não ouviu falar em Orestes Barbosa? Quem não conhece Paulo Brazão? Sem falar do nosso querido Martinho da Vila que com certeza é todos, mas é da Vila.
da Silva
Por minhas calçadas, as únicas calçadas musicais do mundo, hoje passam muitos tipos. Apressados, tranqüilos, do bairro e de fora dele. Mas uma coisa é certa: apesar do progresso, minha atmosfera não mudou. A grande família, como sempre fui chamada, continua unida, basta lembrar do nosso querido “Perna”, personagem vivo no coração de todos nós, que até bem pouco tempo promovia uma grande ceia de Natal chamada “quem tem põe, quem não tem tira”, onde os mais afortunados davam oportunidade aos mais carentes de também terem o Natal.
Pode Me Chamar de Vila
É certo que muita coisa em mim mudou, mais em aparência que em personalidade. Por isso me sinto segura em dizer que hoje ainda sou a Vila da Princesa, sou do Morro e da Nobreza e de mais quem quiser me amar.”
Embalada pelo belo samba, a escola fez um desfile bastante alegre, apesar de seu poderio financeiro inferior ao das grandes forças daqueles tempos. A azul e branca foi a sexta escola a passar pelo Sambódromo na noite do domingo de carnaval, 13 de fevereiro.
A Unidos de Vila Isabel obteria o nono lugar no carnaval daquele ano, com 289 pontos. Seu samba ficaria para a história, não somente pela sua beleza; mas também por marcar o início de uma era dominante nos sambas da escola, a do talentoso compositor André Diniz.
Um legítimo sucessor de Martinho da Vila.
Abaixo a letra do samba e um vídeo do desfile.

Enredo: “Muito prazer! Isabel de Bragança e Drumond Rosa da Silva, mas pode me chamar de Vila”

Compositores: Vilani Silva “Bombril”, Evandro Bocão e André Diniz

“Vou cantando…
Os meus encantos vou mostrar
Muito prazer, eu sou a musa, sou a fonte
Deixa meu feitiço te levar
Antes habitada pelos índios
E os jesuítas cultivaram a cana no meu chão
Era “Fazenda dos Macacos”
A preferida do Imperador desta nação
Também fui o dote de D.Pedro para duquesa
Com o progresso de Drumond
Ganhei cultura e requinte “à francesa”

“Peguei o bonde”, “passei” no Boulevard
E a “Confiança” é doce recordar
“Os três apitos” cantados por Noel
Ainda ecoam pela Vila Isabel

Blocos, corsos, “lenhadores”…
Alegria dos meus carnavais
Embalei, os namorados, na magia do amor formei casais
Em noites de festas, serestas, violões e “Os Tangarás”
Virei a predileta dos amantes e poetas
Gravados nas calçadas musicais
Desperta “Seu China”! Acorda “Noel”!
Pra ver a nossa escola desse branco azul do céu
E o “Zé Ferreira” (alô Martinho!) vem saudando a multidão
Pode ma chamar de Vila que orgulho é o meu “Brazão”!

Quem põe não tira
Nesta ceia popular
Sou do morro à nobreza
E de quem quiser amar”

Semana que vem, finalmente falaremos deste samba: Acadêmicos da Rocinha 1992.

3 Replies to “Samba de Terça – "Muito Prazer, eu sou a Vila"”

  1. Este samba acompanhou o desfile como 1 todo, pra mim o melhor de 1994, qdo eu ainda via os desfiles pela tv….

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