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O esporte americano é todo baseado em um sistema que procura desenvolver o atleta desde a sua vida escolar, passando pelo processo universitário, até que ele esteja lapidado como esportista profissional. De todo este processo, o momento crucial acaba sendo a etapa universitária. Como o atleta ganha bolsas de estudo, e não salários, para cursar as faculdades, mesmo que seu desempenho esportivo não o leve para uma carreira profissional, há a opção de estudo e de um provável diploma para que outros caminhos sejam pavimentados.

De todas as modalidades, duas se sobressaem no mundo esportivo universitário dos EUA: o basquete e o futebol americano. Em ambos, há uma parcela considerável de gente que prefere o campeonato universitário ao profissional, fora que as audiências televisivas chegam a ser muito próximas se compararmos os dois cenários.

Das universidades, a NFL coleta a grande parte dos seus jogadores. Isso acontece por meio de um sistema de recrutamento, o draft, no qual os times profissionais selecionam os jogadores que desejarem para composição das equipes. Um jogador pode jogar quatro temporadas no universitário, tendo direito a mais um ano, caso ele tenha sofrido uma lesão grave ou não seja colocado no elenco no primeiro ano – algo frequente no futebol americano.

No caso do futebol americano, o campeonato universitário – o college football, para os mais íntimos – tem particularidades que o tornam ainda mais atrativo. Basta dizer que a modalidade surgiu e se formou nas universidades, ou seja, há um acumulo de uma riquíssima história.

Army v NavyComeçando pelas intensas rivalidades, confrontos que se repetem anualmente há mais de um século. Como exemplos temos Ohio State contra Michigan, denominado de The Game, por envolver duas das mais tradicionais universidades do esporte; ou então Harvard x Yale, o duelo das escolas onde o esporte foi criado. Há também rivalidades entre as academias das forças armadas, como Army x Navy (Exército x Marinha, foto ao lado) e, logicamente, as que são forjadas pela proximidade geográfica e força dentro dos estados, como Alabama x Auburn, o Iron Bowl, no Alabama, possivelmente a grande rivalidade do esporte americano atualmente, e outras, como Oregon x Oregon State, denominada singelamente de Civil War (Guerra Cívil, em português).

Além disso, há as bandas marciais, que somadas com a paixão do torcedor universitário, fazem os estádios serem o mais próximo do que vemos no futebol dentro do esporte americano.

Falando em estádios, também impressionam o tamanho deles. Dos 20 maiores estádios do mundo, 13 estão no futebol americano universitário, sendo que sete têm capacidade para mais de 100 mil pessoas. Dentre eles, o Michigan Stadium é o maior. A casa da Universidade de Michigan pode receber, oficialmente, 109.901 pessoas, o terceiro maior estádio do planeta. Não à toa, é apelidado de The Big House.

Para fechar, as curiosas tradições que cada torcida mantém, servem para temperar o cenário de intensidade e paixão. Um grande exemplo é o Jump Around feito pela torcida de Wisconsin a cada início de quarto período. O vídeo abaixo é autoexplicativo.

O grande porém do futebol americano em nível universitário sempre foi, justamente, a decisão do campeão. Como são muitos times e conferências (127 e 10, respectivamente, na atualidade), e não dá pra colocar todos jogando contra todos, fica difícil criar um sistema a contento. Para complicar, costumes do passado dificultaram mais ainda isso ao longo da história.

rose-bowl-stadium-531570A primeira tentativa de sagrar um “campeão” do College Football surgiu em 1902, com a criação de um jogo que reunia times do leste e oeste americano. O jogo fazia parte do Torneio das Rosas, evento tradicional da virada do ano em Pasadena, nos arredores de Los Angeles, e é realizado num estádio com formato de tigela (bowl). Pronto, eis o Rose Bowl (ao lado). Aliás, a palavra bowl também se tornaria sinônimo de jogos decisivos do futebol americano, influenciando o pessoal da NFL, na hora de decidir pelo nome Super Bowl. A “Tigela de Rosas” também seria palco do quarto título da seleção brasileira, anos mais tarde.

A partir disso e com mais programas e conferências surgindo, apareceram mais e mais bowls. Desta forma, o americano, viciado em estatística, diante da impossibilidade de botar todos contra e todos, resolveu criar rankings para definir os campeões universitários, organizados por jornalistas (da Associated Press, principalmente) ou técnicos.

É mais do que lógico que ao longo do tempo as inconsistências foram inúmeras, já que não havia muito consenso e, muitas vezes, os melhores times não se enfrentavam em um bowl comum. Isso até 1998, quando foi criado o BCS, Bowl Championship Series. O sistema consistia em fazer uma média dos rankings existentes e, no fim da temporada, o dois melhores ranqueados se enfrentariam no Rose, Sugar, Fiesta ou Orange Bowl, com o local sendo definido em rodízio.

