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Os primeiros dias do Governo Michel Temer mostram um projeto de país feito totalmente no improviso. Conhecido e renomado legislador, conhecedor quase irrepreensível do direito constitucional, o interino nunca foi muito bom em entender o país em que viveu. Nunca foi campeão nas urnas, nunca se fez entender em um ambiente informal.

Até para conquistar o amor de sua vida precisou da burocracia tão comum aos juristas – até “pedir a mão para a família” ele pediu, como se a vontade da própria Marcela Temer não lhe fosse garantia suficiente de que conseguiria ali construir uma relação de sucesso. Sempre atuando com um intermediário, sempre precisando articular, arquitetar por fora o sucesso que não consegue obter no cenário principal.

Foi assim que se tornou um dos parlamentares mais importantes do país, ainda que fosse um ilustre desconhecido para a maior parte dos brasileiros. Foi assim que se tornou vice-presidente e foi assim que saiu, legitimamente, do papel “decorativo” no qual foi colocado. E foi assim que pela primeira vez precisou falar de igual para igual com o povo que não o conhecia. Sem intermediários, sem arquiteturas, sem cenários. Ele e o povo, o povo e ele. E como olha feio esse povo que quase unanimemente reprova o Presidente interino!

A falta de traquejo de Michel Temer com o popular se manifesta não apenas nas medidas impopulares que toma, como também na rapidez com que volta atrás de algumas delas. É quando volta atrás que Temer se mostra frágil. É quando volta atrás que mostra alguma surpresa com a resposta que recebe aos seus atos. Temer é mais um expoente do desconhecimento que a classe política tem do Brasil. É mais um dos que pensam viver em um país que não existe há quase um século.

Um país onde se pode esconder as mulheres sem que elas reclamem. Um país onde negro nenhum vai reclamar de não ter sido lembrado. Um país em que esse negócio de “cultura” é coisa de vagabundo que não quer trabalhar. Por falar nisso, nesse país não vai se falar em crise porque é preciso trabalhar. Um país de ordem e progresso, com muito mais ordem que progresso e onde dá para justificar que o segundo não veio por falta do primeiro e que por isso é preciso sempre mais dessa ordem. Ordem, ordem, ordem.

Esse país pode até existir nas urnas, mas na realidade ele é bem diferente. A gritaria e os panelaços nada gloriosos que receberam Temer mostram uma gloriosa faceta que o Brasil perdeu nos últimos 13 anos: a da força popular como oposição. Convencidas de que estavam inseridas na sociedade como nunca estiveram as minorias aceitaram um “representante iluminado”: o PT.

Dilma e Michel TemerO partido em nome da “governabilidade” colocou a vontade da fiel (era o que se pensava, ao menos) bancada evangélica, o desejo dos coronéis que comandam regiões inteiras só com o sobrenome e até os paraquedistas que nem sabem o que fazem em Brasília na frente do interesse de quem sempre esperou por um pouco mais de voz. Mas disfarçou bem no discurso.

Não tendo Michel Temer a preocupação com esse disfarce, a resposta é maravilhosamente ruim. Mulheres, artistas, negros, homossexuais e até a “elite branca masculina” não lhe darão sossego e é assim que deve ser. É hora desse país largar o acomodamento trazido pela presença de um Governo dito popular.

Comparando com uma luta de boxe – porque é assim que a classe política deve ser tratada, já que são incapazes eles de merecerem uma boa relação com seus eleitores – é como se tivéssemos nos livrado de um lutador cheio de marra, que chega conquistando a galera e intimida pela simpatia. Esse lutador foi marrento o bastante para fazer o adversário abandonar a luta antes dela começar.

Agora, ganhamos um lutador franzino, assustado que tenta intimidar fazendo cara de bad boy e acaba assustando ainda menos. Michel Temer não intimida ninguém. Pelo contrário, convida à luta. O Brasil tem agora a chance que não tem há anos. O medo de derrotar o PT (e não falo aqui de tirá-lo do combate, falo das pequenas lutas do dia-a-dia) e acabar beijando a lona da luta seguinte fez o Brasil esconder seus golpes.

Temer nos dá confiança para bater. E é hora de bater com força. Devolver com um cruzado, seja de esquerda ou de direita, a “ordem e o progresso”. Nocautear sem dó aqueles que se recusarem a aceitar que, em 2016, mulher e negro competente se acham aos montes em qualquer lugar.

