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Segundo turno, e nosso colunista Affonso Romero nos brinda com mais um excelente texto sobre o tema. Desta vez, sobre as opiniões, propostas e estilo de vida contraditórios do candidato tucano.
Leia, reflita, repercuta.
A Dupla Face de Serra
A eleição aproxima-se de sua reta final com a corrida às urnas pelo segundo turno, segundo turno este que envolve três candidatos. Não, caro leitor, o colunista aqui não enlouqueceu, nem está tão embebedado de paixão cívica  – ou de uma boa cerveja – que tenha passado a enxergar dobrado. Tampouco ainda estou contando com Marina Silva como um elemento de desequilíbrio na disputa.
Marina deixou-se ser um ponto neutro no segundo turno. Em suas aparições públicas, preferiu esquivar-se da escolha direta, pacificou as correntes opostas de sua base aliada e colocou-se à vontade para mostrar-se crítica à forma equivocada com que os partidos majoritários vêm conduzindo a coisa pública e o processo eleitoral. Novamente, ponto para ela, que deu largos passos em sua corrida para o futuro. Insinuou sua preferência pessoal (pró-PT), esvaziou a importância política disso e virou de vez uma figura nacional. Trabalho perfeito, reconheça-se.
Ainda assim, sobram três postulantes. Pode-se supor que o terceiro candidato que eu enxergo é Lula. Poderia ser. Mas Lula não é candidato agora. Lula é outro que mira o futuro, já sem tanta urgência ou ambição de iniciante, mas com a incerteza tranqüila dos vencedores que vislumbram novas possibilidades de recomeçar novo ciclo.
O terceiro elemento está aí, na cara de todos. O terceiro candidato se chama José Serra. Como assim?
O Serra que aparece em segundo lugar nas pesquisas de até a véspera do pleito, na verdade, reúne a soma das intenções de voto em dois candidatos José Serra. De forma diametralmente oposta ao que diz, o maior mérito político de Serra não é ter apenas uma cara; não, Serra consegue ter o talento político de caber bem, simultaneamente, em posições contrárias, mesmo antagônicas. No mínimo, Serra são dois. José Serra é um candidato dupla-face (senão, multifacetado). Vejamos, pois.
O PSDB apresentou seu candidato como sendo um homem íntegro, cuja vida pública pregressa seria completamente limpa e inquestionável. Acontece que nenhum dos partidos políticos brasileiros – nenhum deles – pode-se colocar numa redoma na qual nunca haja pingado nenhuma lama. Era necessário diferenciar Serra da corrupção que teria caracterizado o PT no exercício de poder. Mas Serra foi Governador de São Paulo, Ministro da Saúde e do Planejamento de FHC e é cacique político de um partido que, afinal, é presidido por Sergio Guerra, um ex-anão do orçamento. Difícil manter uma biografia sem respingos neste atoleiro.
Não há, objetivamente, acusações diretas pendentes contra Serra. Da mesma forma, não há suspeitas diretas sobre Dilma ou sobre Lula. O que há é a suposição, tão lembrada por Serra ao longo da campanha que, quem abriga um bandido na sala ao lado, ou é conivente com a roubalheira, ou é inepto para administrar, por ser incapaz de perceber o que acontece à sua volta. Em teoria, faz sentido. Mas não é tão simples assim administrar um gabinete de Ministros, um Ministério, um Governo de Estado ou País ou um partido político. E como Serra passou por experiências administrativas similares e a gestão pública no Brasil simplesmente permite abusos de prepostos. Portanto, Serra não seria capaz de manter a imagem pura até o final da corrida presidencial. E foi o que ocorreu.
Serra viu-se tão ou mais envolvido com a perigosa proximidade de Paulo Preto (fiscal e pagador das principais obras de seu Governo em São Paulo, arrecadador de campanha do seu partido) quanto a imagem de Dilma foi arranhada pelas estripolias de Erenice Guerra. É a mesma situação, pelo menos até que uma ou outra investigação aponte de maneira diversa. Muitas outras situações embaraçosas para a biografia de José Serra foram lembradas: caso Alston, Sanguessugas, privataria etc.
