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Amigos, conforme prometido, aqui vai a segunda parte do post sobre o desfile da Estácio de Sá em 1993. Para relembrar o enredo “A Dança da Lua” e seu desenvolvimento, comecei a abordá-lo num primeiro post. Vamos à sequência, com o desfile em si.

O Desfile

É de conhecimento geral entre os sambistas que “Dança da Lua” foi um desfile bem problemático. Os críticos o acusavam de ter uma leitura difícil, o que era, e continua sendo, refutado por Spinoza, que afirma privilegiar a sua proposta de narrativa artística.

Ao começo do desfile, um incômodo partido do Setor 1, que, descontente com o fato de Dominguinhos haver escolhido fazer o esquenta com o jingle do carnaval Globeleza, vaiou a cabeça da escola impiedosamente.

Quando o samba começou a ser entoado, houve um problema no carro de som, e o entrevero arrastou-se por longos minutos. O desfile começou com quase 10 minutos de atraso.

Tempo de atraso do desfile da Estácio

Entre outros motivos, o samba, que era um dos mais aclamados no período pré-carnavalesco, e tido pelo carnavalesco como por este autor como um dos melhores sambas da década – O samba foi importantíssimo até mesmo para o meu desenvolvimento do desfile (…) É de uma poesia maravilhosa. – Acabou tendo um desempenho irregular na avenida.

Além de tudo, Chico teve um atrito com Acyr Pereira Alves – o presidente da escola na ocasião – por havê-lo flagrado “pagando uma dívida” e discutindo com Dominguinhos. Aliás, ele e Dominguinhos já não vinham de uma relação amistosa. O samba campeão – e que era o favorito de Spinoza – quase foi ofuscado pelo de Dominguinhos. Spinoza foi contundente: “Se a gente deixar o Dominguinhos crescer eu não consigo tirar ele na final”. Por fim, o samba escrito pelo intérprete foi um dos primeiros a cair. Além destes problemas, houve uma queda de luz na Sapucaí durante o desfile, além de uma acusação de “Compras e vendas” envolvendo o patrono de outra escola de samba. O entrevero foi tão intenso, que há a suspeita de que o 6ºlugar estaciano foi arranjado.

Percebendo que “a lua Negra chegou” pelas bandas do São Carlos, o presidente da União da Ilha, Peixinho, convidou Spinoza para ir fazer o carnaval da escola da Cacuia ainda durante o terço final do desfile da Estácio. Quando o belo carro com o Dragão Lunar de alumínio passava pela Passarela dos Desfiles, Chico Spinoza já era o carnavalesco da agremiação insulana.

Doce Rebelde

Embora apalavrado de que iria fazer a União da Ilha, no dia em que se apresentaria à escola, Chico se deu conta de haver presente lá uma veterana carnavalesca, que inclusive estava vestida em tricolor, dizendo-se ser o novo nome da escola. Por fim, o ex-estaciano foi efetivamente apresentado à comunidade e lá desenvolveu o projeto que era o pré-requisito para a mudança de agremiação: Abrakadabra, o Despertar dos Mágicos. O desfile valeu à escola a melhor colocação desde 1989, o 4º Lugar.

Para Chico, a feitura do desfile é muito mais importante que a colocação, ou a aclamação acadêmica – “O que importa é o que a gente faz”, diz ele. O professor, que alia uma fala doce e uma posição artística contestadora e rebelde, não se curva aos acadêmicos do carnaval, nem aos formatos estabelecidos de divisão narrativa. Em nenhum dos seus desfiles os carros alegóricos abrem ou fecham setor.

Há uma recorrência na obra de chico, presente na maioria dos seus desfiles, que é o fato de os carros não abrirem ou fecharem setor. Chico rompe com esse “código”. Num dos seus desfiles, inclusive, houve um setor inteiro marcado apenas por alas. Não há uma alegoria sequer. Ele diz “Carnaval é um conjunto. São as leituras que te levam de um setor a outro. (O desfile é como se fosse) Uma parada militar que te leva a uma conclusão. Não é palco italiano onde a abertura e/ou fechamento de cortina e indica o fim de um ato. É um conjunto. Não sei o que estabelece que alegoria abre ou fecha setor. Elas são uma composição”.

Após circular por mais algumas agremiações cariocas, Chico voltou para São Paulo, sua terra-mãe. No carnaval do Rio deixou sua marca: Um título para a Estácio, além de alguns retornos à agremiação que, à fala, sempre faz brilhar os olhos do menino

de Tabapuã. Esteve na agremiação do São Carlos novamente em 2016 e em 2017. Neste último ano, lançou mão do fato de ter subida livre no morro e ofereceu o olhar daquela favela a um de seus filhos mais ilustres: Gonzaguinha. No ano que esteve na Mocidade e abordou o transplante de órgãos, colocou mergulhadores em uma das alegorias e isso valeu a ele uma menção honrosa internacional. Neste ano, o Vai-Vai o chamou e ele retornou, de corpo e álamo.

Os olhares artísticos de Chico são sempre muito particulares, típicos de sua generosa personalidade. Desde sempre ele soube que “É a comunidade que nos ajuda” e que, mesmo efêmera, a arte tem uma missão: “Não somos ad-eternum. A nossa arte nunca é passageira. Em cada lado que ela passa, ela não só se transforma como te acrescenta. A arte é uma diáspora na vida da gente. Ela passa ali, recolhe o que precisa, se retransforma num outro lugar. O artista vive e acredita uma diáspora. Então, rapaz, se você tiver a intenção de fazer, faça. É isso que vale a pena.”

É isso, professor.

Agradecimento: Chico Spinoza

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PS: Neste espaço gostaria de pedir desculpas pela longa ausência – quase dois meses do último texto para este. Mas aproveito o espaço para destacar a minha recente indicação ao Prêmio Cesgranrio de Literatura, num romance inspirado em dois enredos de Milton Cunha. Ver o preto africano, o pobre, o favelado e o carnaval indicados a um prêmio narrado a partir de uma história de atitude contada por um filho de Xangô homem branco feiticeiro é a glória do encontro entre o erudito e o popular. É o xirê!

3 Replies to “Um estudo sobre “A Dança da Lua” – Estácio 1993, parte II”

  1. Fora os problemas já citados, o samba tem uma das melhores gravação de todos os tempos de um samba de enredo. O desfile tem uma aura mágica, prejudicada pela energia do conturbado inicio. E Chiquinho é um artista ímpar; como independente, digo que ele foi quem melhor compreendeu a Mocidade após a saída do Lage

  2. só uma palavra define “a dança da lua” pra mim: transcendental. a letra é densíssima e a gravação é uma das melhores de todos os tempos – tudo funciona, do canto raçudo do dominguinhos ao maravilhoso coro na segunda passada. merece uma tese!

    curioso pensar que o título acendeu uma guerra de egos e problemas de relacionamento logo no pior momento pra isso. uma pena que a escola, daí em diante, caminhou ladeira abaixo. gosto pra caramba da estácio e torço pra ela ficar no lugar que lhe pertence, a elite do samba.

    1. Sim! A Dança da Lua é um grande enredo e um grande samba pelo qual os estacianos têm grande carinho. Esse desfile é um dos meus favoritos.

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