Existem vários tipos de espíritos que podem encostar e pegar o sujeito. Eu, por exemplo, que vim de uma família ligada ao espiritismo em suas vertentes macumbais – umbanda e encantaria – quando era pequeno ouvi da minha avó que era sempre bom pedir auxílio aos espíritos e entidades; eles viriam me ajudar. Tornei-me, então, devoto do espírito mais citado lá em casa: O espírito de porco. Fazia pedidos a ele.

Quando descobri, lá pelos sete anos, que o espírito de porco não era exatamente quem eu imaginava, mergulhei durante meses no mais absoluto materialismo e virei comunista. Foi o seguinte: Tomei um esporro da minha avó no dia em que perguntei a ela qual era o ponto que eu devia cantar para saudar o espírito de porco. Ela achou que era sacanagem minha. Posso, inclusive, lhes confessar algo que só pretendia fazer ao médium de mesa branca depois da morte – o dia em que descobri que o espírito de porco não era uma entidade correspondeu, em termos de impacto, à notícia sobre a inexistência do Papai Noel para centenas de outras crianças.

Parêntese: Vejam como são as coisas. Comecei falando do espírito de porco quando, na verdade, pretendia escrever desde o início sobre outro espírito – o olímpico. Retomo no próximo parágrafo a ideia original do texto.
A escolha do Rio como sede das Olimpíadas de 20l6 despertou em mim forte vocação esportiva. Ontem, por exemplo, escrevi sobre futebol de botão e o preguinho. Hoje, seguindo essa linha de exaltação aos esportes do Brasil, louvarei outro jogo da maior relevância para nossa gente, a porrinha [ou purrinha], também conhecida como basquete de bolso.

A porrinha é um esporte altamente sofisticado e democrático. Os estádios ideais para a prática são os botequins mais vagabundos. Cada atleta, em geral, inicia a peleja com três palitinhos. A partida começa quando os jogadores escondem uma certa quantidade de palitos numa das mãos e as estendem, fechadas, para a frente. Cada jogador dá, então, o seu palpite sobre quantos palitos estão no jogo. Ganha a rodada quem acertar o número exato de palitos.

A porrinha exige dos esportistas alguns atributos fundamentais: Sorte, inteligência para blefar e perceber o blefe e preparo físico para jogar enquanto quantidades generosas de cervejas e cachaças são consumidas durante o embate. Recomenda-se um trabalho de musculação para o fortalecimento da musculatura do bíceps, que sofrerá o impacto do peso dos palitos durante a refrega. O uniforme ideal para a prática do desporto é simples e consiste em bermuda, camiseta e sandália de dedo.

Pesquisas que fiz em compêndios e dicionários especializados indicam que a provável origem da porrinha é o antigo Império Romano. Os soldados de Roma costumavam praticar, nos intervalos das batalhas mais sangrentas, um jogo conhecido como Morra. O negócio consistia no seguinte: Os jogadores escondiam uma certa quantidade de dedos da mão direita às costas e diziam um número. Aquele que acertasse o número exato era o vencedor. O troço era popularíssimo e há relatos nas crônicas de Seleno de torneios realizados no Coliseu que terminaram em matanças tremendas.

Alguns especialistas defendem que o nome porrinha surgiu de uma expressão proferida por Santo Agostinho no século IV – Porro cum quo micas in tenebris ei liberum est, si veliti, fallere. Tradução: Com certeza, mesmo que avisado, podes enganar aquele com quem jogas morra no escuro. O latim porro, com o tempo, virou porra. A porra virou porrinha.

O Brasil transformou a velha porrinha romana em coisa nossa, como o samba, a prontidão e outras bossas. Introduzimos os palitinhos de dente ou fósforo no babado e consagramos o botequim como palco da disputa. Fizemos a mesma adaptação em relação ao futebol, o jogo sem graça dos ingleses que ganhou a ginga e o balacobaco canarinho.

É por isso que sugiro, com a maior seriedade, campanha em meios de comunicação e o esforço dos formadores de opinião para que a porrinha seja considerada esporte olímpico em 2016. Clamo pelo empenho do Doutor João Havelange, do presidente Lula, de Pelé e demais autoridades físicas e metafísicas para que o Comitê Olímpico Internacional faça justiça com o histórico esporte.

