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Com a vitória do samba número 10 – o popular “samba do Juremê” – na Beija-Flor de Nilópolis terminou na semana passada mais uma temporada das eliminatórias de samba-enredo nas escolas de samba do Rio de Janeiro.

É hora, então, de começar a se acostumar com cada obra, decorar cada verso, começar a palpitar, enfim. Mas, antes, acho que o mundo do samba deve usar esse período anterior aos ensaios técnicos para fazer uma profunda reflexão sobre o presente e, principalmente, o futuro desse sistema falido de disputa de samba-enredo.

Antes de mais nada, é preciso fazer justiça: o debate existe há muito tempo. Não é de hoje que vem ano e vai ano, muita gente reclama de muita coisa quando chega a hora das eliminatórias. Acho, porém, que as escolas de samba – que, fazendo justiça novamente, vêm tratando os concursos com seriedade e escolhendo, com cada vez menos exceções, os melhores sambas de fato – falam muito pouco sobre o assunto em suas estruturas internas.

Não à toa temos tão poucas mudanças ao longo dos últimos anos. Um formato de mata-mata aqui, uma eliminatória restrita aos segmentos ali, mas nada que tenha persistido ou tenha sido copiado. Até porque, em minha humilde opinião, tanto o formato atual quanto as (poucas) alternativas buscadas partem de uma premissa errada.

Disputa de samba tem cara, jeito e sistema de concurso musical. Mas não pode mais ser levada dessa forma. Por um motivo muito simples: “concurso”, “campeonato”, “competição” ou qualquer coisa que o valha carrega consigo uma objetividade que não serve para essa situação. A finalidade de um concurso é escolher o mais competente, o que melhor disputou aquele concurso. Acabou, acabou.

Com a disputa de samba, é justamente o contrário: a definição do vencedor é apenas o início de sua jornada por esse planeta.

Por exemplo: se em um concurso musical clássico uma obra se apresenta superior a outra em 50 etapas, mas é inferior na final, ela perde. É o conceito de um concurso, afinal. Se não fosse, não haveria uma final. Na disputa de samba, não pode ser assim.

Na verdade, é possível (ou deveria ser) que um samba que não se apresentou melhor em nenhuma etapa seja escolhido com justiça, desde que a escola entenda que ele será o melhor nas mãos da agremiação. É que, por mil fatores (qualidade do cantor talvez seja o maior deles) algumas parcerias levam para a quadra um samba pronto, maduro. Dali não sai mais nada.

Outras, mesmo ao longo das semanas, não conseguem amadurecer. Se a escola tiver a consciência de que conseguirá e que, maduro, esta obra superará a que vem se destacando, por que não pode – ou melhor, não deve – contrariar toda a sua comunidade e escolher o patinho feio? O que a impede?

A lógica “concurso musical” de justiça que ainda impera nas disputas.

A outra diferença enorme das disputas para os concursos mais comuns é que, nas disputas, um “participante” gasta mais de 100 mil reais ao longo das semanas. As pessoas abandonam a família, o trabalho, comprometem as finanças, praticamente vendem a vida para um samba por três meses. Não é justo, de fato, que, depois de tudo isso, alguém que tenha sido inferior ao longo de todo o tempo ganhe, por mais que seja mais coerente ao que deveria ser o propósito do negócio.

Portanto, unindo essas duas premissas, ou seja: admitindo que os gastos estratosféricos e a megalomania do processo o afastam de sua finalidade maior (oferecer o melhor samba possível para a agremiação), torna-se óbvio concluir que o primeiro inimigo de uma disputa de samba mais saudável é justamente o inchamento surreal do processo. E aí a culpa é 100% das escolas, todas elas, pelo que fizeram ao longo dos anos.

Um dia algum infeliz decidiu que esse período entre julho e outubro seria perfeito para as escolas lucrarem. Maldita ideia! Dali em diante, as parcerias foram obrigadas a encher ônibus com torcedores de fachada, que consomem a cervejinha que de repente pode pagar a luz da quadra.

E nem é uma questão de opção porque daí surgiu a moda de fazer passadas inteiras do samba só com a “torcida” cantando. É um gasto enorme, desnecessário e que não ajuda, sob nenhum ângulo (nem o da lógica de concurso, nem o da lógica da eficiência do processo) a escola a escolher o melhor samba.

Como consequência disso, surgiu também a ideia de que é preciso fazer 415 apresentações na quadra. Em 412, não tem ninguém além das “torcidas” na quadra – mesmo porque em disputas com 30 sambas, dificilmente mais de seis são suportáveis.

E a cada apresentação, multiplicam-se os gastos e aumenta-se a importância de levar em conta apenas o que acontece ali na quadra para não cometer nenhuma injustiça com quem gastou tanto por tanto tempo e se desgastou física e emocionalmente.

Porque essa é outra questão inacreditável: as eliminatórias acontecem em horário obscenos, de matar qualquer um. Por que, afinal de contas, eliminatória de samba-enredo precisa ser de madrugada? Isso apenas deixa as pessoas mais cansadas, mais desgastadas e afasta o público de fora.

Pois só sendo muito louco por Carnaval pra se enfiar em uma quadra de escola de samba para ver eliminatória – e nas raras ocasiões em que há apelo popular, os diretores ainda fazem o favor de deixar os espaços superlotados, quase que pedindo por uma tragédia que (bate na madeira!) infelizmente parece mais uma questão de “quando” que de “se”.

