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Um pouco sobre Woody Allen

Allen

Eu tenho alguns ídolos e referências na vida. Zico é meu maior ídolo por tudo que fez no Flamengo quando eu era criança. Lembro até hoje da emoção que tive com dez anos ao receber um autógrafo seu na Gávea.

Referências não chegam a ser ídolos, mas são pessoas que admiro demais nas suas profissões e que sem ter 10% do talento deles tento trazer algo para minha escrita.

Sempre admirei as crônicas do Arthur da Távola, a forma que ele falava de todas as coisas e principalmente do cotidiano, tanto que quando combinei com o Migão de escrever aqui disse que queria tentar algo nesse estilo. Gosto das composições de Chico Buarque, tanto das Suas canções políticas quanto e principalmente de amor. O amor avassalador que ele conta usando seu lado feminino. Admiro o humor da violência de Quentin Tarantino e a forma de expor a hipocrisia de Nelson Rodrigues. Quem já leu algum livro ou viu peça minha já percebeu essas referências, claro que sem o talento dessas pessoas.

Mas tem um outro cara que admiro demais como artista, a forma que trabalha com humor que é Woody Allen.

Allen foi um dos primeiros a fazer o tal “humor inteligente”, humor que tem algo por trás, uma mensagem, uma ironia e gosto também da forma como sempre retratou Nova York em suas histórias. São inúmeros os filmes que curto e fazem parte da história das artes mundiais, mas duas especialmente me tocam. Uma é a forma que ele retratou o trabalho dos espermatozoides em “Tudo que você queria saber sobre sexo..”. Hilário, criativo, originou meu conto “Y” publicado aqui no OT e que virou peça ainda inédita.

Outra é uma esquete que faz parte do filme “Contos de Nova York” que ele faz um filho super protegido pela mãe que morre e mesmo morta continua azucrinando o filho com o rosto estampado no céu controlando seus passos. Esse é o mote principal de “Dona Carola”, peça minha encenada quase trinta vezes em várias cidades brasileiras e Portugal.

Decidi escrever sobre Woody Allen porque a carreira dele corre risco de acabar. Vários artistas que trabalharam com ele vieram a público criticá-lo e se dizendo arrependidos de trabalhar com o diretor, o musical “Tiros na Broadway” que estrearia na mesma foi suspenso. A ameaça é que Allen, um dos mais geniais cineastas da história, se torne um pária.

Tudo por sua vida pessoal, por acusações sobre a pessoa.

Antes de mais nada evidente que não sou a favor de pedofilia e pedófilos, lugar de pedófilo, quem quer que seja, é na cadeia e tendo três filhos pequenos não sei nem o que faria com um monstro desses se fizessem algo a eles, mas o caso de Woody Allen é diferente das histórias que vem sendo contadas em Hollywood.

Ele não assediou atrizes ou atores como fizeram alguns produtores e atores, ele é acusado por sua ex-mulher e por um dos filhos de pedofilia em relação a outra filha que confirmou as acusações enquanto outro filho diz ser mentira. Tudo muito nebuloso porque se uma parte da família lhe acusa outra parte defende então nem dentro da família há unanimidade.

Eticamente é errado casar com filha adotiva como ele fez. É esquisito, é estranho, parece sim coisa de anormal, mas eles estão juntos até hoje então parece ser amor mútuo mesmo então fica difícil julgar. O que temos são acusações de uma ex-mulher que pode ter feito essas acusações como uma mãe horrorizada por ver seus filhos abusados ou uma ex-esposa que não se conforma de ser trocada e fez a cabeça da filha para que lhe acusasse. Eu passei por isso anos atrás, uma ex me acusou de coisas que não fiz e encontrou tambor de ressonância em uma mulher que era a fim dela então sei muito bem o que é isso.

Como disse fica difícil julgar, não dá para passar a mão na cabeça de Woody Allen nem condená-lo. Essa situação me lembra muito a de Chaplin que virou um pária, expulso dos Estados Unidos e só no fim da vida reverenciado como merecido.

Parece que vivemos um novo Macarthismo. Para quem não sabe pesquise a história dos Estados Unidos pós guerra que verá como foram tratados suspeitos de comunismo. Uma causa importante, nobre como acabar com o assédio sexual e moral contra as mulheres pode ser usada para perseguir pessoas e acabar com carreiras.

Minha admiração pelo artista Woody Allen continua, pela pessoa também até que se prove o contrário.

Um homem cuja genialidade não pode ser contestada.

Twitter – @aloisiovillar

Facebook – Aloisio Villar

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