Com este texto, encerramos a temporada 2023 da Justificando o Injustificável. Como já se tornou tradição, comentamos com detalhes cada um dos 36 cadernos de julgamento do Grupo Especial. Espero que esta temporada tenha consolidado o novo momento da série que começou no ano passado. Neste ano, fico satisfeito por conseguirmos entregá-la por completo para o público, em vídeo e em texto, em menos de dois meses da divulgação dos cadernos de julgamento sem perder a qualidade das análises.

Após mais essa sucinta auto avaliação, faço uma pequena avaliação geral do julgamento e atualizo a lista de sugestões gerais para a LIESA visando a melhora do julgamento de forma global. Da mesma forma como iniciamos no ano passado, esta lista de sugestões finais será focada apenas em sugestões gerais para todos os quesitos, ou ao menos para a maior parte deles, já que as sugestões específicas de cada quesito foram passadas ao final de cada texto e cada vídeo.

Sobre a qualidade do julgamento como um todo, acredito que mais uma vez houve um bom nível de julgamento e não houve nenhum absurdo nas posições das escolas frente ao que vimos na avenida considerando a soma dos quesitos (e não o conjunto, afinal o julgamento é feito por quesitos). Mesmo em relação a polêmicas em justificativas específicas, este foi um ano bem tranquilo. Apenas duas justificativas podem ser consideradas “sem pé nem cabeça”, o mais interessante é que uma delas, em alegorias, ficou fora do alcance do radar das redes sociais. Outros questionamentos a justificativas até surgiram na famosa “bolha”, mas, como creio ter demonstrado na Justificando, elas são tecnicamente defensáveis.

Comparado a 2022, não consigo ter clareza se houve melhora ou piora, pois penso que se avançamos em alguns pontos, fiquei com a sensação de recuo em outros que pareciam consolidados. Dessa forma, o resultado geral ficou turvo, mas, repito, estamos fazendo comparações em um bom nível de julgamento e quando este é alto, sua melhora, mesmo que pequena, sempre envolve um esforço maior.

Apesar dos desafios da dificuldade de patrocínios que a LIESA sofreu neste Carnaval, a logística para os julgadores em si foi pouco foi afetada e, pelos relatos recebidos, não atrapalhou os trabalhos deste ano em comparação ao de 2022, tendo sido consolidados os ganhos com a nova logística implementada no ano passado. Porém, acredito que uma maior atenção aos acompanhantes deva ser dada pela LIESA. Para o julgador ético, cioso da sua necessidade de neutralidade, o papel do acompanhante é fundamental nessa “blindagem” do julgador e por isso acredito que o bem estar do acompanhante se refletirá em uma melhor qualidade e credibilidade do julgamento.

Ainda nessa parte, reitero a sugestão de se criar uma logística que permita aos julgadores a escrever o caderno de julgamento já no Centro de Convenções do hotel da hospedagem oficial, dando maior conforto e, principalmente, tempo para que o julgador cristalize na mente os últimos desfiles de segunda feira e tenha tempo de decantar e comparar de forma mais sensata todos os desfiles.

Fazendo um pequeno resumo quesito a quesito, lembrando que nessa parte tento fazer um apanhado geral do quesito mesmo que um ou outro julgador seja diferente, começamos com Alegorias e Adereços que voltou a punir fortemente escolas se comparada a outros quesitos e no qual houve bastante diferenças de visões sobre a arte apresentada por algumas escolas. Junto a isso, dois julgadores ficaram limitados a apenas fiscalizar erros e nessa fiscalização houve falhas. Visões diferentes dentro do júri é normal e saudável, mas para ser justo, todos os julgadores precisam estar na mesma “página” sobre o que julgar e nesse ponto reforço a necessidade de, em especial dois julgadores, se atentarem mais para o conceito, a volumetria, as formas da alegoria.

Depois veio Enredo, com mais um julgamento bastante coerente com o apresentado na avenida, mesmo que talvez menos duro do que deveria, com uma dosimetria de certa forma achatada que acabou punindo de forma mais leve do que deveria algumas escolas que deixaram falhas maiores neste quesito. 

Em seguida, Fantasias e Comissão de Frente tiveram dinâmicas assemelhadas, com julgamentos cortados pela metade: dois julgadores bastante corretos e criteriosos e outros dois julgadores que continuaram seus históricos e deixaram muito a desejar mais uma vez. Ao menos, Fantasias mostrou algum começo de melhora no julgamento de um dos julgadores após uma sequência de 3 julgamentos complicados de forma seguida no todo deste quesito. Mas ainda há muito o que se evoluir, pois o ponto de partida é bem baixo.