Resumo da ópera: as eliminatórias são insanamente longas, inaceitavelmente caras, insuportavelmente noturnas e pateticamente ineficientes. Muitas vezes se escolhe o melhor samba da disputa – ultimamente, diria que quase sempre. O que não significa (embora seja um caminho natural) que garanta o melhor samba possível para a escola. No entanto, o preço é alto, sobretudo na saúde dos envolvidos. Tanto que considero um milagre que tenha demorado tanto para acontecer um incidente como esse que vimos na quadra da Portela neste ano.

Depois de tanto criticar, agora vou sugerir como seria minha disputa de samba ideal. A ideia seria abdicar de qualquer lógica, qualquer formato, qualquer regulamento. Tirar dos compositores a pressão e a vaidade. Ivo Meirelles certa vez teve uma grande ideia de “esconder” os nomes dos compositores na Mangueira.

Não acho que seja para tanto, mas acho sim que eles devem aparecer o mínimo possível. Quem deve cuidar do samba é a escola. E isso ficaria caro. Assim, “lucro” seria uma palavra limada do meu vocabulário. Seria a última preocupação. O que dá lucro é título e é para isso que se faz Carnaval.

Portanto, cobraria sim dos compositores uma boa gravação e só. Depois, levaria todos para se apresentar na quadra. Ficariam na disputa, no entanto, apenas aqueles que pudessem vencer. É completamente absurdo começar uma disputa com 30 sambas e cortar para 24 quando se sabe que só cinco podem ganhar. Ora, que fiquem apenas os cinco. Melhor os cinco se apresentarem por 20 minutos do que os 24 por duas passadas.

Se acontecesse algo que muitas vezes acontece na Vila Isabel (embora não este ano), onde nem é preciso terminar de ouvir os sambas para concluir qual o melhor, seria mais fácil ainda. Terminou a primeira apresentação? Pega o microfone, encerra a disputa e diz que em um dia tal vai ser anunciado o samba.

Para que fazer todo mundo gastar dinheiro para algo que já está decidido? Isso só se justifica se houver público para isso. Não há.

Além disso, com poucos sambas na disputa (cinco, no máximo) o compositor também não deve mais ser obrigado a gastar com o palco uma vez que o próprio intérprete oficial junto com a ala musical e a bateria são capazes de dominar as obras. E vou além: a escola deve ter a liberdade de fazer o teste que bem entender. Gravar 30 vezes cada samba, mexer na letra, na melodia e, se não der certo, mudar tudo de novo na apresentação seguinte. Perseguir, sempre, o melhor resultado final, a eficiência.

E, para isso, restringir a escolha a um corpo de especialistas dedicados somente a isso. Três, quatro pessoas no máximo. Claro que a opinião dos segmentos é fundamental. Da comunidade, idem. Mas exatamente assim: como opinião. Tem escolas que dão direito a voto para 100 pessoas, nem todas com conhecimento técnico ou isonomia necessários.

Mais um fator que vicia as disputas.

Como as finais de samba-enredo ainda são um enorme sucesso de público, isso eu manteria. Mas de um jeito bem diferente. Em primeiro lugar, com o samba já decidido pela escola, apesar de ainda não estar anunciado. Não chamaria os sambas remanescentes para se apresentar mais uma vez. Primeiro porque seria um gasto desnecessário. Depois, porque traz um clima bélico, pesado, tenso em um dia que deveria ser de festa.

Seria um dia para chamar as coirmãs, fazer apresentações de apelo popular ainda maior e, no fim, cantar o samba escolhido. A última a anunciar poderia até fazer um “lançamento pré-oficial” dos sambas com apresentações das outras 11 obras e, por fim, o anúncio da sua. Ideias não faltariam e ainda pingariam uns belos caraminguás para pagar os custos que a escola teria ao abdicar da busca pela grana.

Além disso, resolveria outro problema enorme: teve escola que escolheu o samba em um dia e dois dias depois já estava gravando na Cidade do Samba. Que tempo teve para maturar, cuidar, ajeitar, ajustar? Nenhum. Com uma disputa mais racional, seria possível resolver tudo em setembro e, assim, ter pelo menos uns 15 ou 20 dias para dar os retoques finais. Evitaria ainda a desagradável surpresa que a Avenida as vezes nos traz, com sambas cantados em tons diferentes daqueles apresentados no CD oficial, que é o cartão postal de cada Carnaval para o grande público.

A safra 2017 está aí. Uma boa safra, concretizando o processo de retomada do gênero e coroando a seriedade maior dada às escolas para as disputas. Mas o sistema segue sendo muito ruim. E, enquanto não mudar, vai continuar sendo o palco perfeito para pancadarias, reclamações e um desgaste que emperrará a renovação das alas de compositores e a qualidade das obras, justamente os dois fatores essenciais para o crescimento da festa.

Imagem: Arquivo Ouro de Tolo

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2 Replies to “Repensando as Disputas de Samba”

  1. Penso de forma igual: gravação em áudio, manda pra escola. Se passar de 30, a escola coloca apenas 30 para início da disputa.

    Eu deixaria, por duas semanas no site oficial da escola (ou então tocando na quadra, tipo BG) apenas para a opinião dos verdadeiros torcedores da escola. Depois disso, a escola anuncia os cinco finalistas. Pronto!

    Sobre a final, concordo com você: anunciar só o samba campeão, sem desgastar a todos.

    Algo que deveria ser simples se transforma em uma tortura à toa!!

  2. Parabéns pelo texto, tenho a mesma opinião. Muitas semanas de pura “encheção”(sic) de linguiça, pra vender cerveja para um público que em sua maioria nem está prestando atenção nos sambas.

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