Apuração dos dois principais grupos concluída, resultados divulgados, hora de um olhar sobre os mesmos e as perspectivas de futuro.

No Grupo Especial, observamos um resultado bastante fiel ao que foram os desfiles, apesar de algumas notas bastante aleatórias. O título da Mangueira com 270 pontos foi justo, com apenas três notas diferentes da máxima – nos quesitos que apontei aqui em texto na terça feira.

Depois, vinha um bloco de seis escolas que se equivaliam em qualidades e defeitos. No fim, pesou o poder financeiro de Viradouro e Vila Isabel (ambas com o mesmo patrono, além de subvenção da Prefeitura de Niterói para a primeira e patrocínio de uma cervejaria à segunda) primeiramente e, depois, a regularidade ao longo dos anos de Portela e Salgueiro. Não chega a ser uma surpresa estas agremiações ocupando da segunda à quinta posições.

Sobrou uma vaga para ser disputada entre Mocidade e Tijuca. O júri entendeu melhor a proposta da escola da Vila Vintém, apesar de alguns descontos a meu ver exagerados para a Unidos da Tijuca. Nesse bloco, qualquer ordem seria justificável.

Depois, tivemos o Paraíso do Tuiuti isolado no oitavo lugar, em uma apresentação na qual os problemas de Evolução e na última alegoria acabaram impedindo uma colocação melhor.

Então, mais um bloco com Grande Rio, Ilha, Beija Flor e São Clemente. Aqui temos talvez a grande injustiça do resultado: a São Clemente deveria ter liderado este grupo, com a Grande Rio fechando. A escola de Caxias teve algumas notas altas demais em quesitos como Alegorias, por exemplo.

Finalizando, as duas rebaixadas. Eu confesso que não esperava o rebaixamento da Imperatriz Leopoldinense, devido ao peso que a escola e seu presidente têm na organização do carnaval. Mas caiu, e com justiça. Quanto ao Império Serrano, foi um resultado esperado para um ano em que todos os equívocos possíveis e imagináveis foram cometidos.

Veremos como estas escolas irão reagir à queda. Ambas precisam de mudanças em seus modelos de gestão, embora a meu ver o Império Serrano precise de uma alteração mais profunda em seus métodos. Resta saber também como as duas irão solucionar suas questões de barracão após deixarem a Cidade do Samba.

Agora, as notas, embora tenham desembocado em um resultado final bem O.K., têm algumas inconsistências. No quesito Bateria, nada menos do que dez escolas levaram 30 pontos – enquanto isso, a bateria da Portela, reputada como uma das melhores da cidade, foi considerada a segunda pior. Mas a mesma Portela, despontuada demais em Bateria e Comissão de Frente, teve notas generosas em Alegorias e, em minha avaliação, Fantasias.

A Vila Isabel estourou o tempo e teve 30 pontos em Evolução. Por outro lado, a São Clemente foi penalizada de forma exagerada em quesitos como Harmonia, bem como a Tijuca em Samba-Enredo. São apenas alguns exemplos.

Apesar dos descontos excessivos para a Tijuca, há que se elogiar o bom julgamento do quesito Samba-Enredo, com apenas quatro escolas levando os 30 pontos válidos e os 40 totais: Mangueira, Portela, Salgueiro e Tuiuti. Eram os melhores sambas do ano e assim foram julgados.

Então passamos à Série A. E aí a porca torce o rabo.

A Estácio de Sá poderia ter sido a campeã? Poderia. Foi apontada como tal por diversos especialistas, embora eu, particularmente, como disse neste vídeo achei a Cubango bem superior. O.K..

Mas o resultado final na parte de cima da tabela tem diversos problemas:

  • 35 notas 10 em 36 para a Estácio de Sá num desfile que esteve longe dessa perfeição toda – onde eu estava, no primeiro módulo, ao menos Evolução (que foi punida), Bateria, Samba Enredo e Alegorias deveriam ter sido penalizados;
  • Meio ponto de diferença para a Acadêmicos do Cubango, que segundo todas as prévias disputaria décimo a décimo com a vencedora;
  • Inacreditáveis 1,8 e 1,9 ponto de diferença para, respectivamente, Unidos do Porto da Pedra e Império da Tijuca, que fizeram desfiles próximos aos de Estácio e Cubango, embora inferiores.

