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Racismo, Trump e NFL: Parte I

Kaepernick_Bleacher_Report

Quem acompanha os esportes americanos e o noticiário político dos Estados Unidos na última semana acompanhou as consequências de uma das últimas polêmicas na qual o presidente americano Donald Trump se envolveu.

Em um comício de apoio a um candidato ao Senado, Trump disse que os donos de time da NFL, a liga americana de futebol americano, tinham que “demitir imediatamente o “filho de uma puta” que se ajoelha na hora de tocar o hino americano antes das partidas”. Ainda pelas palavras do mesmo, isso seria um desrespeito ao país, ao militares e ao legado que as gerações passadas deixaram.

Obs: peço desculpas ao leitor pela expressão chula usada acima, mas foi exatamente essa a usada por Trump durante o discurso público (son of a bitch), e sem ela não conseguiria expressar o quão forte foi tal declaração.

Depois desse episódio, a resposta da NFL foi drástica. Na manhã seguinte do discurso o CEO da liga já emitiu uma nota repudiando as declarações e vários donos de times seguiram o mesmo caminho; entre eles vários donos que são tão ou mais republicanos que Trump, um deles inclusive amigo pessoal do Presidente.

Durante os jogos do fim de semana todos os times de alguma forma protestaram contra a fala de Trump: uma maior quantidade de jogadores se ajoelhou, vários outros se deram os braços com as mãos fechadas em um gesto de união, em contraponto ao divisionismo permanente no discurso de Trump e alguns times decidiram que só subiriam a campo após o fim da execução do hino.

Ao final da rodada, o saldo é que mais da metade dos jogadores de todos os times expressaram seu protesto de alguma das três formas acima. Nessa lista está incluído até o astro Tom Brady, que não só fez campanha para Trump durante as eleições como subiu no palanque ao seu lado. Também é notável a presença de donos conhecidos nos bastidores por odiarem os jogadores que se ajoelhavam, junto aos jogadores nesses protestos.

Mas, afinal, por que havia jogadores que tinham essa “mania” de se ajoelhar durante a execução do hino e provocaram a ira de Trump, que desencadeou toda essa reação?

Tudo começou em 2016, quando um dos principais jogadores da liga, Colin Kaepernick, para surpresa de todos, ficou sentado durante a execução do hino, que é tocado antes do início de todos os jogos – com direito a um bandeirão dos EUA estendido no gramado.

Ao fim do jogo, perguntado do motivo pelo qual fez isso, ele respondeu que não iria se levantar para mostrar orgulho de um país que oprime as pessoas negras. Para ele “isso é maior que o futebol americano e seria egoísmo olhar de outro modo, as pessoas ficam de licença paga em casa para escapar da acusação de assassinato”.

Após isso, Kaepernick fez a mesma coisa em todos os jogos daquela temporada, as vezes ficando sentado no banco e as vezes ajoelhando no gramado quando por algum motivo o banco não estava perto ou disponível.

Tal atitude gerou grande polêmica na época, sobre se era correto ou não e se durante o hino era o momento adequado de protestar ou não. Mas a moda pegou e alguns outros poucos jogadores, em sua maioria negros, também começaram a fazer o mesmo.

Mas apenas isso não é suficiente para entendermos o porquê a fala de Trump foi tão polêmica e causou tanto mal estar. É necessário situar o que estava se passando em 2016 e está se passando em 2017 em uma perspectiva histórica maior.

Peço atenção especialmente a esse trecho da fala de Kaepernick: “as pessoas ficam de licença paga em casa para escapar da acusação de assassinato”.

Na época em que ele começou com tal protesto, as notícias que estavam chamando a atenção nacional eram uma série de abusos policiais e erros de abordagem que resultaram na morte ‘acidental’ de negros inocentes. Em todos casos as polícias e, em vários outros, as promotorias estavam claramente tentando proteger os tais policiais das acusações. Nos poucos casos que iam a juri, o juri, em sua maioria branco, absolvia o tal policial.

Nesse caldeirão racial de 2016, surgiu um movimento social chamado de “Black Lives Matter” (em livre tradução, “Vidas negras importam”), que fez vários protestos contra essa impunidade; muitos deles de grandes proporções e que receberam inclusive o apoio do Presidente dos EUA na época, Barack Obama.

Não podemos esquecer que Obama foi o primeiro presidente negro da história americana, mesmo que não pertencesse à comunidade negra americana strictu sensu, já que sua mãe era branca e seu pai era africano. Diferentemente da ex-primeira dama Michele, filha de pais negros americanos.