É hora de rearticular movimentos sindicais sérios, acabar com o peleguismo. Porque se existem 11 milhões de desempregados o responsável não deve receber sua “gratidão” pelo que foi feito há sabe lá Deus quanto tempo. Deve receber indignação, revolta, contestação. Como certamente vai receber Michel Temer caso as coisas não melhorem – e não devem melhorar. Movimentos que defendam os trabalhadores das crises econômicas, que exijam um diálogo verdadeiro com as classes mais pobres. Que não aceitem mentiras propagadas em discursos onde um Governo diz para seus governados o que eles pensam.

É hora de fazer o feminismo ganhar o país para confrontar o machismo que impera dos dois lados. Derrotar o “bela, recatada e do lar” e a “mulher de grelo duro”. Não aceitar que a “governabilidade” impeça uma mulher de decidir o que fazer da sua vida ou do seu corpo caso engravide e não se sinta em condições de levar adiante esta gravidez. Não aceitar que os homens usem uma representação vergonhosa do sexo feminino no primeiro escalação de seus Governos para disfarçar uma “inclusão”.

É hora de se construir uma força negra que não se limite ao papel de narrador de programa eleitoral. Que não seja só o mensageiro, mas sim a mensagem. Porque se o Governo lhe garante a presença nas universidades não está fazendo mais que sua obrigação e qualquer coisa que não seja feita a partir daí deve ser bem repreendida. Especialmente quando são os negros os mais prejudicados com um SUS que sofre sucessivos atrasos no repasse de verbas, com um Minha Casa, Minha Vida cada vez mais lento e com um Bolsa Família cada vez mais ineficiente.

É hora de a cultura recuperar o seu papel contestador. Porque qualquer expressão artística financiada pelo Estado não é financiada por um Governo e sim por um país e o compromisso, portanto, não deve ser com o partido. É hora de usar a arte para auxiliar todos os outros movimentos a conquistarem aquela parcela da população que ainda está convencida de que vive no Brasil que Michel Temer sonhou encontrar, aquele onde essa mesma parcela da população tem de se acostumar com sua sina.

Não, não vivemos mais nesse Brasil. Se pode haver algo de bom neste Governo mambembe e inseguro, é o fato de que o Brasil pode e deve se reencontrar com sua força. Pode mostrar ao seu Governo, seja ele qual for, que não aceita mais ficar afastado do centro das discussões. Pode, enfim, perder o medo de que o pouco que conquistou seja o suficiente. Não é. Nunca é. Sempre é preciso fazer mais. E não se faz mais lembrando do que se fez antes. É hora de se fazer oposição a um Governo sem que isso seja usado como artifício para salvar a pele de outro. É hora de aceitar a legalidade do impeachment e mostrar que tão legal quanto ele são os olhares tortos que o Presidente-tampão receberá sempre que pisar na bola.

Em suma, os anos de Michel Temer podem ser uma lição valiosa para que o PT reencontre suas raízes. E pode ser uma lição essencial para os gênios do enxugamento do Estado entenderem que justiça social, cultura, direitos humanos e a própria identidade nacional expressada na arte não são coisa da esquerda. São coisa de todos nós e não são despesas para se cortar em momento de crise. E, acima de tudo, para que todos, independentemente do partido, saberem que quem pensar diferente vai ser chamado para a luta. E não vai ser salvo pelo gongo. Porque o golpe está na regra e faz parte do jogo. E não existe jeito mais nítido de demonstrar a justiça de um resultado.

2 Replies to “Temer convida o Brasil para a luta: é hora de voltar para o combate”

  1. Belo texto Dahi, só não entendi “o golpe está na regra.”
    Fui contra o impedimento da presidente, mas, não concordo com o termo golpe usado pela esquerda. Seu texto é bem lúcido, vi umas postagens suas no twitter e, pelo menos aqui, você adotou um tom mais sério e menos debochado para se referir aos que se opuseram ao impedimento.
    Sou gay, negro e mesmo assim meu consigo me sentir representado por nenhum daqueles parlamentares. Espero sinceramente que as pessoas consigam entrar em um consenso que contemple a todos, mesmo que tenhamos Bolsonaros, Wyllis, Aécios, Sarneys e tantos outros que apenas colocam impecilhos no progresso do país.
    No fim, estamos todos na mesma lado, todos no mesmo lado.
    Parabéns pelas palavras

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