Em um ano (como o atual e o vindouro) onde o número de escolas de samba ultrapassa o de doze agremiações, há sempre muita discussão entre os sambistas. Haja vista que algumas escolas desfilarão pela manhã, ou ainda, ao amanhecer.

Os mais saudosistas, nostálgicos do tempo em que trocentas escolas passavam pela Sapucaí no domingo e na segunda, possuem preferência pela manutenção do cortejo sob sol. Outros, por defenderem o número de 14 agremiações no Grupo Especial, também gostam dos desfiles pela manhã.

Ao passo que os detratores desta ideia alegam – não sem alguma razão – de que as escolas que desfilam ao amanhecer não disputam em igualdade de condições com as que fazem o seu cortejo à noite.

Sem dúvida, são desfiles diferentes. Não abordaremos aqui defesas de um lado ou de outro, e não é a minha intenção discutir o sexo dos anjos. Também, não intenciona este texto fazer a linha “receita de bolo” e apontar o que é certo e errado numa ou noutra condição.

Visa, porém, verter o olhar e pesar alguns elementos que devem ser considerados pelo carnavalesco e por sua equipe, ao conceituar plasticamente o desfile, quando, sabidamente, sua escola terá de pôr a cara no Sol.

Antes de entrarmos efetivamente em algumas questões técnicas, é importante lembrar que a maior parte das as escolas de samba lança mão de sistemas de iluminação em suas alegorias, conferindo um brilho a mais ou conferindo, através das luzes um conceito estético específico – tal como acontece nos espetáculos teatrais.

Todavia, além desta iluminação, há a luz padrão da Sapucaí, excessivamente branca e fortíssima – o que pode promover um efeito chapado nas alegorias e fantasias. Esse efeito pode mudar a percepção da cor proposta pelo carnavalesco, daí a importância da iluminação artística, elemento que auxilia a compor a experiência visual tanto do espectador como do brincante.

Além destas luzes, todas artificiais, as escolas que desfilam pela manhã sofrem com os efeitos da iluminação natural, o que pode modificar toda a leitura artística das alegorias. Alguns desfiles planejados para a noite, como o da Mocidade em 1996, acabaram acontecendo pela manhã devido a um atraso de três horas oriundo de problemas na Avenida.

A iluminação especial dos carros acabou “desaparecendo” sob a luz do dia. Os efeitos desejados pelo carnavalesco de então, Renato Lage, acabaram sendo exibidos apenas no Desfile das Campeãs, quando a escola de Padre Miguel desfilou sob o luar. (Migão/Fred abordam esse evento na Série Sambódromo em 30 Atos)

Ou seja, cabe ao profissional plástico, junto ao iluminador, pensar de antemão quais são as melhores saídas para iluminar artisticamente as alegorias quando o desfile acontecerá de dia. Pois alguns efeitos de iluminação esmaecem de manhã e não têm o mesmo efeito quando feitos à noite.

Néon e led, por exemplo, por serem de iluminação fria, adequam-se satisfatoriamente para apresentações matutinas, embora sejam potencialmente melhores em noturnas.

Além das luzes, outro elemento que faz diferença é a escolha da paleta de cores. Tons terrosos ou opacos não são uma boa escolha para desfiles realizados pela manhã – esta, por exemplo, foi uma das ressalvas feitas pela crítica especializada à Unidos da Tijuca no desfile de 2019.

Aliás, a própria Tijuca para fazer ressaltar o laranja nas alegorias combinou-o com tons pastéis, o que fazia a cor explodir em destaque. Pasteis, sozinhos, funcionam melhor em desfiles à noite, pois esmaecem à luz natural. 

A escolha de cores quentes e/ou cítricas também pode contar a favor da escola que vai desfilar pela manhã. Outro reforço tanto para alegorias como para fantasias é a opção por metalizados, já que o recurso da iluminação artística não é tão forte à luz natural.

A incidência do sol sobre alegorias e fantasias cujas cores – mesmo variadas – tendem ao metalizado pode render uma experiência interessante. Contanto, é necessário que o profissional tenha o bom senso na dosagem desse efeito para que não se torne um espetáculo cansativo.

Quanto ao uso das cores branca e preta, há sempre um risco: nos desfiles noturnos, onde contamos apenas com a iluminação da avenida, o preto pode parecer roxo e o branco pode ficar apagado. Ao passo que em desfiles diurnos, o tom alabastrino pode imprimir lirismo e poesia.

Aliás, deve haver, também, nas escolas que desfilam ao amanhecer, a necessidade de um maior rigor ao acabamento, pois que a luz natural torna mais latente as possíveis falhas de esmero.

No tocante aos brilhos, enquanto escrevia este artigo, lembrei de dois desfiles, ambos acontecidos de manhã, onde os carnavalescos lançaram mão de um bonito efeito com aparência holográfica, através do uso de lantejoulas afixadas individualmente, que, sob a luz natural, conferiram composição de grande beleza.

No Carro Abre-Alas da Caprichosos de Pilares em 1985 a palavra “Saudade” foi escrita lançando mão desta técnica, das lantejoulas, e na primeira alegoria da Mocidade em 1987, havia um bonito painel onde era possível ler “Casas da Onça”. Fernando Pinto lançou mão da mesma técnica e do mesmo material.

Creio que, por conta de haver uma recorrência entre os carnavalescos em usar, nos enredos de temática africana e indígena, os tons terrosos a ráfia crua e outros materiais mais opacos, um grande desafio em como reconceituar os desfiles diurnos que abordam estes temas.

Importante lembrar que em algumas escolas, como a Acadêmicos da Rocinha, o desfile aconteceu parcialmente sob a luz… da tarde. No ano em que esta agremiação debutou no Grupo Especial, 1997, eram 16 escolas a passar pela Passarela Professor Darcy Ribeiro, e parte do desfile da escola de São Conrado aconteceu ao entardecer. Outra a pegar uma iluminação híbrida foi a Viradouro, em 2009, cujo desfile iniciou à noite e terminou enquanto amanhecia.

Dentre as minhas apostas, diria que o desfile da Estácio de Sá para 2019 teria o mesmo sucesso caso houvesse acontecido sob dia claro. E, pelas bandas de Madureira, já que a Portela possivelmente será a única a desfilar sob o sol da manhã em 2020, creio que o Casal Lage apostará em variações de azul. Afinal, sabem os professores do apego que o portelense tem à cor de seu pavilhão.

Espero que você, leitor amigo, tenha gostado do artigo de estreia desta coluna. Nos veremos em breve.                           

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Agradecimento: Wagner Gonçalves

Dedico o presente texto à memória de D. Ruth de Souza, enredo da Acadêmicos de Santa Cruz no último carnaval e que teve a vida revisitada belamente pelo Professor Cahê Rodrigues na Avenida Marquês de Sapucaí neste ano, 2019. Hoje, ela é a Estrela que brilha por nós.

{N.do.E. o ator, artista plástico e carnavalesco Vitor Antunes assinará uma coluna quinzenal neste espaço, abordando aspectos plásticos dos desfiles.PM]

Imagens: Ouro de Tolo

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