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No último domingo, o puxador da Acadêmicos da Rocinha, Anderson Paz, anunciou que está deixando o mundo do samba por ter se convertido a uma Igreja Evangélica.
Aos leitores que não a conhecem, a Rocinha é uma escola que sempre transitou entre o segundo e o terceiro grupos do carnaval carioca. Teve uma boa fase na década passada, quando foi comandada por um mecenas, chegando a desfilar entre as grandes. Mas teria sido rebaixada em 2012 não fosse a criação da Série Ouro.
O intérprete em questão, cria da Portela, passou por escolas como a São Clemente até chegar à agremiação da Zona Sul. Ganhou até uma fama de “pé frio”, por ter alguns rebaixamentos em seu currículo – obviamente, folclore.
Faço a introdução para colocar dois temas que tal anúncio impõe à pauta.
O primeiro é a influência da religião sobre as profissões dos seus fiéis. O leitor sabe que para mim o carnaval é uma paixão ou um hobby: não dependo dele para nada, não recebo um centavo dele – ao contrário, só gasto – e não tenho quaisquer tipos de relação profissional com nada relacionado.
Parêntese: isso tem um lado bom. Tenho liberdade total para empreender as críticas que vejo necessárias – e a meu ver são muitas, como o leitor já deve ter percebido.
Mas para Anderson Paz o carnaval é uma profissão. O próprio em entrevista a um site carnavalesco afirmou que ainda não sabia como ganharia a vida a partir de agora, embora esperasse ser contratado para passar a cantar música gospel.
Fica o questionamento então: o samba é tão demoníaco assim que não pode ser encarado como um trabalho?
A leitura que faço é que a proibição do samba por parte de igrejas evangélicas advém de dois motivos: primeiro o de limitar o consumo de bens de entretenimento e canalizá-los à crescente e rentável indústria do gospel brasileira, obviamente controlada pelos dirigentes destas instituições.
Segundo, a relação estabelecida pelos teólogos das seitas neo-pentecostais entre o samba e as religiões afro-brasileiras, alvo de um combate sem tréguas por parte dos pastores e fiéis destas instituições. Hoje tal relação está bastante diluída – aliás, como quase tudo que evoca a tradição no carnaval carioca, mas este é papo para outro post – mas somente os altares de santos encontrados nas agremiações já seriam suficientes para banir o samba do convívio de um “bom fiel”.
Curioso é que não vejo esta sanha em profissões como a de policial, por exemplo, onde o risco está presente e muitas vezes se faz necessário matar pessoas.
Ou seja, o conceito do que é certo ou errado é bastante elástico, para se dizer o menos. Ser cantor de uma escola de samba não é considerado um trabalho digno do Senhor e ponto. Todos que freqüentam – eu também – são demoníacos, não possuem virtudes e merecem o fundo do inferno quando perecerem.
Esta questão profissional envolve o fiel e sua doutrina. Discordo, mas respeito.
Entretanto, há outro ponto ainda mais sério: a dificuldade de renovação do samba causada pela penetração cada vez maior das seitas neo-pentecostais, entre outros motivos.
Nas comunidades, nos morros, nas favelas e nos “locus” tradicionais das agremiações a investida destas seitas está trazendo problemas à renovação dos quadros das escolas. Nos dias de hoje já há problemas para renovar quadros como a ala de baianas e a bateria, por exemplo.
Para os desfiles muitas escolas já encontram dificuldades para completar o número mínimo de baianas exigido pelo regulamento, em especial nos Grupos de Acesso. Nestas já encontramos uma figura parecida com um “empresário de baianas”, que coordena grupos para desfilar nestas alas – mediante pagamentos.
É movimento duplo: as baianas mais velhas estão se convertendo a igrejas evangélicas e as meninas novas que poderiam substituí-las acabam optando ou por seguir a Fé ou ainda por se bandear para o funk, outro grande concorrente para o samba.
Na bateria já há falta de alguns naipes, que acabam tendo o fenômeno verificado na ala das baianas: muitos batuqueiros acabam desfilando em diversas baterias.
A meu ver a grande responsabilidade deste fenômeno é dos próprios dirigentes das escolas, que não somente negligenciaram suas comunidades como em busca de maiores recursos financeiros simplesmente estão se fechando dentro de um círculo bastante restrito.
Nos dias de hoje a preocupação é maximizar os aportes de recurso, ainda que isso signifique o risco de sobrevivência em longo prazo. Para se ter uma idéia, em 2004 havia 38 escolas desfilando na Marquês de Sapucaí.
Em 2015 serão 26.
Ou seja, o objetivo de quem comanda a festa não é reproduzir e manter sua perenidade, mas sim enxugá-la a fim de sobrar mais dinheiro para cada agremiação. Como já escrevi aqui algumas vezes, o uso destes recursos é bastante ineficiente – e está se matando a galinha dos ovos de ouro.
Além disso, há uma cultura refratária a críticas: tudo está bom, tudo é legal, nós (dirigentes) estamos certos e criticar a escola ou o carnaval é uma afronta à instituição.
O curioso é que dentro deste quadro o que observo – os pensadores do carnaval me corrijam se eu estiver errado – é que a renovação das escolas hoje está menos em suas comunidades de origem e mais em segmentos típicos de classe média que chegam às escolas de samba através do samba de raiz ou coisas correlatas.
O próprio conceito de “comunidade” de uma escola de samba nos tempos atuais é mais amplo. Quem é comunidade: é aquele folião que mora perto da quadra ou o que a freqüenta, desfila pela escola e tem paixão por ela?
A Portela é um exemplo bem típico disso. Apesar dos anos sem títulos a torcida se renovou muito à base da garotada de classe média que chegou à escola pelas feijoadas e através da Velha Guarda. Não me estenderei em considerações neste post mas um fenômeno interessante é que este pessoal absorveu, ainda que em parte, os valores de Madureira e Oswaldo Cruz típicos da tradição portelense.
Ainda assim, é muito pouco. As agremiações precisam sair de seu casulo, sair do gueto onde se introduziram, buscar em suas comunidades – seja a original, seja a ampliada – a renovação e diminuir a influência das igrejas evangélicas e do funk em seu “público alvo”.
Isso leva tempo, mas este processo precisa se (re)iniciar de alguma forma. Entretanto, é esperar demais dos dirigentes uma visão macro deste processo.

