Após não sentir vontade de terminar a Justificando o Injustificável em 2017, tamanho foram os absurdos lidos nas justificativas daquele ano, interrompi a série em 2018. Para esfriar um pouco a cabeça e não perder o amor pela festa decidi sequer baixar os arquivos de justificativa daquele ano.

Por outros motivos, também fiquei 2018 inteiro sem escrever uma linha no Ouro de Tolo, tanto que minha coluna acabou sendo deslocada para a sessão de inativos.

Mas, após esse ano sabático e de alma lavada pelo justíssimo título da Mangueira no primeiro carnaval de 300 pontos desde 2001 (270 na verdade, já que o quesito Conjunto acabou), é hora de voltar. Esta coluna é justamente para anunciar que esse ano voltaremos com a Justificando o Injustificável! Estamos só esperando a divulgação dos cadernos pela LIESA para começar as análises.

Mas já que o editor pediu uma coluna só para fazer esse anúncio, aproveito para fazer rápidos comentários introdutórios sobre a apuração, algo que na Justificando não costuma ser feito – já que cada coluna é dissecada por julgador.

De início, ressalto que de todos os carnavais que assisti, uns 20 ao todo, esse foi o que teve o resultado mais justo, da campeã até as rebaixadas, passando pelas escolas que voltaram sábado. Talvez a Mocidade e a Tijuca pudessem subir um pouquinho mais, São Clemente idem, porém nada muito absurdo.

Se entendermos que um julgamento é feito por 40 seres humanos que pensam de forma diferente entre si e também de forma ainda mais diferente do que nós, fanáticos por esta festa, essas pequenas discrepâncias são naturais e estão dentro da “margem de erro”.

Também precisamos lembrar que, por mais que nos esforcemos para não nos influenciarmos pela emoção, todos nós somos seres humanos e, até inconscientemente, ela acaba se apresentando em um julgamento que tem um grande fator subjetivo.

Sinceramente, não quero que esse fator subjetivo do julgamento acabe, sob pena de nos transformamos em um julgamento paulistano que consegue rebaixar uma escola que era cotada ao título por detalhes tão importantes como se o componente da Comissão de Frente estava usando meia ou não.

Porém, ainda acompanhando a apuração, algumas notas ou grupo de notas me saltaram aos olhos e estou ansioso para ver as justificativas dessas notas que não correspondem com a nossa intuição inicial. Abaixo cito algumas como aperitivo para o leitor também ficar instigado:

  • As quatro notas de samba-enredo da Unidos da Tijuca. O samba-oração, que era considerado um dos 4 ou 5 melhores antes do carnaval deixou nada menos que 4 décimos na pista e não angariou sequer um 10. Nem o festejado Alfredo Del Penho poupou o samba e deu 9.9. Qual problema passou desapercebido a nós, leigos teóricos?
  • Outro samba que estava nessa lista dos 5 melhores era o filosófico samba da Mocidade. Aqui os julgadores foram unânimes: 9,9 de ponta a ponta. Será que os décimos descontados foram justamente pelo samba focar demais na parte do enredo que fala sobre a própria Mocidade? Se for isso, estará provada a teoria daqueles que dizem que hoje o grande samba da Portela de 1991 não gabaritaria o quesito nos dias de hoje
  • A bateria da Portela, também muito festejada no desfile, depois de um 10 no primeiro módulo, levou três 9,9 nos seguintes. Com a profusão de notas 10 que no quesito bateria vem aumentando a cada ano, a bateria da Portela saiu como a segunda pior de todas da apuração, junto com a da São Clemente e só a frente do Império Serrano. O que aconteceu?
  • Ainda na Portela, não teve Estandarte de Ouro que salvasse as notas de Carlinhos de Jesus. Com três 9,9 e um 9,8, desde a comissão da revolução no quesito causada pela Tijuca em 2010, Carlinhos tem resultados muito ruins na apuração. Mais uma vez faltou impacto? Continua não havendo espaço para comissões mais “pé no chão” no Grupo Especial?
  • Em Harmonia, a grande surpresa foi a Mocidade. Apenas um 10 e três 9,9 para uma escola que segundo quem acompanhou os desfiles teve um dos melhores cantos do ano. Continuaremos com os julgamentos focados em carro de som ao invés do canto da escola?
  • Em alegoria, apesar de quase perfeitamente realizadas, a Portela teve problemas de concepção. Não obstante, só perdeu um décimo no quesito. Tivemos mais um julgamento calcado demais em realização e de menos em concepção?

Além dessas há ainda mais duas dúvidas, mas que talvez a Justificando não resolva o mistério porque o 10 não precisa ser justificado:

  • Como a Vila Isabel entrando com a última alegoria na pista de desfiles com 55 minutos levou quatro notas 10 em evolução? Tanto a escola teve que apertar o passo que estourou o tempo. Não é a primeira vez que isso ocorre: aconteceu o mesmo com a Beija-Flor em 2015.
  • Como já escrevi anteriormente, samba-enredo é a única coisa que nós podemos assegurar que não se altera a percepção em nenhuma das partes do desfile. Porém a Viradouro teve notas bem discrepantes: dois 10 e dois 9.8. Por que para uns o samba é “perfeito” e para outros bem complicados (9.8 para samba é uma nota que só costuma ser lançada para sambas com notórios problemas)?

Também ficou curioso? Então venha conosco nessa jornada que será a Justificando o Injustificável 2019!

