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(por Rodrigo Mattar, leitor do Ouro de Tolo e jornalista do Fox Sports Brasil)

“O que a alma faz por seu corpo é o que o artista faz por seu povo”

(Gabriela Mistral, poetisa e diplomata, prêmio Nobel de literatura em 1945)

Escolhi esta frase de uma das maiores bandeiras da cultura do Chile para falar da minha experiência como visitante àquele país da América do Sul, distante pouco mais de três horas de avião do Rio de Janeiro – e mais distante ainda do Brasil em praticamente todos os níveis, especialmente cultural e socioeconômico. Mais um choque enorme que me fez sentir, de novo, vergonha de ser brasileiro.

Estive no Chile no fim do ano para passar o Réveillon e o aniversário de minha mulher, no dia 1º de janeiro. Incrível um país que enfrentou uma ditadura tão sanguinária quanto a do facínora Augusto Pinochet, que matou centenas, desapareceu com milhares e cortou os dedos do compositor Victor Jara, para que ele não pudesse dedilhar seu violão e soltar a voz em canções marcantes de protesto que incomodavam os homens que, em 11 de setembro de 1973, bombardearam via aérea o Palacio de la Moneda, sede do governo, e provocaram o suicídio do presidente Salvador Allende.

DSC_0060Para alívio do escriba e de muitos, Santiago não tem absolutamente nada que lembre Pinochet. Nenhuma estátua, nenhum nome de rua. Mas os presidentes civis que estavam no poder antes da ditadura, sim. Em dois cantos da Plaza de la Constitucíon, no centro histórico de Santiago, há estátuas em tamanho natural de Eduardo Frei Montalva (presidente entre 1964 e 1970) e Salvador Allende, cujo mandato foi brutalmente interrompido.

Desde que o povo disse “não” à continuidade dos militares no poder, quando Pinochet lançou um plebiscito, o Chile transformou-se numa das democracias mais sólidas do Continente. Patricio Aylwin foi o primeiro presidente civil do país em 18 anos e depois dele, vieram o filho de Eduardo Frei, o criticado Ricardo Lagos, Sebastián Piñera e, entre este último, Michelle Bachelet, por duas vezes.

O primeiro período de governo da atual presidenta, como todos sabem, foi coberto de elogios, tanto que por vontade popular ela foi reconduzida ao poder em março do ano retrasado. Mas seu segundo mandato já sofre críticas: reformas não agradaram ao povo – que é extremamente participativo e politizado, assim como o argentino – e a última discussão pesada é sobre a gratuidade do ensino nas Universidades.

Politicamente, o país está bem definido entre direita e esquerda. Os socialistas detém 40% do Congresso Nacional, sediado hoje em Valparaíso e a direita tem 30% das cadeiras. Estas duas dicotomias convivem em harmonia; as discussões tomam conta das esquinas, o povo interage e mesmo os comunistas, os “camaradas”, manifestam-se sem ser incomodados. Tivemos certeza disso logo no primeiro dia na capital, quando um verdadeiro Carnaval fora de época nos surpreendeu ao passar na porta do nosso Hotel, com faixas, alegorias, adereços, danças e música em homenagem a Pablo Neruda. O evento, chamado “Neruda viene volando” (Neruda vem voando), é um tapa na cara de um povo hoje acostumado a consumir Anittas, Lexas, Ludmillas e outras porcarias.

Hoje, o Chile talvez seja o país mais desenvolvido da América do Sul no que concerne ao IDH. O analfabetismo, procurei saber, beira zero. Também me informei sobre o salário mínimo. É quase o dobro do praticado no Brasil. Quando visitei no último dia de 2015 o Cerro Santa Lucia, donde se descortina uma das vistas mais espetaculares de toda a capital Santiago (e isso no Centro da cidade!), uma funcionária do parque, com seus 60 anos, explicou.

DSC_0153“Ninguém no país ganha somente o salário mínimo. Eu, por exemplo, ganho 300 mil pesos (equivalentes a R$ 1,5 mil), mais horas extras. Poderia estar trabalhando num banco, mas aqui tenho um emprego tranquilo. O que mais posso querer?”, indagou a moça, que trabalha controlando a visitação dos turistas e demais passantes num dos pontos principais de Santiago.