2 Replies to “Os evangélicos, a profissão e o samba”

  1. Concordo com você. Algumas considerações:
     
    1) Interessante que parece que voltamos ao início do século XX, quando “ir para o samba” era sinônimo de vadiagem;
     
    2) Fenômeno igual (ou até pior) acontece com o axé: rotulado apenas de “pegação”, “alto consumo de bebidas alcoólicas”, ir a uma micareta nos dias atuais é ser rotulado de “irresponsável” ou uma pessoa que quer apenas “beijar na boca”. E o pior: os empresários do meio não se esforçam para tirar essa capa do gênero, simplesmente pq lucram com isso. E aí o pessoal que curte (curtia) axé e micareta desde os anos 1980 e apreciava cantores e bandas tradicionais como Moraes Moreira, Chiclete com Banana, Luiz Caldas, Banda Mel, a propria Daniela Mercury, Sarajane, entre outros, entra no mesmo balaio e é visto de forma bastante negativa;
     
    3) Acertou no comentário das religiões neo-pentecostais, radicais ao extremo, ao “proibirem” ou “sugerirem” aos seus (novos) fiéis que deixem o samba ou outros gêneros demonizados. Embora não aconteça a mesma coisa no futebol, há uma segmentação (os “crentes” de um lado e os “normais” do outro);
     
    4) Se falta gente da comunidade, há muita gente da classe média querendo desfilar. E nem por isso a classe média merece ser estigmatizada como “não pertencente” ao ethos ao qual ela quer frequentar. Portanto, o conceito de “comunidade” acaba por se reconfigurar nos novos tempos. Isso me lembra o célebre livro de Benedict Anderson, “Comunidades Imaginadas”: para ele, a nação (e aqui podemos fazer um paralelo com “comunidade” que vc menciona) nada mais é do que uma comunidade limitada, soberana e, sobretudo, imaginada. Limitada porque por maior que elas sejam, sempre haverá fronteiras finitas; soberana porque pressupõe lidar com um grande pluralismo viva e finalmente imaginada, porque seus indivíduos, mesmo nunca conhecendo integralmente uns aos outros, compartilham signos e símbolos comuns, que os fazem reconhecer-se como pertencentes a um mesmo espaço imaginário. Portanto, estas “comunidades imaginadas” existem graças a uma espécie de “camaradagem horizontal”, que se deve muito mais a uma construção cultural do que propriamente política ou coercitiva. Neste sentido, o que distinguiria as diversas nações é o “estilo” como são imaginadas e os recursos de que lançam mão. Logo, não existem comunidade mais ou menos real. A imaginação das comunidades, como ele observa, não é sinônimo de sociedades falsas, mas sim de uma “rede de parentesco” que dota seus membros de certa particularidade;
     
    5) Vc citou a Portela, eu lembro ainda o Salgueiro, a Mangueira e a São Clemente, que talvez ao perceberem a escassez do “material humano” oriundo de suas comunidades, querem ampliar seus horizontes, tirando o samba do gueto e horizontalizando mais o gênero, ao promoverem as feijoadas, popularizando outros ritmos em suas quadras – o Salgueiro promove o funk às sextas-feiras – e aí a discussão é outra -, a São Clemente trouxe o marketing promocional e empresarial para sua quadra, entre outros.

    Fabricio Gomes

  2. Estamos vivendo uma segregação lenta (mas constante). As “religiões” definem regras de conduta que vendem a imagem da libertação, do novo herói. Não é só o samba que perde, infelizmente…

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