Mas a eleição e posterior reeleição de Obama deram a impressão de que finalmente os Estados Unidos estavam deixando para trás toda história de segregação racial que remonta a era de escravidão de antes da Guerra de Secessão (1861-1865) e que, mesmo que a passos bem lentos, estava gradualmente se resolvendo, sem retrocessos. Porém não foi isso que acabou ocorrendo nos oito anos de governo Obama. Dois fenômenos antagonizantes começaram a aflorar:

Primeiro, os negros ao verem uma pessoa negra no cargo mais importante do país se sentiram mais “empoderados” e perceberam sua importância política e da ressonância que suas vozes começavam a obter. Os discursos e atitudes de Obama aumentaram ainda mais tal consciência da população.

Destaco duas delas para exemplificar isso: o já eternizado discurso pela lembrança dos 50 anos do massacre de Selma, Alabama (texto completo em inglês) e o ato de cantar o hino cristão, altamente popular nas igrejas negras do sul dos Estados Unidos, “Amazing Grace” durante o funeral do senador estadual Clementa Pinckney – morto em um ataque terrorista dentro de uma igreja protestante negra, feito por um supremacista branco.

Com essa consciência, com o maior espaço obtido na imprensa graças a duração do mandato do 1º presidente negro da história do país e o apoio do próprio presidente negro aos protestos pacíficos, o ressurgimento de grandes movimentos pleiteando a igualdade racial era questão de tempo.

Justamente após os protestos de Ferguson, começados após a morte de um jovem negro desarmado, Michael Brown, por um policial branco em 2014, surgiu o já citado movimento Black Lives Matter que passou a denunciar sistematicamente essas mortes por excesso de força policial de forma totalmente desnecessária.

O mais impressionante é que em todos os casos os policiais, em quase 100% dos casos brancos, foram absolvidos por legítima defesa putativa (em erro) ou falta de provas; em alguns casos sequer uma denúncia foi feita pela promotoria. Até mesmo no absurdo caso do jovem Trayvon Martin, no qual ele foi morto pelo responsável da “vigilância de vizinhança” do condomínio fechado, o qual não tinha nenhuma formação de segurança, o atirador foi absolvido por legítima defesa e depois o caso não foi reaberto pelo Departamento de Justiça de Obama por falta de provas. Falta essa que há quem credite a um trabalho falho, talvez proposital, da perícia da Flórida.

É aqui que as duas histórias se unem: foi justamente após mais uma leva de mortes de negros que ficou impune que Kaepernick começou seu protesto no momento do hino.

Porém, ao invés de caminharmos para a igualdade no convívio, passo final da igualdade racial após a igualdade formal obtida no governo Johnson (1963-1969), todo esse movimento em prol dos negros foi antagonizado por um segundo movimento de recrudescimento, radicalização e aumento de setores radical-conservadores dos Estados Unidos.

Esse setor se aglutinou no Partido Republicano, opositor ao Partido Democrata de Obama, e puxou uma oposição conservadora obstinada a todo e qualquer ato de Obama, seja social (Obamacare), econômica (aumento dos impostos na faixa mais alta de renda), ecológica (aumento da regulação das atividades econômicas potencialmente poluidoras) ou mesmo o discurso de igualdade racial dele.

Obs: apesar dos partidos serem os mesmos há mais de um século nos EUA, as forças que os compõe mudam bastante. Por exemplo, logo após a Guerra de Secessão, o partido anti-escravagista e mais progressista era o Partido Republicano e o partido que queria retomar a escravidão era o Democrata. Hoje as posições conservadora e progressista se inverteram radicalmente: os democratas são os progressistas e os Republicanos, os conservadores.

O 1º ato dessa oposição irracional, que ocorreu ainda durante a 1ª campanha presidencial de Obama, foram as teorias da conspiração sustentadas por vários políticos do Partido Republicano, entre eles o atual presidente Trump, que Obama não nasceu nos Estados Unidos, não tinha cidadania americana nata e por isso não poderia ser presidente.

Tal fato foi inédito na história americana, nunca um presidente qualquer sofreu um ataque qualquer sobre seu nascimento e sua nacionalidade, muito menos um ataque tão forte e duradouro como esse, que não acabou nem quando Obama divulgou a verão completa de sua certidão de nascimento do Hawaii. Até que ponto teve um componente racial nesses ataques?

Sempre pairou essa dúvida.

Amanhã, na segunda parte, continuamos esta história até chegar aos protestos da última semana.

Imagens: Arquivo Ouro de Tolo, NBC News, NY Daily News, Bleacher Report

 

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