Na última quarta-feira comemoramos aquela que é considerada a maior noite da história do carnaval. Vejo que o carnaval carioca, especificamente o desfile das escolas de samba, viveu seu auge entre 1985 e 1993. Anos de imensa criatividade, de sambas excelentes e populares, de discos vendendo como cerveja no verão, de Globo e Manchete fazendo pool e desfiles épicos que entraram para a história. Desses anos todos considero 1989 o auge e desse auge a segunda noite o auge do auge.

Por que penso isso? Porque na segunda noite tivemos “Liberdade, liberdade” e “Ratos e Urubus”, dois desfiles que podem estra tranquilamente nos cinco maiores de todos os tempos.

Falei várias vezes que o carnaval de 1989 não acabará nunca e aqui mesmo no blog escrevi anos atrás uma coluna chamada “1989 – O ano que não terminou”. Em homenagem e agradecimento a Imperatriz Leopoldinense e Beija-Flor republico hoje essa coluna.

Ao longe faz se ouvir tem verde e branco por aí…

Reluziu, é ouro ou lata…

 

1989 – O ANO QUE NÃO TERMINOU

Existe um livro chamado “1968 o ano que não acabou”, de Zuenir Ventura. Sempre achei esse título interessante e acho que cabe bem para um ano que eu vivi: 1989. De todos os anos que vivi até hoje é o mais marcante, não somente pela vida pessoal como pelos acontecimentos no mundo.

O ano é marcante pra mim porque foi a primeira vez que me apaixonei, o ano do divórcio dos meus avós e o ano que fiquei reprovado na escola, mas também me marcou por acontecimentos que não tinham a ver comigo diretamente.

O ano logo no seu primeiro dia teve o acidente com o barco chamado “Bateau Mouche”. Ele levava pessoas para curtirem na baía de Guanabara a virada do ano e afundou com muitas pessoas morrendo, entre elas a atriz Yara Amaral. Algumas semanas depois o país parou para descobrir quem matou Odete Roitman na novela “Vale Tudo”, sem imaginar que aquela seria apenas a primeira novela do ano.

Teve a novela da vida real, a primeira eleição presidencial direta em 29 anos. Personagens importantes de nossa história participaram da disputa como Ulysses Guimarães, Paulo Maluf, Leonel Brizola, Mário Covas, alguns folclóricos que começaram a ganhar fama como Enéas Carneiro e outros.

No final a eleição ficou polarizada entre o ex sindicalista e presidente do PT Luiz Inácio Lula da Silva e o ex governador de Alagoas, o “caçador de marajás” Fernando Collor de Mello.

A eleição mobilizou o país, que se dividiu. Collor sempre foi o líder das pesquisas, mas nas últimas semanas recebendo apoio de Brizola e toda a esquerda, dos artistas e intelectuais Lula começou a ameaçar a vitória de Collor.

Essa ameaça teve como consequência fatos estranhos como o presidente da CNI (Confederação Nacional das Indústrias) Mario Amato dizendo que os empresários iriam embora do país numa vitória do PT. Logo depois apareceu uma mulher no programa eleitoral de Collor contando que o candidato do PT a teria engravidado e pedido que abortasse.

Tem mais: uma edição manipulada do Jornal Nacional pró Collor quando as campanhas já estavam proibidas e o ato final: a prisão dos sequestradores do empresário Abílio Diniz vestindo camisa do PT. Collor venceu e as consequências nós sabemos.

A esquerda tomou esse golpe no Brasil – e pelo mundo também. Caiu o muro de Berlin, a União Soviética avançava fundo em suas transformações e os países do leste europeu abandonavam o comunismo. Na música o ano foi o último de domínio do rock nacional, chegando às rádios a lambada e a música sertaneja. As rádios FM conheciam a até então desconhecida língua portuguesa.

E por falar em música cheguei aonde queria: o principal motivo de eu achar que 1989 não acabou.

Nesse ano aconteceu o maior desfile de escolas de samba que eu vi. O disco que teve a maior vendagem de todos os tempos trouxe sambas belíssimos como o da campeã do ano anterior Vila Isabel – com o lindo refrão “clareou/despertou o amor/ que é fonte da vida/vamos dar as mãos e cantar/sempre de cabeça erguida”. O disco trazia outro belo samba, mesmo historicamente errado, o da Imperatriz Leopoldinense e seu famoso “Liberdade, liberdade, abra as asas sobre nós”.

E não com um samba bonito, mas com um samba alegre e empolgante a União da Ilha desfilou com “Festa Profana” e o seu refrão histórico “eu vou tomar um porre de felicidade/vou sacudir eu vou zoar toda cidade”. A União da Ilha nunca foi campeã do carnaval e com esse samba e o desfilaço que fez teria sido campeã em todos os anos que vi carnaval, mas…

…mas não em 1989, não com Imperatriz e Beija-Flor daquele ano. A Imperatriz que já citei como tendo um samba belíssimo, do meu “Top 5”, fez um desfile magistral, rico, luxuoso, nada parecido com a escola que foi rebaixada no ano anterior e só ficou no grupo especial por “virarem a mesa”. Era a campeã de fato e de direito se mendigos não tivessem invadido a Sapucaí.

O que falar daquele desfile da Beija-Flor? Do Cristo censurado e com plástico preto o cobrindo e os dizerem, “mesmo proibido olhai por nós”. Falar o quê do impacto que foi ver a Beija-Flor sempre luxuosa, imponente, vir maltrapilha, com panos e farrapos. Ver o gênio Joãosinho trinta naquela manhã de terça-feira vestido de gari?

E depois no desfile das campeãs descobrirem quase todo o Cristo deixando só a cabeça coberta e a transmissão ser interrompida pelos berros emocionados de Fernando Pamplona falando que aquilo era povo?

Eu por mais que seja contraditório costumo falar que a Imperatriz fez o melhor desfile do carnaval de 1989 e a Beija-Flor o maior carnaval da história naquele ano. Quesito por quesito acho que a Imperatriz foi melhor e no impacto e emoção a Beija-Flor. Acho que os Deuses do samba concordam comigo porque o desfile da Imperatriz foi o campeão do carnaval e o da Beija-Flor o campeão da história do carnaval.

Em 1989 víamos o Brasil e o mundo esperançosos esperando por mudanças na década de 90 que viria. Foi o ano que pedimos que a liberdade abrisse suas asas e fomos tomados por ratos e urubus, tudo inebriados por um grande porre de felicidade.


Por isso acho que o ano de 1989 não acabou… ainda bem.

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