Senhores Deputados,
Foi com profunda preocupação que recebi a notícia de que  o Deputado e pastor evangélico Edson Albertassi, membro dessa casa, apresentou um projeto com o objetivo de anular a lei que declara a Umbanda e o Candomblé bens imateriais do Estado do Rio de Janeiro. O mesmo parlamentar tem, sistematicamente, apresentado projetos de lei que atacam frontalmente as crenças afro-brasileiras e ameríndias em nome do que ele mesmo chama de conduta cristã.
Em um contexto em que demonstrações de intolerância religiosa se tornam cada vez mais costumeiras, a proposta do cruzado-legislador com sede de guerra santa se configura como ameaça aos princípios da tolerância e do respeito às diferenças, elementos básicos para o convívio fraterno da comunidade.
Certa feita escrevi um texto sobre a religiosidade brasileira e a relação de nosso povo com as divindades. Cito alguns trechos, nesse momento em que nossos ritos sofrem toda sorte de ataques, do que então expressei:
“Somos, os brasileiros,  filhos do mais improvável dos casamentos, entre o meu compadre Exu e a Senhora Aparecida – a prova maior de que o amor funciona. E Tupã, que se vestiu com o cocar mais bonito para a ocasião, celebrou a cerimônia entre a cachaça e a água benta.
Uma das nossas mãos está calejada pelo contato com a corda santa do Círio de Nazaré – a outra tem os calos gerados pelo couro do atabaque que evoca as entidades. As mãos do Brasil e do seu povo.
Nossos ancestrais passeiam pela vastidão da praia sagrada dos índios de Morená, retornam à Aruanda nas noites de lua cheia, silenciam no Orum misterioso das almas e florescem encantados nas folhas da Jurema.
Os guerreiros de nossas tropas trazem a bandeira do Humaitá, o escudo de Ogum e o estandarte da pomba branca do Divino Espírito Santo – a mesma pomba que pousou na ponta do opaxorô de Obatalá. São essas as nossas divisas de guerra e paz; exércitos do Brasil.”
Escrevi isso porque, senhores deputados, nasci e cresci dentro de um terreiro de macumba. Falo dessa procedência com orgulho tremendo. Minha avó era mãe de santo na Baixada Fluminense do Rio de Janeiro, versada nos segredos da jurema e da encantaria. Fui, por isso mesmo, batizado nos conformes da curimba – protegido pelo caboclo Pery e pelo Exu Tranca Rua das Almas e oferecido aos cuidados da lua velha, num terreiro grande de Nova Iguaçu.
Tive uma infância alumiada pelo rufar dos tambores brasileiros e pelo alumbramento com os caboclos de pena e os marujos e boiadeiros da minha macaia querida. Quem viu, viu – e sabe do que eu falo.
Em um certo momento busquei as raízes mais profundas. Fui ao candomblé, me iniciei, recebi um cargo, cantei em iorubá e conheci a religiosidade afro-caribenha. Em meu peito, todavia, continuou batendo forte a virada dos caboclos do Brasil. De mim, que atravessei o mar só para ver a juremeira, isso ninguém tira !
Conversei com Seu Zé; recebi conselhos de Seu Tranca Ruas; vi a dança de guerra de Seu Tupinambá; fui seduzido pela beleza de Mariana e pela saudade de seu navio; temi a presença de Seu Caveira; cantei a delicadeza da pedrinha miudinha; respeitei o cachimbo velho de Pai Joaquim; me emocionei quando Cambinda estremeceu para segurar o touro bravo e amarrar o bicho no mourão do tempo.
É por isso, pelo meu encanto pela Mãe d´Água, pelo temor amoroso ao caboclo Japetequara – veterano bugre do Humaitá – pela reverência aos que correram gira pelo norte, que me emociono com os santos brasileiros, pretos e índios como nós – por amor ao Brasil ! Amor bonito e dedicado, feito o cocar de Sete Flechas e o diadema de Seu Sucuri no limiar das luas.
É por tudo isso ainda, senhores, que afirmo: Não queremos converter e não queremos ser convertidos. Queremos crer apenas que o Pai maior, em Sua sabedoria, revelou-se a cada povo trajando a roupa que lhe pareceu mais conveniente para que os homens o reconhecessem, feito Zambiapungo e Olorum nos infinitos e Tupã nas matas. 
Os deuses que vieram dos porões dos tumbeiros e das florestas do Brasil  amenizaram séculos de dor e sofrimento e forjaram a armadura da resistência e da dignidade de um povo. Os deuses do Brasil nos ensinaram a olhar a natureza com os contornos da poesia e a delicadeza dos ritos imemoriais. Essa é a tessitura nossa de olhar o mundo.
Divinizamos os homens e humanizamos os deuses para construir uma civilização amorosa nos confins do ocidente. Em nome do oxê de Xangô, do pilão de Oxaguiã, do xaxará de Omolu e do ofá de Oxossi não há um só genocídio perpetrado na face da terra. Nunca houve qualquer guerra religiosa em que se massacraram centenas de milhares de seres humanos em nome da fé nos encantados e orixás. A insígnia de nossos deuses nunca foi a mortalha de homens comuns – nós apenas batemos tambor e dançamos, não morremos ou matamos pela nossa fé.
Eu conheci e (me) reconheci (no) meu deus enquanto ele dançava, no corpo de uma yaô, ao ritmo do vento que balançava as folhas sagradas do mariô, amansando o chão de terra batida à virada do rum. Meu general, com a majestade dos seus passos, fazia farfalhar a copa dendezeiro com a destreza de sua adaga africana. O alfanje de Ogum alumiou meu mundo.
Que cada um tenha o direito de encontrar o mistério do que lhe é pertencimento, em gentileza e gestos de silêncio, toques de tambor e cantos de celebração da vida. 
Olorum Modupé, Nzambi-ampungu!
Luiz Antonio Simas, Ifábiyi.

