Categorizado | Orun Ayé

O velho companheiro

Caderno

O que pode acontecer em vinte e cinco anos, dez meses e vinte e dois dias?

Nossa, tantas coisas..esses quase vinte e seis anos são uma vida, podem representar uma vida..Voltando no tempo, se voltarmos esse período no tempo vamos a junho de 1991 e o mundo era bem diferente. O Brasil vivia recessão, violência alarmante e doenças como a AIDS assombrava o mundo, infelizmente isso tudo continua hoje em dia, mas o presidente do Brasil era Fernando Collor de Mello, nosso maior ídolo Ayrton Senna e pessoas normais como nós mal tínhamos computador em casa, ainda mais internet…

Internet..Isso tem muito a ver com essa coluna de hoje.

Vinte e cinco anos, dez meses e vinte e dois dias foi o tempo em que convivi com um amigo. Conheci esse amigo quando tinha quatorze anos, estudava na oitava série do colégio AME e criava personagens que chegaram ao público como do livro Amor (a venda pela editora Autografia) e da peça Descobridor dos Sete Mares (Já apresentada em Curitiba), mas eu era muito diferente. Tinha, como disse, quatorze anos e era um moleque tímido, introvertido que morava com mãe e avó. Continuo tímido, mas não sou mais introvertido, sou capaz de buscar e realizar, também não moro mais com mãe e avó, não sou mais filho, sou pai.

Pai..Esse foi um dos motivos que me fez começar essa amizade, criar essa amizade. Como eu disse não tinha internet na época e fazer qualquer tipo de pesquisa era bem difícil, eu não tinha a mínima ideia que um dia teríamos acesso a qualquer tipo de pesquisa e informação em um clique e decidi que iria criar algo para deixar para meus filhos, uma paixão que tinha certeza que nos uniria, o Flamengo.

Decidi em 1991 começar a escrever em um caderno todos os resultados do Flamengo a partir dali em jogos oficiais colocando a data, competição, estádio, placar e autores dos gols do Flamengo (nunca autores dos adversários), imaginava como seria legal fazer aquilo durante alguns anos, fazer daquilo objeto de pesquisa e um dia entregar a um filho. Não imaginaria que essa ligação duraria tanto, duraria vinte e cinco anos, dez meses e vinte e dois dias.

Peguei um caderno de ciências que nunca usei na escola e comecei pelo torneio da capital do Rio de Janeiro de 1991 torneio que classificava para o taça do estado do Rio de Janeiro e seu campeão garantia uma vaga na Copa do Brasil, torneio mequetrefe que só existiu naquele ano. No dia 16 de junho de 1991 iniciei com uma vitória do Flamengo sobre o Fluminense por 2×1. O Flamengo venceu aquele torneio da capital, depois do estado, ganhou o carioca daquele ano e o brasileiro de 1992, tudo em sequência. Melhor começo impossível.

E assim o tempo foi passando. A caligrafia do garoto de 14 anos foi mudando a partir do momento em que a idade mudava. Caligrafia mudava, ficava mais adulta, canetas de várias cores utilizadas, rasuras feitas nos erros, uma época escrevendo com a mão esquerda porque com 20 anos de idade quebrei a direita, tudo registrado nesse caderno, toda a minha vida entre os 14 e os 40 anos.

Pois é, toda a minha vida através da caligrafia e do Flamengo. Nosso clube de futebol costuma ser o primeiro amor de nossas vidas, aquele que levamos até a morte e comigo não foi diferente. O Flamengo foi meu primeiro amor e é um dos amores que levarei até morrer. Nada me fez chorar mais até hoje que o Flamengo seja de tristeza (pouquíssimas vezes) ou de emoção em uma conquista.

Naqueles resultados, das datas daqueles jogos tem muito de mim, sei exatamente o tempo que vivia ali, tudo que me cercava naquele momento quando revejo o caderno mesmo expondo muito pouco minha vida ali, apenas jogos. A única exceção que abri para falar de minha vida foi em 2005 quando anunciei no caderno a morte de minha mãe.