Enquanto o Brasil convive com aumentos de combustíveis e energia elétrica, o Chile faz exatamente o contrário. Só em dezembro, o preço da gasolina e derivados baixou – acreditem – quatro vezes. O país também tenta se colocar no ranking dos que cobram a menor taxa de energia elétrica do planeta. Em várias construções, são usados painéis de energia solar, afora outros meios sustentáveis.

E sol é o que não falta ao Chile nesta época do ano. O verão praticamente não traz chuvas à capital Santiago. A água que desce forte e com aparência barrenta para o rio Mapocho, que corta a cidade, vem da Cordilheira dos Andes. Água de degelo, portanto, que precisa ser tratada pois ela já vem poluída das nascentes, imprópria para consumo – o que é uma pena. Além da falta de sol, o clima é seco. O frio vem pesado a partir de maio e assim fica até outubro ou novembro.

DSC_0129Isso explica o fato do governo da municipalidade de Santiago, através de suas subprefeituras, manter flores, canteiros, árvores e parques constantemente regados e bem cuidados. Afinal, são vários dos cartões de visita de um povo que é muito cordial e hospitaleiro – principalmente com nós, brasileiros, vistos em grande número na cidade. Tanto que um vendedor de rua, perto do Mercado Central, me indagou.

“Vocês fretaram um avião para chegar aqui? É muito brasileiro, cara!”, disse.

Os chilenos são de fato simpáticos conosco. Já com os bolivianos, peruanos e principalmente argentinos, o tratamento é outro. “Os argentinos são arrogantes”, disse um chileno. Os demais são conhecidos como “los sucios” (os sujos). Realmente a parte do comércio no Centro Histórico de Santiago que tem os peruanos no comando é imunda, ao contrário do resto da cidade, sempre limpa e bem-cuidada – embora a gente possa notar no caminho do Aeroporto Arturo Merino Benitez ao hotel que há, sim, focos de pobreza – como em qualquer grande metrópole. Aliás, Santiago responde por mais de 40% da população do país, que tem 17 milhões de habitantes.

A capital chilena convive em harmonia entre a modernidade de arranha-céus de construção recente – foi erguido inclusive um edifício com 300 metros de altura, o maior da América Latina – ao lado do Shopping Costanera, de onde qualquer um descortina uma vista indescritível não só da cidade como da Cordilheira dos Andes – com os prédios históricos bem típicos da arquitetura hispânica, imponentes, bonitos, bem-cuidados e principalmente conservados. A planificação urbana é igual a Buenos Aires: uma quadra a cada 100 metros. Fácil.

DSC_0136Chamou-me a atenção o transporte público. Se por um lado o metrô é o melhor que já usei na vida, com o requinte de possuir pneus nas composições, além de ser infernalmente rápido, os ônibus são sujos, velhos e mal conservados – todos, aliás, encarroçados no Brasil, pela Busscar ou Marcopolo, no Sul do país. Táxis, só usei uma vez, pois já passava de meia-noite e o metrô fecha pouco depois de 23h30. Demos sorte – eu e minha mulher – porque o taxista não fez um ‘passeio’ noturno e não cobrou caro. Convém tomar cuidado com os motoristas de táxi e principalmente com os carros que circulam na cidade. Os táxis oficiais são pretos com capota amarela.

Além de conhecer Santiago, fui a passeio em três outros lugares: Viña del Mar, Valparaíso e a incrível Cordilheira dos Andes, em Valle Nevado e no Parque Nacional de Farellones. Viña del Mar é parte da região litorânea do Chile. Banhada pelo gelado Oceano Pacífico, é um balneário simpaticíssimo, com apartamentos e condomínios de vista privilegiada e cujo valor de compra, acreditem, há dois anos permitiria a qualquer brasileiro comprar um bom imóvel pagando, à vista, entre R$ 150 e 200 mil, sem qualquer susto. A cidade é simpática e palco do Festival Internacional da Canção, talvez o maior evento musical do continente. Quem estará lá como convidado especial é o “cantante” italiano Eros Ramazzotti.