Não precisaremos, pensem nisso, sequer construir estádios. Aqui no Maracanã temos, por exemplo, o Bode Cheiroso, botequim com estrutura para sediar os embates. Imagino até o novo nome do estabelecimento: Complexo Olímpico Bode Cheiroso.

A memória dos grandes e falecidos atletas da porrinha de todos os tempos – Meu avô, Jorge Macumba, Seu Nilton, Manoelzinho Motta, Seu Vovô, Abecedário, João do Vale, Teté, Claudio Camunguelo, Dr. Castor de Andrade, Moisés Xerife, Candonga, Primo Pobre, Querido de Deus, Seu Sete Rei da Lira, Madame Satã, Camisa Preta, Julião Vem Cá Meu Puto, Wilson Batista, Almir Pernambuquinho … – poderá inclusive servir como instrumento de forte campanha de marketing para estimular a prática educativa do esporte entre nossa juventude.

Porrinha 2016! Vem pro sonho olímpico, Brasil-sil-sil !!!
Abraços

22 Replies to “CAMPANHA OLÍMPICA – PORRINHA NOS JOGOS DE 2016”

  1. Aliás, um registro… saudade do Dr. Castor, com quem disputei uma partida café-com-leite de porrinha no camarote do Miro, certa noite, na quadra da Silva Teles. Tinha eu – o quê?! – 14 anos de idade…

  2. Grande pedida para as Olimpíadas, seremos medalha de ouro. Só para lembrar mais um ponto da regra. Em algumas partidas, geralmente quando há dinheiro na jogada, o atleta que acerta vai tirando um de seus palitos do jogo. Quando ele sai, por não ter mais nenhum na mão, vence.

  3. Ainda sobre os palitos Gina, lembrei de um troço hilariante. Quando a Betinha fez sua festa de 30 anos (parecida com o último baile da Ilha Fiscal!), na rua Alice, num pequeno erro de cálculo, ela comprou uma caixa imensa com 5.000 (cinco mil!) palitos. Tenho certeza de que ela cede o material para o nosso torneio!

  4. “Tornei-me, então, devoto do espírito mais citado lá em casa: O espírito de porco.” Sensacional, Simas! Sensacional! Palmeirense que sou, penso seriamente em adotar isso…

    Edu: essa da Betinha foi ótima! 5 mil palitos? Caraca!

    Beijo nos dois.

  5. Simas, você me fez lembrar de uma do grande comediante Golias de muitos anos atrás. Ele conta que numa roda de porrinha (palitinho aqui, na Bahia) com 50 jogadores pediu lona de primeira e… ganhou.

  6. Não se esquecer de que o esporte propiciou a frase do Aldir que, dentre todas as suas genialidades, talvez traga no seu bojo (êita!) a maior densidade filosófica da sua obra:
    “Na porrinha conjugal, pede bem quem pede lona”
    LA Simas, cê deve estar de saco cheio de ouvir “parabens” pelo seus textos, mas, vamulá, parabéns.
    Sérgio Reis, leitor da dupla Pelé-Coutinho dos blogs brasileiros.

  7. Simas,

    outro jogo, ao lado do botão, do preguinho e da porrinha, muito praticado na minha infância era a corrida com tampinhas de refrigerante. A molecada toda preparava a pista no chão de terra ou na areia da praia, cheia de obstáculos e cada um tinha direito a 3 petelecos de cada vez. Bons tempos. Abraço, Arthur Mitke

  8. Os palitos ficam por minha conta! Uso a mesma caixa de 5.000 palitos que comprei no meu aniversário de 30 anos, há mais de 5 anos, e até hoje parece que ela nem foi tocada. Tem palito para muitos torneios…
    Beijos!

  9. Olá Luiz, tudo bem? Sou produtora da rádio inconfidência, de bh. Gostaria de conversar a respeito do livro “samba de enredo”. como consigo seu contato? muito obrigada! grande abraço.

  10. Grande Professor Simas… Não nos conhecemos mas sou seu fã assim mesmo, através das histórias que ouvi de minha irmã que foi sua aluna na FEUC. Ela foi minha grande incentivadora para que, hoje, eu estude lá, infelizmente não o tendo como professor, mas mesmo assim com grandes mestres como Osvaldo Bendelack, Márcia Vasconcelos e Vivian Zampa.
    Marcos Hilton – Itaguaí/RJ
    Um grande abraço e parabéns pelo sucesso!

Comments are closed.