Como escrevi ontem no Twitter, a pontuação indicaria que a Estácio de Sá trucidou, passou o carro, foi incontestável, um grupo à parte. Quem viu o desfile sabe que esteve bem longe disso.

Não entendi nada…

Mas tem mais. Pode-se até discutir o fato de a Unidos de Padre Miguel ter ficado atrás da Renascer de Jacarepaguá, mas as duas terem ficado atrás da Acadêmicos de Santa Cruz foi uma piada de mau gosto. Um exemplo: a agremiação da Zona Oeste passou com diversas alas descalças devido à chuva (acima). Pontuação no quesito Fantasia: 29,9.

A Unidos de Padre Miguel, embora tenha tido problemas em seu desfile, mais uma vez teve uma visível mão pesada do júri sobre si. As alegorias da escola, por exemplo, foram consideradas as segundas piores do grupo – e, ainda que com problemas devido ao temporal, foram mais despontuadas que outras escolas do dia.

Então chegamos ao rebaixamento. A Acadêmicos da Rocinha, que desfilou com um diminuto contingente devido aos problemas de acesso à Sapucaí (estimo algo em torno de 1.100 a 1200 componentes), que teve uma abordagem muito complicada de enredo e que simplesmente não teve o quesito Harmonia, acabou sendo mantida em detrimento da Alegria da Zona Sul – que passou muito superior nos quesitos de pista.

O enredo da Rocinha teve um negócio que me incomodou bastante – e a outras pessoas: em um enredo que abordava o preconceito contra o negro, nos carros alegóricos só tinha branco (acima, um dos carros), deixando os negros confinados a alas – com menor visibilidade. Só isso bastaria para a escola ser penalizada fortemente em Enredo.

Mas, ao fim, sobrou para a Alegria da Zona Sul. E a Acadêmicos do Sossego ainda ficaria atrás da Rocinha.

Ressalte-se também que Unidos do Porto da Pedra e Império da Tijuca foram penalizadas pelas escolhas equivocadas de samba-enredo que fizeram. Uma das poucas justiças das notas.

Finalizando, uma nota sobre a Portela. A escola tem como norma a austeridade financeira, de não gastar mais do que arrecada e não fazer dívidas. Em um ano em que o descasamento do fluxo de caixa entre receitas e despesas foi imenso, este foi um fator que pesou na preparação da escola. Ainda assim, o quarto lugar acaba sendo um bom resultado dadas as circunstâncias.

Penso que alguns ajustes necessitam ser feitos e falarei isso internamente, mas deve-se ressaltar a constância da escola desde que a atual diretoria (da qual faço parte) assumiu a escola. É um bom exemplo de gestão, especialmente administrativa e financeira.

Imagens: Ouro de Tolo

23 Replies to “Os Resultados do Carnaval Carioca”

  1. Concordo com grande parte de sua análise sobre as notas do Grupo Especial Pedro, principalmente em relação a injustiça feita com a São Clemente. Mas colocaria a Tijuca nas Campeãs no lugar da Mocidade, e achei a Ilha injustiçada também, para mim foi superior a Tuiuti, Grande Rio e Beija-Flor, apesar do samba fraco, “salvo” em mais uma atuação excepcional do Ito Melodia. Sinceramente, não esperava que a apuração fosse refletir em grande parte o que aconteceu na pista, então estou bem feliz, principalmente com o título de minha querida verde e rosa.

    Assim como a Grande Rio, só acredito na Imperatriz desfilando no Acesso na hora que o Abre-Alas fizer a curva para entrar no Sambódromo, o locutor anunciar e o cronômetro zerar. Uma pena, a verde e branco tem vários serviços prestados ao carnaval carioca, merece voltar ao Especial na pista, com toda a grandeza e elegância que sempre marcou essa tradicional escola.

