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Na falta de crepúsculos e de tons de cinza, a última moda lançada pelo mercado editorial é o “livro de colorir para adultos”. Mas o que tinha jeito de piada pronta chegou com a reputação de possuir atributos “desestressantes”, assim se justifica e assim seus “leitores” o justificam.

A onda é mundial, mas num país em que o povo lê em média 4 livros por ano (e termina 2), não teve dificuldade de tomar conta da lista dos Best Sellers de forma avassaladora. Com efeito, no último mês 6 dos 10 livros mais vendidos no Brasil eram de colorir.

Não nos apressemos a julgar as editoras. Elas não são fundações dedicadas à difusão da alta cultura, mas empresas com o difícil propósito de ganhar dinheiro em um tempo alérgico a bibliotecas e a qualquer coisa que demande atenção por mais de cinco minutos.

Alguns chegam ao ponto de defender a moda. O consultor editorial Carlo Carrenho disse à Folha: “Não é o cara que parou de ler Guimarães Rosa. É o cara que joga Candy Crush e agora está mais perto da livraria” . Se alguém precisou atingir a idade adulta para “ler” livros de colorir, de quanto tempo ainda vai precisar para chegar a Guimarães Rosa?

20150226_161353A surpresa com o que parece ser sintoma de infantilização dos adultos não é nova. No fim do século passado percebeu-se que nem todos os leitores da série Harry Potter estavam na puberdade. Já naquela época o tema foi tratado com condescendência: ninguém estaria deixando de ler A Divina Comédia para acompanhar as aventuras do mago adolescente. Seus fãs seriam os jogadores de videogame e RPG, e a literatura estaria, na verdade, diante de uma oportunidade de conquistar novos adeptos… Ao que parece, a oportunidade foi perdida.

O que devemos pensar desse modismo? De minha parte, acho difícil compreender as supostas propriedades ansiolíticas do passatempo. Não consigo imaginar nada mais enervante que pintar uma página inteira de um desenho cheio de flores e de folhinhas caindo das árvores.

É sem dúvida desconfortável saber que pessoas que se supõe tenham atingido a maturidade emocional e intelectual dediquem seu tempo a histórias de dragões, e agora a livros de colorir. Qual será a próxima moda, chocalhos de plástico para adultos? Mordedores em formato de bichinho para adultos? Deveremos tratar essas novidades com naturalidade também? “Se não estivessem mordendo a girafinha, ainda assim eles não estariam lendo Goethe, mas assistindo ao Caldeirão do Huck: no fundo, dá na mesma…”

Com parcimônia, a prática pode até ser considerada válida, mas é anormal que tenha se tornado uma febre. Será que ninguém nunca tinha percebido que sempre houve livros para colorir à venda em qualquer banca de jornal? “Ah, mas aqueles eram de criança!” Voltando à hipótese insólita de uma moda de mordedores de borracha: será que dirão que estes brinquedos, em formato de elefantinho, são para bebês, mas em forma de mamute malvado são indicados para adultos? A questão não é a embalagem, mas a recompensa mental.

Vale repetir, não se trata de um nicho: é o grande fato editorial do ano. Não é preocupante que estes cadernos existam, mas que estejam vendendo muito mais, e para adultos, que livros de verdade, aqueles objetos antiquados que contêm ideias, narrativas, poesia, informação.

Por mais que o quadro me espante, não creio que se trate de um fenômeno a ser combatido, pois aparentemente não causa nenhum mal. Ao contrário, ele tem a virtude de sinalizar alguns males que o precedem, e que têm raiz mais profunda. Infelizmente, talvez profunda demais para que possamos cortá-la.

Os mais evidentes destes males são a imaturidade, a falta de cultura formal e o próprio estranhamento do homem contemporâneo pelas atividades intelectuais. Senão, vejamos.

faustao-2013Há quem relaxe lendo Molière e há quem relaxe vendo Faustão. É óbvio que cada ser humano tem o direito de relaxar como quiser, mas também é óbvio que dificilmente uma pessoa culta conseguirá relaxar vendo Faustão, e dificilmente uma pessoa inculta relaxará lendo Molière. O fato de tão pouca gente relaxar lendo Molière e tanta gente relaxar vendo Faustão indica algo sobre o nível cultural médio do povo.

Se oferecêssemos um livro de colorir a homens como Jürgen Habermas ou Zygmunt Bauman, poderíamos supor que eles ficariam um tanto perplexos e não se interessariam pela sugestão, mesmo informados das qualidades terapêuticas. Fariam isto não porque não sintam necessidade de relaxar, mas porque provavelmente relaxam de um jeito diferente.

Como já lembrado, se virasse moda os adultos brincarem de chocalho, alguns diriam: “eles não estariam lendo Petrarca no tempo que dedicam a essa atividade relaxante”, e seria verdadeiro, mas ainda haveria algo errado numa cultura em que adultos adquirem hábitos infantis como diversão.

Alguns preferem ressaltar que não estamos involuindo: na época de Petrarca, Molière e Goethe as tiragens das grandes obras eram baixíssimas, e as camadas médias – as que nos dias de hoje colorem figuras – eram, de modo geral, analfabetas.

É verdade, mas infelizmente não podemos nos acomodar aos padrões daquele tempo. O século XIX trouxe um fenômeno inédito na História, a democracia moderna. As poucas pessoas que dirigiam os assuntos públicos há trezentos anos eram os que detinham o monopólio da cultura. Já o funcionamento da democracia depende de que cada cidadão tenha informação suficiente e seja capaz de raciocinar criticamente, pois todos somos titulares de direito e sujeitos políticos.

No fundo, o que esta bossa dos cadernos de colorir deixa mais claro é que as pessoas estão dispostas a comprar qualquer coisa que se venda com um marketing bem feito, por mais inútil ou estúpida que seja. E penso que a única arma que a mente tem para resistir de forma crítica à propaganda é a verdadeira cultura, aquela que se adquire lendo livros, não colorindo.

Imagens: Gazeta do Povo, Ouro de Tolo e RBS