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Neste sábado, a coluna de contos do compositor Aloisio Villar, a “Buraco da Fechadura”, traz uma festa culinária que se torna indigesta…

Feijoada Completa

“Mulher, você vai gostar:
Tô levando uns amigos pra conversar.
Eles vão com uma fome
Que nem me contem;
Eles vão com uma sede de anteontem.
Salta a cerveja estupidamente
Gelada pr’um batalhão
E vamos botar água no feijão”
Esses versos são da música “Feijoada Completa” de Chico Buarque e retratam bem como era a feijoada da dona Zezé, a mais famosa do Rio de Janeiro.

A explicação popular mais difundida sobre a origem da feijoada é a de que os senhores das fazendas de café, das minas de ouro e dos engenhos de açúcar forneciam aos escravos os “restos” dos porcos, quando estes eram carneados.

O cozimento desses ingredientes, com feijão e água, teria feito nascer a receita. Tal versão, contudo, não se sustenta, seja na tradição culinária, seja na mais leve pesquisa histórica.

Segundo especialistas em assuntos culturais e historiadores do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, essa alegada origem da feijoada não passa de lenda contemporânea nascida do folclore moderno, em uma visão romanceada das relações sociais e culturais da escravidão no Brasil.

O que não tinha nada de lenda era a esplendorosa feijoada de dona Zezé.

Zezé era baiana do Império Serrano, desfilando na escola desde pequenina. Até que decidiu descansar e comprou um sítio em

Magé, interior do Rio de Janeiro.

Mas o descanso de Zezé era trabalho. Ela tinha um bar na frente do sítio que reunia quase todos os bebuns da cidade e outros do Rio, que iam até o local matar saudades da velha baiana. A rapaziada adorava ouvir as histórias de Zezé e principalmente ir até lá para o “beija mão”. Ela era a madrinha de todos.

Revelou muitos artistas de sucesso: muitos bambas hoje das escolas de samba devem seus sucessos à velha baiana. Então, quando ela realizava uma de suas famosas feijoadas no sítio o Rio de Janeiro parava.

Era a feijoada mais famosa que existia. Reunia artistas, famosos que lhe tinham devoção, aspirantes com o sonho do estrelato, políticos, jogadores de futebol… Todos se espremiam e confraternizavam para provar aquela delícia e tomar uma cerveja gelada ao som de muito partido alto.

O feijão era muito saboroso e levava carne de todos os tipos. Carne seca, orelha de porco, rabo de porco, pé de porco, costelinha, paio e linguiça portuguesa.
Não podiam faltar as cebolas grandes, o maço de cebolinha verde picadinho, folhas de louro, dente de alho, pimenta do reino, pinga, sal, couve, farofa e claro a laranjinha e o torresmo – que dão todo o sabor.
E dependendo da quantidade de gente, mais água no feijão.

O sonho de qualquer carioca que tenha um pouquinho de balacobaco e telecoteco nas veias era ser convidado para essa feijoada e no fim daquela semana haveria mais uma.

Zezé era casada com Joca, antigo compositor da Portela. Isso fazia ocorrer uma rivalidade dentro de casa entre as duas grandes escolas de samba de Madureira.

Joca era o típico malandro carioca.

Adorador de uma pinga e de sinuca: chegava altas horas da noite em casa, rei do carteado e dizem, das mulheres. O que provocava grandes “qüiproquós” na residência dos baluartes do samba. Não era raro acontecer de panelas voarem pra cima de Joca e o malandro dormir do lado de fora – com cachorro lhe lambendo o focinho.

A velha era danada e depois da velhice a coisa foi ficando séria. Até queixa em delegacia Joca deu depois de apanhar da mulher.

Mas o tempo era de alegria, era dia de feijoada!!

Dona Zezé acordou cedo e pegou duas das noras para ajudar. A Zélia, mulher de seu filho mais velho Joquinha e a Yara, mulher de Nestor, o do meio. Norminha, namorada de Dinho, fugiu: essa só queria saber de ‘piriguetear’.

A senhora colocara de molho na véspera as carnes já salgadas e na manhã do evento levou o feijão preto ao caldeirão com bastante água. Em outra panela ferveu os ingredientes postos de molho e já no fim da manhã na companhia das noras juntava o refogado feito à parte e deixava ferver.

Os convidados chegavam e dona Zezé recebia a todos com sorriso aberto. Joquinha e Nestor chegavam com os engradados de cerveja e Dinho preparava a caipirinha que nunca pode faltar a uma feijoada. Era uma grande festa.

Uma roda de samba foi montada misturando sambistas da velha e da nova geração. Mulatas faceiras sambavam e a caipirinha batia bem na garganta acompanhada da cachaça e da cerveja. O torresmo enganava a fome dos convidados enquanto a feijoada ficava pronta.

Dona Zezé deixou as noras tomando conta da cozinha e pegou o microfone para cantar sambas antigos do Império Serrano. A escola do morro da Serrinha, fundada em 1947, é inúmeras vezes campeã do carnaval carioca, uma das escolas mais tradicionais e respeitadas e dona de um acervo fantástico de sambas.

Cada vez mais convidados chegavam e escutavam logo na entrada a voz aveludada de dona Zezé. Candidatos à Câmara dos Deputados misturavam-se a bêbados sem identidade que eram apenas conhecidos por apelidos.

Um deles, o Xexéu, era metido a poeta e adorava declamar suas poesias no meio do samba. O homem parecia incorporar Vinicius de Moraes com o microfone na mão e declamava sonetos que misturavam lirismo e cachaça. Dizia-se não um parnasiano, mas um “beberziano”.