    Mais uma vez, Alfredo Del Penho mostrou que jamais pode ficar de fora do júri. Excelente trabalho.

    Considero o título da Estácio justo, mas, pra variar, pesaram a mão na Cubango. Também acho que a rebaixada deveria ser a Acadêmicos da Rocinha. Castigo injusto para a Alegria, a escola que, junto com a Santa Cruz, mais sofreu para preparar seu desfile no Pré-Carnaval, e ainda encarou o temporal de Sexta-Feira rasgando o chão da avenida. Aliás, o temporal foi decisivo para a salvação e até boa colocação da Unidos de Bangu, que, mesmo com um desfile fraco, não teve que encarar a chuva.

    Caso se confirmem os rebaixamentos, apesar de duvidar disso, muda o jogo completamente no Grupo de Acesso, principalmente com a presença da Imperatriz. Muito curioso para ver como seria a relação da direção da escola com os mandatários da LIERJ… Será que a LIESA, tentaria dar uma força para um de seus fundadores?

  2. Sobre o grupo especial , me assustou um pouco as notas da são Clemente, creio que os jurados foram duros quanto a crítica bem humorada que a escola fez. Quanto as demais colocações tiveram coerência , afinal tivemos um carnaval morno nos dois dias, porém com algumas notas duvidosas, o que mostra o despreparo de alguns jurados para avaliar tal quesito.
    Sobre a série A. Pude ter oportunidade de estar na segunda noite de desfiles embaixo do quarto módulo julgador e infelizmente vi muita injustiça, assim como indiferenças por escolas “menores” . Todos os méritos a Estácio que fez um ótimo desfile, porém não merecia esse excesso de 10, ainda mais em alegorias e adereço, onde pude observar vários detalhes de acabamento no carro abre alas incompleto. Inclusive no leão e na barra do carro. Acho que as escolas de sábado se beneficiaram imensamente na questão do tempo firme. A Bangu foi disparado a pior escola e muito fria na avenida, Cubango fez uma apresentação de nível igual/ superior que a Estácio. No mínimo teria que ser um carnaval mais acirrado. Minha impressão com a UPM foi não brigar esse ano e tentar algo pro ano que vem visto que já havia entrado na sexta (deu tudo errado) . Por fim Porto da pedra e Santa Cruz enredos lindos e de suma importância para sociedade , nos enche de orgulho essas homenagens com ícones pouco valorizados em nossa cultura. Porem aquém do esperado. Agora e analisar como império e Imperatriz vão se portar ao desafio de encarar grandes pedreiras no acesso. Confesso que o carnaval do acesso a cada ano se torna muito mais interessante do que o do especial.
    Muito boa suas colocações e agradeço por contribuir para a nossa cultura de samba e carnaval brasileiro

      1. Imperatriz que pode não desfilar na Série A. De acordo com a Rádio Tupi, devemos ter uma plenária nos próximos dias que pode salvar a escola de Ramos. Segundo o que foi apurado, a princípio, TODOS os dirigentes querem que o número de 14 escolas seja mantido. Tanto que a plenária não partiu da Imperatriz. Com isso, semana que vem, depois do desfile das campeãs, podemos ter uma nova plenária pra definir esta questão.

          1. Sim, a Tupi desmentiu e afirmou ser mesmo fake news. Também, já basta o fato do Drummond aceitar o rebaixamento…

  3. Sobre o especial: repito tudo que falei no comentário do post de terça. Quanto à Série A, a Estácio provou que a catarse e a emoção podem ganhar títulos também no acesso. Mas me chama a atenção o não rebaixamento da Sossego. Num enredo que era apontado como um erro pelo Migão, a escola do Largo da Batalha teve muita sorte por desfilar numa noite sem chuva (a Alegria da Zona Sul desfilou sob chuva forte e com falhas visíveis). Também ajudou a mudança daquela escultura do Crivella retratado como demônio (que no fim das contas virou um Eduardo Paes retratado como anjo). Já quanto à Santa Cruz, apesar dos erros, e dos dois décimos de punição, o 5º lugar foi lucro.