DSC_0157Valparaíso tem como característica ser concebida em morros. Não são um, dois ou três. São quarenta e dois. Todas as casas, pela localização rara e privilegiada, estão protegidas do perigo das Tsunamis, que é alertado através de placas colocadas principalmente na região litorânea. Basta subir qualquer morro e ninguém corre risco. Num dos Cerros, está uma das três casas do gênio e poeta Pablo Neruda (1904-1973), outro mito da cultura chilena, que assim como Gabriela Mistral, foi prêmio Nobel de literatura.

Foi a única casa dele que visitei (a terceira é na Isla Negra), pois a de Santiago, chamada “La Chascona”, em alusão à sua última mulher, que saía às ruas despenteada e descabelada, não conheci. “La Sebastiana” descortina uma visão magnífica do porto da cidade e hoje é um museu, ponto de frequente visitação turística. O santuário de Neruda, como disse um dos guias que nos conduziu a um dos passeios, ‘não tem quatro paredes’. Era ele quem projetava, junto a um arquiteto, suas casas, sempre com a marca da ousadia.

A Cordilheira dos Andes é indescritível. Mesmo no verão. Uma das paisagens mais espetaculares que meus olhos foram capazes de descortinar. Tão próximo da região metropolitana que chegamos em menos de duas horas à estação de esqui de Valle Nevado. É um panorama radicalmente diferente do inverno, onde tudo é branco, coberto de neve e muito gelado. Os hotéis estão fechados mas, como disse, reabrem em maio e “bombam” até quase o fim de outubro. Reservas para 2016? Esqueçam: todos já têm vagas ocupadas para a temporada de inverno e esqui. Se vocês têm vontade de ir a Valle Nevado no inverno – o que não é o meu caso – planejem uma visita para 2017.

A 3 mil metros de altitude, que é onde está Valle Nevado, falta ar. E olha que eu demorei a perceber isso, o que mostra que não estou tão mal em matéria de preparo aeróbico, mesmo sem ser atleta e levando uma vida sedentária. E mesmo faltando ar, a gente se sente renovado ao ver aquelas geleiras eternas tão mais ao alto, aquele céu de um azul sem fim e o voo dos condores, planando por sobre a gente. Uma experiência que vou levar comigo até o fim dos meus dias.

DSC_0187Na capital, alguns dos pontos obrigatórios para se conhecer são os belíssimos parques, para curtir uma sombra, descansar e ver o movimento dos passantes, a linda Catedral Metropolitana, localizada na Plaza de Armas e também, evidentemente, o Palácio de la Moneda. Dia sim, dia não, é proporcionado um espetáculo raro – a troca da guarda do palácio, que atrai centenas de pessoas e dura meia hora, pelo menos. A banda do Exército chileno toca hino, fanfarras e músicas que arrancam aplausos do povo. Vale muito a pena acompanhar a troca da guarda.

E sobre a polícia, que diferença em relação ao Brasil… os Carabineros de Chile estão em TODOS os lugares. Seja a pé, com cães, cavalo ou motorizados, eles estão a postos sempre que preciso, inclusive ajudando turistas com informações, numa rara demonstração de amabilidade e preparo. Um deles, quando me identifiquei como turista, apertou minha mão e disse “Bienvenido a Chile!” São coisas que te fazem querer voltar mais vezes.

Mas, como nem tudo que reluz é ouro, o Chile também tem pontos fracos e posso apontar dois. A comida raramente vem para duas pessoas nos restaurantes – exceto no Openbox Restobar, ótima opção no badalado Pátio Bellavista, na Rua Pio Nonno, no bairro Providência, único que tinha menu para dois com preço fixo; incluindo entrada com ceviche, deliciosa iguaria local com frutos do mar crus, dois pratos quentes à escolha e uma sobremesa (postre). Além disso, os pratos são caros. Raramente come-se bem e barato nos restaurantes e aí está um erro que cometi e não vou repetir quando voltar ao Chile. Em comparação à Argentina, os hermanos ganham de lavada, porque a comida em Buenos Aires é farta e deliciosa.