Em 2005, um jogo a parte, seguindo tal rodízio, foi criado. Mas a lógica continuou sendo a mesma. A diferença é que um dos quatro bowls do BCS não seria usado como final propriamente dita. Os quatro jogos serviam como duelos comemorativos entre campeões das conferências fortes e times com boas campanhas. Vitórias que davam prestígio e dinheiro para o programa atlético das universidades, ajudando no fortalecimento delas, e também para as conferências do vencedor.

Para 2014, finalmente um playoff foi instituído, algo que até o presidente Barack Obama clamava. A logística era parecida, só que um comitê de 13 especialistas na modalidade teria o poder de decisão – dentre eles a ex-secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice. A cada semana, o comitê divulgaria um ranking com os 25 melhores times e, no fim da temporada, os quatro melhores iriam aos playoffs.

Mais uma vez, a polêmica foi presente. Apesar dos quatro escolhidos (Alabama, Oregon, Florida State e Ohio State) me parecerem justos, a questão é que TCU, Texas Christian University, era ranqueada como terceira até a penúltima lista. Mesmo vencendo seu último jogo por 55-3, a equipe caiu três posições, algo que ocorre normalmente em derrotas!

130714222253-obama-college-football-single-image-cutO argumento é que a conferência de TCU, a Big 12, não tem uma final, ao contrário das outras quatro conferências principais e que são privilegiadas nas escolhas e rankings (a Big 10, Pacific-12, a Atlantic Coast e a Southeastern).

Enfim, apesar da controvérsia, os times estão escolhidos. As semifinais se darão, em rodízio, entre dois de seis bowls principais, e não mais quatro como no BCS. Os ganhadores fazem a final em um jogo à parte, neste ano em Dallas.

Alabama (#1) e Ohio State (#4) duelam no Sugar Bowl. Alabama tem três títulos nas últimas cinco temporadas, o melhor técnico do college, Nick Saban, e um ótimo ataque, com destaque para o wide reciever Amari Cooper. O Crimson Tide também faz parte da Southeatern Conference, a SEC, a conferência mais forte do universitário, que venceu todos os títulos de 2005 a 2012. Já Ohio State destruiu Wisconsin por 59-0 na final da Big 10, o que garantiu a vaga da equipe no playoff. Problema é que os Buckeyes vão jogar com o terceiro quarterback…

Na outra semifinal, que ocorrerá no Rose Bowl, o número dois, Oregon, enfrenta Florida State, atual campeã e única invicta da temporada, mas que venceu a maioria dos 13 jogos na bacia das almas. Oregon tem o vencedor do Troféu Heisman, dado ao melhor jogador do ano, Marcus Mariota. O quarterback é tido como o principal jogador disponível do próximo draft da NFL, por mostrar precisão no passe, e se encaixar nos ataques que fazem certo sucesso na NFL atual, em que o QB é usado como corredor – apesar de que QBs corredores não costumam se criar na liga, por causa das defesas mais fortes que no universitário.

As semifinais, mais os quatro principais bowls, muito prestigiados, e que receberão o playoff nos próximos anos, acontecem em 31/12 e 1º/1. Além disso, há outros 30 bowls menores* e comemorativos que movimentam o calendário a partir do dia 20. A ESPN passa uma boa parte deles. É uma boa opção para o escasso calendário esportivo da época, e um momento de êxtase para os fãs da bola oval. A final ocorre em 12/1.

peach-650x342-620x342Segue a tabela dos bowls maiores** e do playoff, que vão ao ar pela ESPN:

Dia 31/12 – Peach Bowl (Atlanta): #6 TCU x #9 Ole Miss Rebels, 15:30. Fiesta Bowl (Glendale, Arizona): #10 Arizona x #20 Boise State, 19:00. Orange Bowl (Miami): #7 Mississippi State x #12 Georgia Tech, 22:30.

Dia 1º/1 – Cotton Bowl (Arlington, Texas): #5 Baylor x #8 Michigan State, 16:00. Rose Bowl, semifinal (Pasadena, Cailfornia): #2 Oregon x #3 Florida State, 20:00. Sugar Bowl, semifinal (Nova Orleans): #1 Alabama x #4 Ohio State, 23:30.

Dia 12/1 – Final (Arlington, Texas – arredores de Dallas), 23:30***.

* Há diversos critérios para cada jogo, mas o requisito mínimo para um time ir a um bowl é ter vencido seis jogos durante a temporada.

** Assim como os playoffs, os participantes dos outros bowls maiores, os New Year’s Six, também são definidos pelo comitê dos 13.

*** Todos os horários são de Brasília.

[N.do.E.: como praticamente toda a torcida brasileira do NY Giants, no college football torço por Ole Miss Rebels, do Mississipi, universidade onde jogaram Eli Manning e seu pai, Archie. PM]

One Reply to “Virada do ano: a apoteose do futebol americano universitário”

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