16 Replies to “CARTA ABERTA AOS MEMBROS DA ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO”

  1. Simão, eu me preparava para escrever maus bocados para o deputado quando li isso aqui. Não sei, não… fico sempre com a impressão de que, com essa gente, quanto mais se grita mais eles se animam. Talvez a tua saida seja bem melhor do que a que eu imaginava… Vou pensar um bocado. este é mais um texto fundamental!

    Axé, velho! Saravá! Olorum Modupé! Iboru Boya!

  2. Cantamos os nossos orixás com imenso orgulho, porque o sagrado assim se nos revela. Nosso coração assim pede. Nossa alma assim vibra.

    Dentre as muitas frases definitivas do seu texto, destaco:

    É por isso, senhores, que afirmo: Não queremos converter e não queremos ser convertidos.

    Nosso credo é de profunda paz; de intensa harmonia com a natureza e com as coisas simples e – talvez por isso – sábias. Nosso caráter assim foi formado, e é assim que nos tornamos pessoas de bem.

    Enquanto minha voz aguentar uma puxada de curimba, estarei lá, louvando meus guias e meus orixás. E quando ela não mais aguentar, com o maior prazer do mundo, vou ficar admirando as belezas que este Brasil me dá e que os meus mais velhos souberam me mostrar.

    A ninguém pode ser dado o direito de atacar isso; de calar isso. Isso não é “liberdade religiosa”, como prega o senhor Albertassi, que chega a dizer que a lei “amordaça os pastores”. É preconceito; é intolerância.

    E o preconceito e a intolerância não podem prevalecer quando se quer construir um mundo de bem.

    Seu texto é mais que uma carta aberta. Pra mim, é um abaixo-assinado.

    Por isso, assino embaixo e faço coro.

    Axé, meu velho!

  3. salve, professor,

    como ateu e testemunha de milagres com esses olhos que a terra há de comer, parabenizo o bom combate do professor contra a canalhice desse deputado – de qual partido, hein?
    que o espírito de ganga zumba lhe atormente o juízo mais do que já é perturbado. cretino!

    abçs

    carlos-fort-ce

  4. Grande Simas, mestre que aprendi a admirar através do Edu:
    Não sou praticante, porque rebelde, mas, ao ler seu texto, senti a presença de velhos e bons amigos como Vovó Cambinda da Guiné, João Baiano das Sete Miçangas, Pai Joaquim do Congo e muitos outros.
    Pau nesse boçal do Albertassi é sempre bem vindo!
    Você foi até educado demais, como sói a um mestre…
    Assino embaixo também. Abraços.

  5. Graças a Deus temos homens atentos como você para defender o que resta de belo e verdadeiro nesse país.

    Obrigado pelo texto, Simas. Estou reproduzindo lá no meu blog (botecodoganso.blogspot.com).

    Não tenho orgulho algum em dizer que o nobre deputado é aqui da minha cidade (Volta Redonda). Inicia-se nesse momento minha campanha contra sua reeleição.

    Abraço.

  6. Eu não conhecia a umbanda e o candomblé (na verdade, até hoje não sei a diferença entre eles), mas tive contato com essa religião num episódio muito bacana, que guardo com carinho na memória.

    Eu estava sozinho em casa, numa cidade do interior do Pará, quando comecei a ouvir uns tambores na rua de trás. Eu sabia que tinha um terreiro lá. Sem nada pra fazer, fui dar uma volta pra ver o que estava acontecendo.

    Era festa de Iansã. Tinha vários filhos de santo que iam fazer sua iniciação naquele dia, eu acho. As portas do terreiro estavam abertas, e eu entrei, apesar de não conhecer ninguém. Todo mundo comendo e bebendo. Eu fui até o balcão do bar e pedi para COMPRAR uma cerveja, e fiquei um tanto envergonhado quando o atendente disse que lá “não se comprava não”. Eu perguntei se era uma festa particular, e ele disse que não, todo mundo podia participar. E me DEU uma cerveja.