Imagens: Ouro de Tolo

20 Replies to “Introdução à “Justificando o Injustificável” – Versão 2019”

  1. Impressionante (e lamentável) o fato dos jurados terem perdido completamente o respeito pelo trabalho do Carlinhos de Jesus nos últimos anos…

    1. Vamos esperar as justificativas, mas pelos outros anos isso me parece ser menos uma falta de respeito do e mais aplicação de critérios da LIESA. Infelizmente a comissão de frente do Segredo levou o quesito a uma caminho de critérios de julgamento (escrito inclusive no manual) totalmente equivocado na minha opinião.

  2. Um dos melhores do especial,mais o que fez na segunda feira o Ito Melodia no desfile da Ilha,foi brincadeira ,depois que a escola entrou no recuo,o cara parou de cantar o samba,e passou a gritar de tudo um pouco,um moça do RS chegou a me perguntar se ele tinha xingado,eu falei do jeito que ele esta,nem duvido,o tal de incorpora,que era do samba do ano passado,ele gritava a cada 30 segundos,mais pelas notas,os jurados não quiseram bater de frente.

    1. André, acho uma certa demora na divulgação salutar para esperar as emoções se diluírem um pouco no tempo. Inclusive eu solicitei ao Migão que só publicasse essa coluna ontem para dar 1 semana da apuração apesar dela estar pronta desde o final de semana,. Agora, nesse sentido acho que de 10 a 14 dias de espera é mais do que suficiente para tal, não precisa ser de 1 mês ou até de 40 dias como era há alguns anos atrás.

      Outra medida de bom tom que a LIESA adota é que antes de divulgar publicamente, ela quer primeiro apresentar as justificativas aos presidentes de cada escola em Plenária. Esse é o meu medo para esse ano, já que normalmente as plenárias sempre ocorrem na 1ª semana do mês e se a LIESA for esperar a próxima Plenária ordinária essas justificativas só serão divulgadas pouco antes da Semana Santa. Acho que se poderia convocar uma plenária extraordinária para 2 semanas depois do carnaval para tal e assim divulgar as justificativas dentro da janela que indiquei no parágrafo anterior. Esperemos o que a LIESA fará esse ano.

  3. Rafic, a Portela não gabaritou em Samba, em 1991. Foram dois 10 e um 9. E eu concordei como concordo com as notas da Mocidade este ano ( talvez podia ter ganho pelo menos um 10). Não acho que o samba tem que ser uma sinopse musicada, mas pelo menos deve passar a mensagem correta do enredo. Se vira moda “sambas-exaltação”, vai ser um porre. PS – e nem dá pra reclamar muito do júri quanto a isso. Basta lembrar que esse esquema de exaltar a escola gabaritou vários anos na própria Portela, bem recentemente…

    1. É verdade. Foi o próprio Eri Galvão (que também julgou esse ano) que deu 9 para a Portela em 91. Mas isso não descarta a minha suposição, afinal o samba da Portela em 91 ganhou duas notas 10 em três possíveis e o da Mocidade nenhuma.

  4. Quanto ao samba-enredo, o problema é achar que 9.8 é uma nota para um samba com problemas. Não deveria ser. 9.8 deveria ser uma nota para o samba do Salgueiro, por exemplo: muito bom, contagiante, mas repete “Obá” cinco vezes. Ok, é um samba para Xangô, mas será que não poderíamos ter mais originalidade? Além disso, numa passada do samba (contando a duplicidade nos refrões), a palavra “Xangô” aparece oito vezes. Mais uma vez: não falta originalidade? Imagine um samba sobre a Alemanha, por exemplo, que repetisse Alemanha por quatro vezes e país oito vezes? Seria canetado sem dó. Sambas afro precisam ser mais bem trabalhado na estrutura das letras para evitar esse tipo de coisa.

    Agora, os sambas da Mocidade e da Tijuca me desagradam. Muito longos, muito arrastados. A oração da Tijuca, então, me parece forçadíssima e beirando o piegas. Fora que há tanto para se falar sobre pão, e aí quase todo o samba (e o enredo) acabam focando apenas no uso bíblico e religioso do alimento. Complicado. Mocidade passa pelo menos problema do Salgueiro: numa passada do samba, contando os refrões, a palavra “tempo” se repete por sete vezes. Aliás, o próprio título do enredo é ruim, já que ali a palavra “tempo” é repetida duas vezes. E olha que eu nem aprofundei a análise nas letras dos sambas, já que poderia pegar mais pesado ainda com descontos.

    Penso que as notas de samba-enredo precisam ser ainda mais rígidas. Como mencionei antes, 9.8 é um bom samba. Com falhas, mas bom. Algo do nível do samba da Imperatriz, uma marchinha sem a menor criatividade, merecia 9.3 com muito bom gosto. Mas aí se os julgadores um dia terão coragem para isso já são outros quinhentos.

    1. Uma marchinha constrangedora diga-se de passagem. Se fosse componente, ficaria envergonhado de cantar.
      Vila Maria há 10 anos atrás, já mostrou q não dava samba sobre dinheiro, que também era ruim demais.

          1. Não posso fazer nada se a escola, mesmo tendo um sambaço em sua disputa, optou por fazer a lambança que fez.

    2. Não adianta ser rígido em samba se os outros quesitos não seguirem essa rigidez. Em um julgamento no qual, em todos os quesitos, os 9.7 e 9.6 já são raros e o 9.5 inexistente, 9.8 é uma nota correta para um samba com problemas, mas não catastrófico.

      Se pesarem demais a mão em samba-enredo sem pesar em outros quesitos, isso desequilibrará o peso dos 9 quesitos no julgamento e todas as vezes que isso foi feito no julgamento das escolas de samba, os maiores descontos sempre foram em Alegorias e Adereços. Então, no cômputo geral, prefiro as coisas da forma como estão pois aumenta a probabilidade de uma classificação geral equilibrada como foi a desse ano.

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