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Semana passada terminei de escrever uma peça de teatro chamada “O dia mais quente do ano” que trata da criminalidade do Rio de Janeiro. Minha peça mais pesada, mais difícil de escrever e com cenas duras que tive que escrever porque fazia parte do contexto, mas desconfortáveis.

O problema é que a realidade sempre será mais pesada, dura, cruel e desconfortável que a ficção. Nunca entre tantos temas pesados que botei passou por minha cabeça colocar uma menina de 16 anos sendo estuprada por 33 marginais, canalhas que fizeram tudo rindo e ainda filmaram e colocaram em redes sociais.

Pois isso aconteceu e não foi na Índia, foi no Brasil. Não foi no tempo das Capitanias Hereditárias, foi agora no século XXI no ano de 2016, aquele que é disparado o pior ano da história do Brasil desde a redemocratização.

Algumas coisas nessa história são tão loucas quanto esse ato criminoso como, por exemplo, pensar que a vaidade desses bandidos pode ter ajudado a vítima. Aqui no Brasil é assim, um crime só é descoberto quando um dos bandidos entrega o bando ou a vaidade lhe entrega. Será que se não tivessem filmado chegaria na opinião pública? Será que chegaria na polícia? Chegando na polícia será que ela acreditaria? Se da forma que tudo ocorreu ela ainda tem dúvidas imagine sem vídeo ou repercussão?

Porque é assim, o estupro é um crime que a vítima é julgada junto com o bandido. Sempre tem um “mas”, sempre tem um “porém”. Ah porque estava de minissaia, ah porque estava de decote, ah porque estava bêbada, usava drogas ou era prostituta, ah é minha esposa então eu tenho direitos. Não, não tem direito sendo esposa, namorada, noiva ou de forma alguma. Não tem direito por ela estar com pouca roupa ou mesmo que estivesse nua. Não tem direito se ela quiser e na hora mudar de ideia. Não tem direito nem que seja uma dessas “miniputas” que o babaca do Lobão falou. Não tem direito mesmo com ela postando fotos em redes sociais segurando fuzis ou dizendo que “quer dar para vagabundo”. Nunca há direito a sexo quando no ato uma das pessoas não quer. Sexo sem consentimento é estupro e não há justificativas ou atenuantes para isso.

EstuproNão digo que temos que debater a “cultura do estupro” porque acho essa expressão horrível. Na minha cabeça não entra que cultura, algo tão maravilhoso, esteja na mesma expressão que estupro. Não existe cultura do estupro, existe estupro e estupro não tem que ser debatido. É crime e crime se pune com cadeia.

Temos que debater o machismo. Machismo que não é algo exclusivo dos homens. Vivemos em um país onde homens e mulheres são machistas. A mãe que acostuma o filho pequeno a mostrar o “pipi”, que bota a filha para ajudar nos afazeres de casa e não os meninos, o menino que é criado para ser o garanhão e as meninas para casarem virgens. Menina que sai com muitos caras é puta, menino o gostosão.

Músicas são machistas e não só funk, todos os gêneros. Comerciais de cerveja vendem carne feminina, não cerveja, você lembra rapidamente que tem um comercial com uma mulher atraente que tem como slogan “Vai Verão”, mas demora um pouco mais para lembrar a marca da cerveja. Jogam a culpa no funk e em músicas como a “Baile de favela” que realmente é extremamente machista com uma letra paupérrima, mas o funkeiro mostra a realidade dele, o ambiente que vive dentro de suas limitações. Pior para mim é a rádio que toca, como a FM ODia que tem que ter responsabilidade sobre o que coloca em seu dial ou o publicitário do comercial de cerveja que recebe muito, é estudado, viajado, tem inúmeras possibilidades de crescimento cultural e apelam para o fácil, para o machista.

É preciso debater esse machismo, é preciso parar de usar mulher como objeto nem que para isso se boicote marcas de cerveja ou rádios, é preciso cobrar políticos que se preocupam mais com homossexualismo, deturpar a palavra de Deus ou fazer sensacionalismo e se calam em um momento desses. É preciso debater como um ministro da educação recebe Alexandre Frota, um cara que disse que já estuprou, em seu gabinete, é preciso debater o humor de Danilo Gentili que abusa do preconceito e da intolerância em nome de uma liberdade de expressão que só deve ir até aonde afeta a liberdade do outro.Estupro2

É preciso rever leis. Não dá para uma pessoa que cometa crime hediondo ficar no máximo trinta anos na cadeia e nem isso ficar porque recebe vários atenuantes. Guilherme de Pádua está solto há anos, daqui a pouco o casal Nardoni e o goleiro Bruno estarão e quem mata os pais recebe permissão de sair da cadeia em dia das mães. Sou contra a pena de morte, ainda mais em um país corrupto, injusto e segregador como o Brasil, mas as penas tem que ser mais severas, se é condenado a setenta anos de cadeia que cumpra os setenta, que menor que cometa crime hediondo responda como adulto (apenas hediondos) e principalmente, que crimes não fiquei impunes e nenhum, desde o bandido aqui debaixo até o colarinho branco.

Dessa forma podemos começar a mudar o país, só assim. Não é com guerra dos sexos que isso irá ocorrer. Não é apontando o dedo para um homem e dizendo que todo homem é um estuprador em potencial que algo vai mudar. Evidente que estupro é crime de gênero, normalmente é um homem que comete em uma mulher, mas toda generalização é idiota, burra e cai no perigoso caminho do ódio. Homens e mulheres, humanos, como são, tem que se unir para combater esse terrível problema. Eu não sou estuprador, não aceito a pecha de possível estuprador e tenho certeza que qualquer homem com um minimo de sanidade não cometeria uma barbárie dessas. Falar que tem medo quando anda de noite na rua  e vê um homem passando é o novo “Estava na rua andando, vi um negro passando e fiquei com medo”. Estereótipos, preconceitos, brigas de sexo acabam desviando o foco do verdadeiro problema.

Música não provoca estupro, ser homem não provoca estupro, minissaia não provoca estupro. Só existe uma coisa que provoca estupro. Mau caratismo.

Nesse ano de 2016 o Brasil vem sendo violentado todos os dias.

Está na hora de um basta.

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