O Rio de Janeiro (ou parte dele) ainda está chocado com a execução dos cinco rapazes na madrugada do último domingo. Saíam para tomar um lanche e comemorar o primeiro emprego quando foram tomados por bandidos por policiais, metralhados e executados sem abordagem ou direito à defesa.

Não foi o primeiro caso do gênero nos últimos tempos. Autos de resistência simulados ocorrem aos borbotões no Rio de Janeiro, quase sempre seguindo o mesmo padrão: homens, negros e moradores em comunidades. Desta vez a ação foi tão “escandalosa” que não houve como se simular algo do gênero ou abafar a ocorrência.

Então se seguiu o roteiro padrão nestes casos: afastam-se os policiais militares, exonera-se o comandante do batalhão da área e depois que a poeira abaixa eles retornam ao serviço em outros batalhões. Neste caso havia o precedente no mesmo batalhão dos rapazes assassinados porque um macaco hidráulico foi confundido por uma arma e se disparou sem fazer a abordagem.

Entretanto, não quero falar sobre a Polícia aqui. Porque a questão é mais profunda. Como já afirmei algumas vezes em redes sociais, a sociedade carioca e brasileira tem exatamente a Polícia que ela quer. E dentro deste conceito, como escreveu o colunista desta revista eletrônica Luiz Antonio Simas em seu perfil do Facebook, “ela deu muito certo”.

O que se pede dela é exatamente o que ela faz. Então não dá para “stricto sensu” culpar a Polícia por este tipo de atitude. Seria a mesma coisa que culpar um carrasco por ter executado um condenado à morte.

Nesse ponto que eu quero chegar. Vi muitas manifestações de pessoas dizendo que “se fossem cinco rapazes de classe alta em um Porsche caíam o governador, o secretário de segurança e o pipoqueiro da esquina”.

Leitor, entenda uma coisa: isso jamais aconteceria. Seriam brancos, seriam “playboys” querendo brincar, seriam “homens de bem”. “Homens de bem” não são bandidos, não são suspeitos nunca. Jamais seriam metralhados por estar dentro de um carro em uma madrugada ou por carregarem um macaco hidráulico em uma moto. A canção abaixo descreve bem a situação…

Infelizmente, a indignação da sociedade é seletiva. Este caso chamou mais a atenção pela brutalidade da ação, mas todo dia temos ações semelhantes. E que contam com a aprovação explícita ou silenciosa de uma parcela significativa da sociedade, que defende a máxima “bandido bom é bandido morto” e que todo favelado é um ladrão em potencial.

Mesmo neste caso dos cinco rapazes, onde a ação “espalhafatosa” impediu qualquer possibilidade de se imputar a pecha de “bandidos” aos mortos, vi muita gente relativizando a execução dizendo coisas como “poderiam ser bandidos”, “os policiais tiveram que tomar uma decisão rápida” ou “erraram desta vez, mas na maioria das vezes acerta”. Basta ver os comentários do “print” abaixo, feito às 10:15 de hoje – à direita na imagem.

Print Extra 10_14Aliás, um parêntese: não sou especialista em segurança pública, mas ainda que os rapazes estivessem em “atitude suspeita” a (não) abordagem foi totalmente equivocada. Não se metralha do nada um carro, sem fazer a abordagem ou atirar nos pneus para imobilizar o veículo. Fim do parêntese.

Retomando o tema, este caso é um bom exemplo de como a sociedade brasileira é partida sim: brancos e negros, ricos e pobres, “cidadãos de bem” e “marginais”. Para uma parcela não minoritária da população os direitos e a condição de ter a sua integridade física respeitada não valem para todos; apenas para os “cidadãos de bem” – brancos, moradores do asfalto e, em média, com boa situação financeira.

Assassinatos de jovens na favela são considerados “necessários” para manter a “paz” dos cidadãos do asfalto. Cada negro de comunidade executado é um bandido a menos. Esta é a realidade, caro leitor. A parcela da sociedade que defende este ideal tem um pouco de sangue dos rapazes em suas mãos. Aliás, não só deles, mas dos inúmeros jovens assassinados no dia a dia. Quase todos pobres, quase todos negros.

E quem busca ponderar que as leis são iguais para todos e que a esmagadora maioria dos moradores em comunidades são gente trabalhadora que se esforça para levar uma vida digna ganha invariavelmente o mesmo epíteto: “defensor de bandido”. Normalmente acompanhado da frase “espero que um dia você sofra nas mãos de um deles”.

É necessário e importante mostrar indignação com a chacina da madrugada do último domingo, algo absolutamente terrível, mas tal postura não passará de jogo de cena caso no dia a dia se defendam políticas públicas de segregação e extermínio.

A luta, a meu ver, seria buscar que todos tenham o mesmo valor enquanto cidadãos, independente de raça, situação social ou local de moradia. Que aqueles comprovadamente envolvidos em delitos respondam perante à lei, sem serem alvo do “bandido bom é bandido morto”.

Mesmo que o crime seja lanchar para comemorar o primeiro emprego…

Imagem: Jornal Extra

One Reply to “Cinco Rapazes”

Comments are closed.