Antes de começarmos a coluna, uma explicação para o leitor. A confecção da série está bastante adiantada em relação aos anos anteriores e já há um bom estoque de colunas. Sendo assim, eu e o editor decidimos que a partir de hoje teremos três “Justificando o Injustificável” por semana: as segundas, quartas e sextas-feira.

Continuando nossa série, hoje é dia do quesito Evolução, um quesito no qual a quantidade de problemas vista esse ano foi anormal – especialmente na parte inicial do desfile, e literalmente decidiu o título.

Aliás, interessante notar que Evolução e Harmonia foram os quesitos com o menor número de escolas que conseguiram 30 pontos, algo bem diferente do histórico das apurações. Apenas 3 escolas em cada um dos quesitos conseguiu 30 pontos.

Módulo 1

Julgador: Gerson Oliver

  • Estácio de Sá – 9,7
  • Viradouro – 9,9
  • Mangueira – 9,9
  • Tuiuti – 9,8
  • Grande Rio – 9,9
  • União da Ilha – 9,8
  • Portela – 10
  • São Clemente – 10
  • Vila Isabel – 9,9
  • Salgueiro – 9,9
  • Unidos da Tijuca – 10
  • Mocidade – 10
  • Beija-Flor  – 10

Apesar da mudança de nome (e até do tipo de letra da grafia do próprio nome), trata-se do mesmo Gerson Martins que até o ano passado era julgador de fantasia, como a própria LIESA divulgou. Porém aqui respeito a forma como o próprio julgador se autonomeia no Caderno.

Eu reclamei ano passado dele em fantasia porque quase não puniu concepção e virou “fiscal de erro”. Devo dizer que como fiscal de erro, ele caiu no quesito certo no ano certo. Eu poderia dizer que ele fora um excelente julgador, até bastante meticuloso, com justificativas trazendo cada detalhe de forma clara, não fosse o completo descompasso entre a justificativa da Grande Rio e o que se viu na avenida.

Ele tirou o décimo da Grande Rio por causa do clarão gigante entre a 1ª ala e o abre-alas, o já famoso buraco por causa do pretenso problema com o destaque na armação. Porém ele acabou terminando com uma frase que beira o absurdo: “Após a devida correção, a escola evoluiu de forma coesa”. Todos sabem que naquele trecho entre o inicio do desfile (que é perfeitamente visível ao julgador do módulo 1) e o módulo 1 a evolução da Grande Rio foi catastrófica, com uns 3 ou 4 clarões consideráveis e uma barbeiragem inacreditável na saída da bateria do 1º recuo (acima, o vídeo do blog mostrando).

Era uma evolução para 9,8 com certa tranquilidade e até um 9,7 não seria pesado se usarmos os  próprios motivos do julgador para o 9,8 do Tuiuti. Estamos falando da possível pior evolução de ponta a ponta de desfile desde o fatídico Salgueiro 2011. O editor do blog, que assistiu a este desfile no Setor 3, avalia que um 9.5 era justo, porque houve uns cinco buracos bastante perceptíveis (todas as fotos desta coluna são dos buracos neste 1º Módulo duplo).

Em relação a Vila Isabel, ele alegou um buraco aos 8 minutos entre a Comissão de Frente e o casal. É algo estranho, pois com essa minutagem é mais ou menos o tempo da troca entre o fim da apresentação da Comissão de Frente e a início da apresentação do casal para o módulo. Mas devo dar a presunção de veracidade ao julgador, especialmente porque o outro julgador do módulo duplo também escreveu uma justificativa compatível com o ocorrido.

Aliás, ele usou da exata mesma justificativa para descontar o Salgueiro, mas ao menos aqui ele deu uma pista do ocorrido: a Comissão de Frente “passou do ponto” na hora de parar para se apresentar e isso causou o buraco.