Já Zé Gaguinho era cantor, apesar do nome, era difícil e nervoso conversar com o homem que mal conseguia pronunciar as palavras. Mas quando soltava a voz para cantar era uma transformação. Zé Gaguinho tinha uma voz grave, poderosa e dizia com orgulho cantar parecido com Nelson Gonçalves. E o danado cantava bem mesmo.

‘Negão do Frete’ era um sujeito muito engraçado que lembrava o Mussum. Dono de uma gargalhada contagiante contava piadas como ninguém. Até o Costinha teria a aprender com o jeito do Negão contar piadas: ele incorporava o personagem e fazia todos acreditarem que a história era real.

Tinha o pastor Eugênio, sujeito sério, homem de Deus que adorava comer sua feijoada com suco de acerola, A Lady Batalhão, único travesti da região que se emperiquitava todo para ir à feijoada parecendo ir numa festa de quinze anos. Detalhe: era filha do pastor. Ainda tinha o Almeidinha, famoso 171 de Magé que contava mentiras absurdas como se fosse verdade, como no dia que ele jurou ajudar Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz a terminar uma música.

E foi chegando gente, mais água no feijão…

Deputado Clementino precisava se reeleger e, claro, foi à feijoada. Todo mundo sabia que ele odiava povo; por isso aplaudiam alto de forma irônica seu discurso. No fim o deputado foi de pessoa em pessoa entregar seu “santinho” de campanha e pegou inúmeras crianças melequentas e choronas no colo, fingindo a felicidade de tomar um vinho em Paris.

Todos estranhavam a ausência de Joca. Dona Zezé de forma séria respondia que botara o safado para correr, mas nenhum convidado levava a sério e rindo comentavam que daqui a pouco ele estava de volta mais uma vez.

O delicioso cheiro da feijoada já exalava por todo o sítio e o samba comia solto, com medalhões da MPB fazendo duetos e improvisando com os jovens; era um espaço democrático. Quase na hora da comida chegaram alguns jogadores de futebol dos quatro grandes times do Rio que sentaram na roda e pegaram tamborins, tantãs e surdo de marcação como qualquer outro – além de suas cervejas.

Até que a hora chegou.

As panelas foram colocadas em mesas na varanda e a fila enorme foi montada sem privilégios. As pessoas batucavam com os talheres nos pratos felizes cantando sambas enquanto dona Zezé e as noras serviam.

E como sempre a feijoada estava maravilhosa. Todos elogiavam dona Zezé e comentavam pela carne estar ainda melhor naquela tarde. A senhora respondia que fizera de um jeito diferente e recebia elogios entusiasmados. Xexéu subiu em uma cadeira e de improviso declamou uma poesia em homenagem à feijoada, dizendo que a feijoada era o Brasil que dava certo: em cada grão de feijão ou pedaço de carne estava a alma e o coração do povo.

Deputado Clementino mandou que um assessor anotasse para usar aquelas frases na campanha.

Ninguém conseguiu comer um prato só: repetiam uma, duas vezes. Fazia um calor infernal no Rio de Janeiro, mas ninguém se importava. O que importava era a feijoada!! A comida dos Deuses!!

E de qualquer jeito a cerveja amenizava o calor.

Aquele dia bacana passava. As pessoas felizes conversavam, paqueravam, cantavam, batucavam e sambavam. Dona Zezé sentou na roda e pegou um chocalho para acompanhar os sambistas.

Uma equipe de tv da Alemanha chegou ao sítio para fazer uma reportagem mostrando duas paixões do brasileiro, o samba e a feijoada. Almeidinha se ofereceu como tradutor, mas ninguém sabia se o 171 estava traduzindo sério ou só dando mais um golpe.

Dona Zezé mostrou todo o sítio, os convidados e as panelas quase vazias com os produtos de sua feijoada. A repórter, uma loira que já estava com rosto vermelho e suando em bicas por causa do calor queria saber os segredos da feijoada e o tipo de carne que ela usava, mas dona Zezé respondeu que era segredo. A fórmula era só dela e morreria com ela.

Acabou convidando a equipe da emissora alemã para provar a feijoada. Fez um prato pra cada um, Nestor fez a caipirinha e os alemães ficaram loucos com os sabores.

O samba rolava com as pessoas ainda estranhando a ausência de Joca achando que era uma briga boba e que rapidamente ele entraria na feijoada, mas nada do homem chegar. Era a primeira vez que ele não participava do evento.

Até que um carro da polícia parou na frente do sítio e os policiais entraram. Yara pediu que Cleide fosse ver se ainda tinha feijoada, mas dona Zezé mandou que esperasse, que talvez o motivo fosse outro.

Os policiais se aproximaram e dona Zezé perguntou em que poderia ajudar. Um deles contou que receberam denúncia anônima que ocorrera um assassinato na casa.

Nesse momento o pagode parou. Tudo parou.

Todos prestavam atenção no que dona Zezé tinha a falar, até Xexéu ficou bom da bebedeira. Dona Zezé pediu que o policial prosseguisse e ele continuou dizendo que pela denúncia ela teria matado o marido e jogado o corpo para os cachorros em seu canil.

Todos ouviam a história abismados, quando dona Zezé, serena, respondeu que aquilo não era verdade.

Antes que as pessoas se aliviassem ela respondeu que só jogara os ossos para os cachorros e o policial perguntou onde tinha parado o restante do corpo.

Dona Zezé com aquele olhar frio típico de psicopata apontou para a panela de feijão.

Estarrecidos, um olhava para a cara do outro e começavam a vomitar enquanto dona Zezé era algemada e levada para a delegacia. A feijoada daquela tarde se encerrava e de alguma forma os convidados descobriam que Joca estava presente no evento.

Aquela turma toda que se esbaldou e fez fila para cair de boca no feijão e na carne agora fazia fila no hospital de Saracuruna.

É… Aquela feijoada não caiu bem.

E vamos botar água no feijão!