Tem tudo de relevante da história do Flamengo nos últimos 26 anos ali, suas maiores vitórias e derrotas escritas em tempo real por minha caligrafia do momento, o nome de todos os seus grandes jogadores como autores de gols ou em escalações de times campeões: Júnior, Gaúcho, Zinho, Romário, Bebeto, Renato, Marcelinho, Djalminha, Paulo Nunes, Edmundo, Sávio, Edilson, Petkovic, Ronaldinho Gaúcho, Adriano, Diego, Guerrero e pude retratar o centenário do clube lhe homenageando…

Um acervo importante demais para mim por retratar o Flamengo de minha época e minha vida, mas que se torna obsoleto porque hoje em dia qualquer site tem todos esses resultados, não há mais necessidade que alguém faça um caderno assim.

Mas eu fiz, por vinte e cinco anos, dez meses e vinte e dois dias fiz, por 109 páginas fiz, até que…

…Chegou a última folha.

Um caderno é como a vida, as folhas são preenchidas de histórias até que chega ao fim. Escrevendo os resultados desse ano de 2017 vi que o meu amigo estava acabando, um dos meus amigos mais antigos e isso me fez ter uma mistura de emoções. Tristeza por me separar dele, de ver uma etapa enorme acabar, orgulho de nunca ter perdido esse caderno mesmo em mudanças de casa e quartos que fiz, de nunca ter parado de escrever, consegui levar o caderno até o fim.

E quis o destino que ele acabasse no último jogo do campeonato carioca, na partida contra o time que ele começou. Eu sabia que seria o último jogo, teria pouco espaço depois para escrever e por isso quis muito que esse título viesse. Meu amigo não podia ir embora perdendo.

E venceu pelo mesmo placar do primeiro jogo. O jogo de número 1713 foi 2×1 assim como o primeiro.

Assim pude preencher o jogo ao som do hino do clube, confesso que errando ao escrever, talvez pela emoção do momento, mas isso é o de menos. Ao preencher escrevi a palavra “fim” e acabou. Eu que já escrevi tantas histórias e pus fim em todas elas escrevi o fim mais difícil.

Como prometi aos quatorze anos e está escrito em passagens do caderno um dia ele será dos meus filhos. Quando meu filho mais velho, Gabriel, fizer 14 anos darei de presente para ele. O que fará com ele não sei, mas minha missão com esse velho amigo estará cumprida.

E quarta saí para comprar outro caderno porque o Flamengo já tinha jogo pela Copa do Brasil. A vida não para, que bom…

Obrigado Flamengo, meu primeiro amor, por ter podido fazer de você meu diário.

Descanse meu velho companheiro todo amarelado, manchado, rasurado e despedaçando um pouco pelo desgaste do tempo. Muito obrigado e tenha certeza que de vez em quando te olharei em sua gaveta para matar as saudades.

Uma vez Flamengo, sempre Flamengo.

NÚMEROS

109 páginas

Primeiro jogo
16/06/1991: Maracanã: Flamengo 2 x 1 Fluminense – Marcelinho e Rogério

Último jogo
07/05/2017: Maracanã: Flamengo 2 x 1 Fluminense – Guerrero e Rodinei

Jogos: 1713
Vitórias: 814
Empates: 438
Derrotas: 461
Gols a favor: 2776
Gols contra: 1989

Jogos contra os rivais

Vasco
Jogos: 109
Vitórias: 41
Empates: 35
Derrotas: 33
Gols a favor: 126
Gols contra: 120

Fluminense
Jogos: 100
Vitórias: 37
Empates: 29
Derrotas: 34
Gols a favor: 146
Gols contra: 146

Botafogo
Jogos: 101
Vitórias: 36
Empates: 42
Derrotas: 23
Gols a favor: 147
Gols contra: 118

Títulos: 36
Jogador com mais títulos: Leonardo Moura 12
Técnico com mais títulos: Carlinhos 8
Artilheiro: Romário 189 gols
Estádio com mais jogos: Maracanã 648 jogos
Páginas invicto: 2, 26, 36, 75, 82, 83 e 108

FOTOS


Início em 1991


Registro do penta brasileiro em 1992


Gol de barriga em 1995


Escrevendo com a mão esquerda em 1996


Tricampeonato carioca em 2001


Derrota para o Santo André em 2004


Anúncio da morte de minha mãe


Derrota para o América do México 2008


Hexa brasileiro em 2009


Fim do caderno em 2017


O começo do segundo caderno

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