    Depois me deram comida também. Vi a dança dos filhos de santo, e era linda. O altar era cheio de estátuas, inclusive de São Jorge, de quem sou devoto. Fiz amizade com vários frequentadores, que pareceram uma gente muito simpática.

    A lembrança que tenho é de tolerância e de uma festa muito bonita. Guardo-a sempre no coração.

  7. Prezado Simas!
    Estamos juntos! Não sou umbandista, nem candomblecista. Entretanto, tenho enorme respeito por essas duas formas de entender o sagrado. Por diversas vezes frequentei o terreiro comandado por minha madrinha em Nova Iguaçu. Deliciava-me com as festas de Cosme & Damião….as festas de Preto Velho….Vovó Cambinda que me dava conselhos……tinha um certo medo de Ogum Beira-Mar que chegava “batendo forte”. Segundo os búzios sou filho de Oxalá, o velho e confesso que fiquei muito, mas muito feliz em saber disso!!!
    Contra a intolerância, em qualquer campo da vida!!!
    Cordiais saudações!
    Orlando Rey

  8. Mestre este texto, você não escreveu só, certamente estava acompanhado, apesar de ninguem estar por perto.
    Creio que muito bem acompanhado.

    AVE
    SARAVÁ
    Abraços

    Jairo

  9. Querido Simas, embora não seja praticante, fui criado no seio da igreja Batista e conheço seus dogmas de conversão e puritanismo. Fico triste em ver que os sinais de fundamentalismo radical mais evidentes que temos visto ultimamente vêm justamente de pastores que se dão o direito de usar a palavra sagrada em nome do ódio, do racismo e da intolerância cultural e religiosa. Eles estão por fora e o que me anima é que, diferentemente dos EUA, aqui, neste país belo e mestiço, eles não se criam. Em tempo, bela resenha do livro do Nei. Me permiti fazer um comentário no Pendura Essa. Grande abraço. pt.

  10. Lula
    Faço minha as palavras do Felipe
    “Seu texto é mais que uma carta aberta. Pra mim, é um abaixo-assinado”.
    Por isso, assino embaixo.

    Vamos a luta junto com nossos Encantados.

  11. Como falei antes, reproduzi o texto no meu blog (botecodoganso.blogspot.com). Eis o comentário que o nobre deputado deixou lá:

    CARTA ABERTA AOS PRATICANTES DA UMBANDA E CANDOMBLÉ
    É com muito respeito que me dirijo a todos que se interessam pelo assunto. Tenho tido muita preocupação com as leis que transformaram a umbanda e candomblé e seus orixás em patrimônio imaterial do Estado do Rio, pois diferente da intenção dos autores, Átila Nunes e Gilberto Palmares, estas leis ferem a liberdade religiosa em nosso Estado, pois interferem diretamente na liturgia praticada pelos evangélicos e católicos. Tenho certeza de que os projetos foram apresentados para homenagear as religiões afro, e não interferir nas práticas das demais religiões, mas infelizmente foi o que aconteceu. A liberdade religiosa conquistada quando da aprovação da constituição brasileira está ameaçada, pois com estas leis, deixamos de atuar no campo religioso para atuarmos no campo do patrimônio imaterial, que tem artigo próprio na mesma constituição. Com base em pareceres de juristas sobre a preservação de patrimônios imateriais é que pedi a revogação das leis. Externei isto no meu voto em plenário, quando da votação das matérias. Me espanta ver este assunto distorcido, até porque, sempre lutarei pela liberdade religiosa em nosso país. Colocaram uma frase em minha boca, que eu jamais diria, “Não se trata de nada pessoal contra ele (Átila Nunes), mas sim contra a Umbanda e o Candomblé, que não podem se igualar aos evangélicos, estes sim, verdadeiros religiosos que não se baseiam em vodus e manifestações questionáveis”. Eu jamais falaria isto. Eu nunca ataquei nenhuma religião, e nenhum religioso contrário ao que penso. Os Deputados autores me conhecem, eles sabem que eu nunca teria uma atitude perseguidora. O Estado deve ser laico, sem predileções por alguma religião, por isto votei contra estas matérias, assim como também votei contra o ensino religioso nas escolas estaduais, pois penso que a educação religiosa não é atribuição do Estado, mas sim da família ou instituição religiosa. Trato a todos com respeito para obter o respeito de todos. Penso que temos uma grande oportunidade para debater este assunto, para que homenagens sejam feitas, sem que haja perseguição aos demais segmentos da nossa sociedade. Estou a disposição para qualquer outro esclarecimento.
    Edson Albertassi – Deputado Estadual.

  12. Querido,
    Mais uma vez vc escreve um texto lindo! Os Encantados estão felizes por ter um filho assim tão dedicado!
    Me emocionei com seu texto!
    Axé!

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