Módulo 2

Julgador: Gustavo Paso

  • Estácio de Sá – 9,7
  • Viradouro – 10
  • Mangueira – 9,9
  • Tuiuti – 9,7
  • Grande Rio – 9,9
  • União da Ilha – 9,9
  • Portela – 10
  • São Clemente – 10
  • Vila Isabel – 9,9
  • Salgueiro – 9,9
  • Unidos da Tijuca – 10
  • Mocidade – 10
  • Beija-Flor  – 10

Aqui também temos outro julgador deslocado de quesito. Ele era um bom julgador de Comissão de Frente até o ano passado. Inclusive foi ele quem reclamou que teve a visão atrapalhada por uma estrutura de filmagem na justificativa da Mocidade. Por coincidência, ele caiu no mesmo módulo esse ano, mas não escreveu qualquer reclamação, o que nos faz crer que esse problema a LIESA resolveu.

O que tivemos esse ano foi exatamente o descrito acima: um julgador de comissão de frente julgando evolução. A fixação dele em julgar o desempenho das alas coreografadas ou performáticas foi nítido, especialmente porque ele tirou décimos de Estácio e Tuiuti por problemas em coreografia, além de também ter escrito sobre isso na Ilha.

Em tese, isso também parte do quesito, que se relaciona a toda a parte de dança da escola, mas é absolutamente incomum qualquer julgador ter atenção tão redobrada nas alas coreografadas. Tanto é que ele foi o único dos cinco a escrever sobre alas coreografadas. Caso as escolas comecem a perder ponto por isso, o natural será abolição das alas de passo marcado em um futuro próximo, já que ninguém é obrigado a apresentá-las. Acredito que essa não seja a intenção do julgador e por isso tal visão deve ser repensada.

Em relação a Grande Rio ele também só tirou o décimo do buraco do abre-alas. Logo, repito aqui a exata mesma crítica feita ao julgador acima, já que eles estavam no mesmíssimo ponto da avenida.

Já em relação ao Salgueiro, ele escreveu o mesmo problema relatado pelo julgador anterior, enquanto na Vila ele não relatou o tal buraco, mas uma correria desenfreada da escola logo após a apresentação do casal. Provavelmente os dois fatos estão interligados (a correria pode ter sido para tapar o buraco).

Dessa forma, é possível verificar o que julgador também observou problemas em relação a buracos e fluidez do desfile, mas o foco dele nas alas de passo marcado me chamou a atenção, especialmente porque ele relatou consideravelmente menos problemas de fluidez do que seu vizinho de cabine.

Por fim, a atenção dele em coreografia foi tão intensa que ele dedicou suas observações finais pata alertar as escolas para que os conceitos de alas coreografadas, teatralizadas e performáticas deve ser aprofundado, pois parecem confusos e desgastados. Ele finalizou grifando, literalmente, que a observação vale para todas as escolas de domingo e segunda.

Módulo 3

Julgador: Verônica Torres

  • Estácio de Sá – 9,8
  • Viradouro – 10
  • Mangueira – 10
  • Tuiuti – 9,9
  • Grande Rio – 9,9
  • União da Ilha – 9,8
  • Portela – 10
  • São Clemente – 9,9
  • Vila Isabel – 10
  • Salgueiro – 9,9
  • Unidos da Tijuca – 9,9
  • Mocidade – 10
  • Beija-Flor  – 10

Um caderno sem maiores problemas. Justificativas dentro do quesito, fazendo entender as notas dadas. Apenas a nota da Ilha tranquilamente poderia ter sido 1 ou 2 décimos menor pela enorme quantidade de problemas relatados após a quebra do carro em frente ao módulo. Fica até difícil defender que a Ilha tenha recebido a mesma nota da Estácio com a quantidade de problemas relatados.

Uma possibilidade é que a julgadora tenha levado em consideração a manutenção da vibração e empolgação da Ilha, o que não ocorreu na Estácio pelas palavras da própria.

Como curiosidade, parece que esta julgadora atrai embolação de alas em frente ao módulo dela. Ano passado ela relatara uma verdadeira epidemia de embolações de alas. Esse ano ela também relatou diversas embolações na Estácio, no Tuiuti e São Clemente.