Outro ponto fraco é a temperatura das cervejas e chopes (lá se diz Schop). Por não ser um país de clima tropical, os chilenos têm o costume de servir as bebidas em temperatura fresca, não gelada. Por isso, algumas vezes eu e minha mulher bebemos cerveja quente. Mas alguns estabelecimentos gostam de caprichar e felizmente tivemos a oportunidade de experimentar um bom chope geladinho, em canecas enormes, inclusive. Nisso, os chilenos não economizam.

E os vinhos são o ponto alto do país, que tem uma quantidade absurda de vinícolas, seja de grande, médio ou pequeno porte. Todos os vinhos chilenos são de excelente qualidade. Conheci um, dica do meu querido amigo Fred Sabino, que me deixou doido – um vinho Cabernet Sauvignon Blanc da reserva Winemaker da vinícola Valdivieso, de sabor frutado e incrivelmente gostoso, um dos melhores que já bebi. Tentei encontrar uma garrafa ou duas nas lojas e trazer para o Brasil, mas qual o quê? Não consegui…

DSC_0055_1Em contrapartida, trouxe alguns de vinícolas conhecidas, como a própria Valdivieso (duas garrafas de vinho tinto), Undurraga e Tarapacá. Em matéria de enologia, estamos bem servidos. Chile e Argentina dão banho aqui na América do Sul.

Claro, não dá para deixar de falar de uma paixão comum a brasileiros e chilenos: o futebol. Eles ainda respiram a inédita conquista de “La Roja” na Copa América, derrotando a Argentina nas cobranças de pênaltis e Santiago é um mar de camisetas vermelhas nas ruas. Orgulho total. Os clubes mais populares do país são o Colo-Colo e a Universidad de Chile. “La U” e “Los Caciques” polarizam a discussão e as brincadeiras.

Mas há ainda o clube da elite, a Unviersidad Católica e os simpáticos times de colônias de imigrantes – o Unión Española, com sua camisa que remete à Fúria, o Audax Italiano e o Palestino – deste, aliás, comprei três camisas: uma pra mim, outra para o Pedro Migão e mais outra pro companheiro de Fox Sports Flavio Gomes, a quem prometi o presente. Ele quase não acreditou no que viu, mas é verdade: a camisa do Palestino vende – e bem – na loja Player, aliás, uma das mais completas do ramo que vi na vida.

DSC_0152Tanto que o dono da loja, que me tratou com água, cafezinho e brindes (quanta diferença pros lojistas daqui…) e fez um desconto bem camarada na venda das camisas, me mostrou um e-mail de um compatriota que encomendou o equivalente a 2 milhões de pesos em camisas de clubes para completar a coleção. A Player tinha TODAS. E o camarada completou sua coleção, gastando R$ 10 mil na brincadeira.

Santiago do Chile, como diz o título deste texto, está a mil. Muito à frente de um país que, em vez de nos dispensar carinho quando voltamos, nos trata feito cachorros. Quando voltamos, a máfia dos táxis no Aeroporto Internacional Tom Jobim aprontou das suas e não deixou o carro que contratamos – com cor e placa dos táxis de Niterói – estacionar para nos apanhar no desembarque, a mim e minha mulher. Imaginem nós dois, com malas pesadas e compras de freeshop, andando feito baratas tontas, doidos pra voltar pra casa – e não conseguindo?

Deu saudade do Chile. E cheguei à infeliz conclusão que, se os espanhóis tivessem lutado para colonizar esta terra, talvez pudéssemos ser mais educados e melhores não só cultural como economicamente falando.

“A poesia tem comunicação secreta com o sofrimento do homem”

(Pablo Neruda, poeta e prêmio Nobel de literatura em 1971)

One Reply to “Santiago a Mil”

  1. “E cheguei à infeliz conclusão que, se os espanhóis tivessem lutado para colonizar esta terra, talvez pudéssemos ser mais educados e melhores não só cultural como economicamente falando”

    Que comentário infeliz num relato tão bacana. Quantos países na América foram colinizados pelos espanhóis? E quantos são “cases de sucesso”? Aliás, e quantos países na América e na África for colônias do Reino Unido? Quantos são “cases de sucesso”?

    Colocar a culpa dos problemas brasileiros em cima de Portugal é covardia. Aliás, será que o brasileiro, em geral, tem ideia de como é a vida em Portugal? Como funciona o transporte público? Como o povo é educado?

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