  4. Nota triste para a Caprichosos de Pilares, que além de não desfilar no Grupo D e cair pro grupo E, ainda foi penalizada em um ponto por não entregar o CD com o samba enredo de 2019. E se não desfilar no ano que vem, ela será suspensa por dois anos e corre o risco de voltar como bloco de enredo. Lembrando que ela não desfilou, nem apresentou enredo para este ano por causa de uma batalha judicial.

    1. O rebaixamento para bloco de enredo não existe mais no atual regulamento, assim como a ascensão de bloco em escola.
      Nao sei se existe algo no sentido de mudar isso até lá, mas o fato é que se não conseguir desfilar só voltará a hastear sua bandeira em 2023. (Apesar desta suspensão também ser passível de revogação, creio eu).

  5. A mangueira mereceu ganhar,mas algumas notas 10 foram exageradas.Triste ver a São Clemente tão bem mas ser canetada só por causa da bandeira,esses jurados têm que parar com esse tipo de coisa.Triste ver a Beija Flor naquela colocação, mas merecia por aquele desfile frio e confuso.Espero que a beija escola que já contribuiu tanto para espetáculo dos desfiles se reinvente rapidamente.Na verdade se for analisar friamente os únicos desfiles que mereciam desfilar nas campeãs era Viradouro,Vila Isabel e Mangueira e se não tivesse errado tanto Paraíso do Tuiuti.O resto foi decepção,Salgueiro fez o pior desfile afro do século,Portela o pior desfile principalmente na estética desses últimos ano em que ela ta se reinventando, e pela homenageada do desfile, isso foi lamentável.

  6. Com relação a Portela esperava que o problema de corte de verba para as escolas não impactasse tanto assim a escola uma vez que vem sendo divulgado pela diretoria uma série de ações para cada vez menos depender da verba do governo como programa de sócio torcedor, divulgação da Marca, venda de produtos em loja virtual,etc…..
    A destacar que justamente nos 2 últimos carnavais onde temos uma carnavalesca reconhecidamente que prima pelo acabamento das alegorias e fantasias tivemos problemas de acabamento, principalmente nas alegorias, o que me leva a crer que este fato pode estar sendo gerado pela falta de uma pessoa mais competente na gestão do barracão, pois desde que perdemos o Moisés estes fatos começaram a ocorrer.

  7. Tem uma parte do texto que pergunta como as escolas rebaixadas,vão resolver seus problemas de barracão,será que a Imperatriz vai sair da cidade do samba ? a vários anos a escola rebaixada tem ficado mais um ano por lá,e como ela chegou na frente do Império,ela tem mais direito.

  8. Em minha avaliação pós desfiles apontei as seis que em meu entender voltariam no sábado. Assim como Migão, apenas errei a Tijuca que foi substituída pela Mocidade.

    Mangueira pelo conjunto da obra (samba, evolução, harmonia, bateria, m.s e p.b impecáveis) apesar de um conjunto alegórico menos inspirado, porém correto, dos anos de Leandro Vieira na verde e rosa.

    Vila Isabel pelo luxo e riqueza e enredo bem trabalhado apesar do samba problemático e do décimo a perdido na cronometragem.

    Viradouro também pelo conjunto apesar de achar confuso o enredo misturando fábulas infantis e Motoqueiro Fanstama (em uma justificativa muito frágil na sinopse). Algumas escolhas estéticas não me agradam, pois parecem que elas determinam o enredo o não o contrário. Como se a justificativa para sua utilização só viesse após a sua concepção.

    Correndo por fora a Unidos da Tijuca cujo enredo não casou com o bom samba.

    Portela e Salgueiro que não foram ruins, mas decepcionaram em razão da força de seus enredos e que em ambos os casos não aconteceram.

    Nos rebaixamentos acerto de 100% apesar de a aposta na Imperatriz ter sido com base em comentários alheios.

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