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Neste domingo temos mais uma edição da coluna “Bissexta”, assinada pelo advogado Walter Monteiro. O assunto da coluna de hoje é um preconceito muito peculiar, mas sério: o que ocorre contra os gordinhos.

O curioso é que em boa parte da minha vida sofri o preconceito inverso: era extremamente magro, muito mesmo, inclusive com insinuações de que teria doenças incuráveis. Mas hoje, trinta quilos depois, estou mais para sobrepeso que para exatamente “magrinho”.

A Minoria Esquecida

Uma das vantagens de morar no Rio Grande do Sul é que a pessoa fica rodeada de mulheres bonitas. Uma dessas é uma jovem advogada que conheço vagamente, por amigos em comum. Ela conseguiu um bom emprego em um escritório de advocacia, uma chance de alavancar a carreira profissional. A moça está sempre elegante, tem um sorriso quase que de cristal de tão branco que é, longos cabelos dourados e bem cuidados, um namorado boa pinta, outros interessados na fila, muitas e muitas amigas, tão ‘gatas’ quanto ela própria. Entretanto, não é nenhuma sílfide. Eu me arriscaria dizer que deve vestir manequim 44. Nada demais, apenas um pouco “cheinha”, como se dizia antanhos.

No primeiro dia no seu novo emprego o dono do escritório reuniu os recém-contratados para expor a filosofia de trabalho da organização. Lembrando a todos que oferecia condições de remuneração bem acima do mercado, disse que esperava da equipe um comprometimento aos valores do escritório, dentre os quais a crença de que uma pessoa que é relaxada com o próprio corpo tende a ser igualmente deficiente no trato das coisas profissionais.

E que na visão dele pessoas acima do peso seriam o símbolo maior desse desleixo. A minha conhecida, coitada, passou recibo da advertência e mergulhou em uma dieta radical. Encontrei-a dias atrás, uns cinco quilos mais magra, o vestido sobrando no corpo, uns olhos de mormaço, o sorriso escondido. Tudo para se adequar à filosofia do escritório de advocacia que sonhava ser uma academia de yoga.

Também recentemente conheci uma enfermeira, cinco anos de experiência em UTI Neonatal em dois hospitais de prestígio na cidade. Sabe-se lá o porquê, mas a moça começou a engordar acima do esperado e realmente ficou totalmente ‘overweight’, para ser delicado. Convenhamos, problema dela, né? Ledo engano! A tendência, nesse segmento, é que um enfermeiro acima do peso passa uma imagem pouco saudável e isso não seria bem interpretado pelos pacientes. Demitiram a enfermeira e ela hoje sonha em passar em um concurso público, onde, felizmente, as pessoas ainda não são julgadas exclusivamente pela aparência externa.

É possível que o leitor já tenha ouvido falar no documentário ‘Super Size Me’, onde o cineasta Morgan Spurlock passou 30 dias se alimentando exclusivamente no McDonald’s, o que deteriorou sua saúde e lhe adicionou 14 quilos em um único mês por conta da dieta de 5 mil calorias diárias. O filme foi tão impactante que o próprio McDonald’s e outras redes de fast food passaram a incluir no cardápio opções mais saudáveis.

Muito pouco comentada, porém, foi a experiência de um segundo documentário, propositalmente chamado de Down Size Me. Uma mulher de 49 anos adotou a mesma premissa e se alimentou exclusivamente no McDonald’s por 60 dias, com pequenas diferenças, como fazer apenas três refeições ao dia, se exercitar ocasionalmente e tomar decisões racionais sobre a forma de se alimentar e viver. Para espanto geral, Soso Whaley PERDEU 4,5kg e melhorou seu nível de colesterol, a despeito de sua criticada dieta.

O que a experiência revela? Bom, dentre outras coisas, que a fisiologia de cada ser humano pode ser decisiva para saber se alguém vai ser gordo ou magro. Spurlock tinha uma óbvia propensão a engordar e Whaley está predestinada a ser magra.

O aspecto da fisiologia, infelizmente, é constantemente posto de lado quando se trata de gente gorda.  Há gente alta e gente baixa. Há calvos e cabeludos. Há diferenças de todos os tipos e origens notáveis nos seres humanos. Todas elas percebidas e aceitas como parte essencial do código genético que herdamos. A menos que você seja gordo. Aí a culpa é sua, você que emagreça, que se adeque, que cultive uma aparência dita saudável.

Minha avó, que Deus a tenha, era gorda. Meu pai é gordo. Eu sou gordo (peso em torno de 100kg). Algumas vezes, à custa de muito esforço, consegui emagrecer a ponto de ser menos gordo (embora nunca tenha deixado de sê-lo inteiramente). Mas isso me obrigava a ter uma vida de renúncias a muitos prazeres que outras pessoas desfrutam sem maiores consequências, como beber uma ou duas vezes por semana, comer pizza ou doces ou fazer exercícios apenas alguns dias.

Para que eu possa pesar menos de 80kg o meu biótipo exige que eu faça umas dez horas de exercício por semana, que tenha uma dieta de 1.200 calorias por dia, que praticamente pare de beber. Isso para sempre. É o que se chama polidamente de “reeducação alimentar”.

Eu prefiro chamar de alienação. Desisti.

Preferi estacionar nos 100kg, me preocupar apenas com a minha saúde (que vai bem, obrigado) e fazer exercícios só para combater o sedentarismo. Sou muito mais saudável, física e mentalmente, do que homens e mulheres da minha idade, que insistem em ter aos quarenta e poucos anos o peso que tinham aos dezesseis.

A aceitação do meu corpo natural, entretanto, não me cega a ponto de não me incomodar com o sofrimento dos que nasceram iguais a mim. Essa é a verdadeira minoria sofrida, a que ninguém defende e ainda olha com um ar de desprezo…