Chegando no meio da série, Mestre-Sala e Porta-Bandeira evidenciou a necessidade dos julgadores terem mais cuidado com o “tecniquês”, pois justificativas corretas e dentro dos quesitos foram bastante criticados pelo público justamente por não entenderem o real significado dos termos técnicos, mesmo que eles tenham mostrado de forma correta o que se passou na avenida. 

Já Harmonia reforçou a necessidade da criação de padrões para o julgamento deste quesito que tem particularidades únicas. A revisão do Manual em 2022 ajudou, mas ainda ficou incompleta. Além disso, acredito que uma “aviso geral” aos julgadores deste quesito para explicarem com mais detalhes suas justificativas seja necessário, pois várias justificativas em diferentes cadernos ficaram com explicações incompletas, como bem destrinchado por este capítulo da Justificando o Injustificável.

Evolução teve um julgamento desafiador neste ano e é natural que dentro deste cenário polêmicas apareçam. Ainda sim, de modo geral conseguiu-se um julgamento próximo ao que se viu na pista e condizente com o histórico deste quesito, apesar de um problema isolado em uma nota de um caderno, grave, de dosimetria que gerou uma comparação de notas que naturalmente foi alvo de muitas reclamações porque contrastava claramente com o ocorrido. Os problemas deste ano também abrem espaço para um discussão sobre a dosimetria deste quesito e como problemas específicos mas altamente graves devem ser despontuados. 

Para mim, Samba-Enredo “sentiu” as pancadas generalizadas recebidas no ano passado e entregou um julgamento que refletiu isso. O resultado foi uma enxurrada histórica de notas 10 e a completa falta de notas mais baixas para as escolas que deixaram a desejar no quesito. Este é um quesito que entrou na minha lista de lista de pontos de atenção, pois após ótimos julgamentos já são dois anos seguidos de regressão ao meu ver. É um quesito que talvez precise ter rediscutido seus rumos de julgamento.

Por fim, em Bateria cada vez mais estamos próximos do dia em que todas as escolas receberão 40. Esse ano, após os descartes, um mísero décimo na soma de todas as escolas foi descontado. Isso indica que uma revisão dos critérios de julgamento deste quesito se torna urgente para aumentar o desafio imposto às baterias. Por outro lado, as reclamações em relação ao som da Sapucaí continuaram e isso é uma barreira para que essa revisão dos critérios não acabe se tornando uma enorme injustiça na prática.

Como já se tornou tradição, a Justificando o Injustificável 2023 termina com uma lista de sugestões gerais para melhorar o julgamento dos quesitos como um todo nos próximos anos, lembrando que as recomendações específicas já foram dadas ao final das colunas de cada um dos quesitos.

  1. Criar uma logística que permita aos julgadores uma rápida saída do Sambódromo de volta ao hotel oficial para que nele, com calma e longe do confusão da Sapucaí, eles possam finalizar e lacrar seus cadernos de julgamento com calma. Nesse caso, é possível que a versão definitiva do caderno de julgamento só seja entregue ao julgador no próprio hotel durante a manhã de terça, assim que ele entrar no local designado para a escrita do caderno.
  2. Deixar expresso em algum lugar do Manual do Julgador que o julgador deve se ater somente ao seu campo visual/sonoro para fazer sua avaliação e justificativa. Apesar de ser algo costumeiro, não está expresso. Em Harmonia, especificamente, essa indefinição está gritante.
  3. Manter e aprofundar o diálogo criado esse ano entre julgados e julgadores em cada quesito. Esse ano os carnavalescos já foram incluídos no diálogo com os julgadores de Enredo, mas a situação com os compositores ainda é um desafio.
  4. Criar um calendário com reuniões posteriores com os julgadores para fornecer um feedback do trabalho por eles realizado e receber o mesmo feedback dos julgadores sobre as dificuldades que eles tiveram para realizar seu trabalho. Essa conversa também pode servir para entender melhor eventuais ocorrências inusitadas que poderão se tornar base para melhorias futuras do sistema de julgamento.
  5. Abolir os subquesitos no julgamento de todos os quesitos, porém mantendo a divisão nos critérios de julgamento. Isso permitirá ao julgador uma maior liberdade para implementar sua dosimetria entre os melhores e os piores, podendo juntar pequenos problemas dos diferentes subquesitos para tirar apenas um décimo, o que é teoricamente proibido na dinâmica atual. 
  6. Verificar a ausência de julgamento em qualquer dos nove quesitos da conexão artística entre alegorias e fantasias. Hoje, mesmo que elas sejam totalmente desconexas artisticamente entre si, não há nenhum quesito que puna isso.

Agradeço imensamente a todos que acompanharam a Justificando o Injustificável 2023 e, novamente, de forma especial aos julgadores que aceitaram a conversa proposta. Reforço que suas experiências gentilmente compartilhadas foram fundamentais para a qualidade desta série e também serão muito importantes para as futuras edições.

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