Módulo 4

Julgador: Lucila de Beaurepaire

  • Estácio de Sá – 9,9
  • Viradouro – 10
  • Mangueira – 10
  • Tuiuti – 9,8
  • Grande Rio – 9,9
  • União da Ilha – 9,7
  • Portela – 10
  • São Clemente – 10
  • Vila Isabel – 10
  • Salgueiro – 9,9
  • Unidos da Tijuca – 9,9
  • Mocidade – 10
  • Beija-Flor  – 9,9

Mais um bom caderno com justificativas claras, pertinentes ao quesito e boa dosimetria . Esse foi o primeiro ano dela sendo convocada de forma regular para o juri, já que ano passado ela entrou de última hora, já na semana de carnaval, em substituição a julgadora anteriormente escalada que precisou sair por motivos pessoais. Com a preparação correta e o curso, que ela não pode frequentar ano passado, o caderno dela melhorou consideravelmente.

Ela puniu as 3 escolas que claramente correram no fim do desfile: Tuiuti, Ilha e Beija-Flor, que fizeram verdadeiras corridas rumo a linha de chegada neste ano.

A única coisa que me chamou a atenção foi, tal qual o ano passado, a quantidade de descontos por excesso de compactação. Esse ano foram Estácio, Salgueiro e Tijuca. Normalmente excesso de compactação ocorre no início e no meio da pista. No fim, normalmente os componentes ficam mais soltos até de forma natural.

Módulo 5

Julgador: Mateus Dutra

  • Estácio de Sá – 9,9
  • Viradouro – 10
  • Mangueira – 10
  • Tuiuti – 9,9
  • Grande Rio – 9,9
  • União da Ilha – 9,8
  • Portela – 10
  • São Clemente – 9,9
  • Vila Isabel – 10
  • Salgueiro – 10
  • Unidos da Tijuca – 10
  • Mocidade – 10
  • Beija-Flor  – 9,9

Mateus Dutra é julgador estreante no juri e fez um bom trabalho. Justificativas claras e detalhadas e boa dosimetria. Também despontuou as 3 escolas “Usain Bolt” do ano como já escrito acima.

Porém aqui quero ressaltar uma ligeira incongruência considerando o módulo duplo: ele escreveu sobre uma correria das alas iniciais da São Clemente que, juntamente a problemas na dispersão, criaram vários efeitos sanfona. Já do meio para o final, a escola teve várias paradas demoradas.

Percebam que foram descritos problemas de evolução mais graves enquanto a outra julgadora do módulo duplo deu nota 10. O julgamento é subjetivo e pequenos problemas que para uns deve ser despontuado, para outros não. Mas, ao menos pelo descrito por este julgador, em relação a São Clemente estamos no limite do limite da subjetividade.

Em relação às outras duas notas mais destoantes, Salgueiro e Tijuca, justamente pelo motivo do módulo 4 ter sido excesso de compactação, ambas as notas são perfeitamente entendíveis.

Fechando o quesito, repito uma sugestão que fiz ano passado. O quesito evolução é o único quesito que não utiliza nenhuma técnica além da própria experiência de carnaval para julgar: qualquer um que acompanha de perto essa festa é capaz de julgar.

Sendo assim, não seria melhor todos nós nos despirmos de preconceitos e confiarmos na lisura e no amor à festa de pessoas altamente experientes no carnaval para julgar evolução, mesmo que elas tenham alguma ligação fraca com alguma escolas do Grupo Especial?

Por que não convocar um Leonardo Bruno, um Luis Antônio Simas ou um Felipe Ferreira para julgar evolução? Concordam que as chances de sair um bom julgamento dessas pessoas é maior do que qualquer uma que já foi chamada para esse quesito?

Então termino o quesito Evolução lançando esse triplo desafio: primeiro aos próprios sambistas, que precisarão se despir de preconceitos para aceitar a nomeação de um julgador com tal ligação, depois à LIESA para ter coragem e convidar esses “intelectuais” do carnaval para compor o corpo de julgadores (escrevi sobre evolução, mas um Simas ou um Alberto Mussa podem perfeitamente serem chamados para samba-enredo, por exemplo) e por fim aos próprios “intelectuais” para abraçarem o desafio e aceitarem o convite caso ele venha.

Apesar dessa sugestão, até que tivemos um julgamento bem honesto de evolução esse ano, talvez o melhor da breve história desta coluna. Só senti falta de um maior desconto para a Grande Rio na parte inicial do desfile.

Imagens/Vídeo: Ouro de Tolo

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