Como Serra não se colocou claramente como o oposto político de Dilma, mas construiu sua campanha como o avesso ético da adversária, suas possibilidades começaram a ruir assim que a imprensa se mostrou um pouco menos parcial que o combinado. E foi então que Serra se viu desconstruído em meio à travessia. O resto de suas contradições foram sendo expostas uma a uma, desdobramento após desdobramento de seu discurso.
Veio o MetrôGate e o antes implacável candidato que exigia investigações sobre todos os pseudo-escândalos que envolviam a adversária mostrou que também pode ser leniente com falcatruas ao tentar retirar do caso a devida importância e dizer que “o PT inventa” contra ele, quando as acusações tinham partido da então adesista Folha de São Paulo.
Gente como eu, chata e de memória menos fraca que a maioria do eleitorado, começou a buscar em cada faceta da imagem construída de José Serra o oposto que transborda de dentro da alma do candidato tucano. Não é um trabalho difícil.
Serra posiciona-se como contrário ao uso da máquina pública na campanha eleitoral. Mas ficou claro que o funcionalismo direto ou indireto de São Paulo foi todo mobilizado a favor de sua candidatura, como já havia sido mobilizado a favor de Alckmin no primeiro turno. Funcionários chegaram a ser deslocados de seus locais de trabalho para prestigiar inaugurações e atos do tucanato. Pessoas em cargos de confiança se afastaram durante semanas de suas tarefas cotidianas para dar suporte à candidatura.
Serra viu pesquisada toda a sua vida de suposto bom administrador. Viu levantados casos que expunham sua fragilidade tanto como Ministro quanto como administrador da capital e do Estado paulistas.
Serra chega ao dia do pleito sem ter uma posição claramente definida quanto às privatizações. Acusa o PT de ter privatizado o pré-sal quando o Governo Lula apenas tem aplicado as regras de exploração criadas à época em que Serra fora responsável pelo Ministério do Planejamento de FHC, até que novas regras sejam votadas pelo Congresso. O candidato que hoje diz-se contrário a novas privatizações foi o responsável pelo controverso processo privatista do PSDB (mais criticado pela forma do que pela iniciativa em si) e não convence nem seus próprios eleitores de que não seja privatista. Mas é como anti-privatista que declara-se ao eleitorado.
Serra tentou fazer do segundo turno um anacrônico e inapropriado plebiscito sobre o aborto. Viu-se constrangido pela vida privada de sua família ter sido exposta por uma ex-aluna de sua esposa e parecer cínico quanto ao tema. Posou de carola, quando sabe-se que, antes da campanha, nunca foi visto em igrejas ou templos.
Apresenta-se como o “pai dos genéricos”, omitindo que, como Ministro da Saúde, apenas implantou um projeto apresentado e aprovado no Congresso por um deputado do PT. Se isso faz de Serra responsável pelos genéricos, não é justo que ele se esqueça que foi no mesmo Ministério, e atendendo à necessidade de implantação de outra Lei aprovada pelo Congresso, foi ele quem regulamentou o aborto no Brasil. Portanto, do nada ao muito, Serra é tão “pai” dos genéricos quanto o é do aborto. As situações foram idênticas.
Serra começou a campanha apresentando-se como o melhor possível continuador do Governo Lula e fez uma guinada ao voltar a bater duro neste mesmo Governo.
Serra diz-se a favor dos programas sociais oficiais, principalmente quando advoga para FHC a autoria dos mesmos. Não convence ninguém disso e ainda fica no meio do caminho entre reconhecer a eficiência dessa política no Governo Lula e aderir à insensibilidade social de seus partidos aliados e alguns de seus eleitores.
Serra posicionou-se a favor da liberdade de imprensa, mas mostrou-se destemperado toda vez que foi incomodado por perguntas difíceis, viu-se envolvido em pedidos de demissões de jornalistas e acabou por reclamar publicamente da imprensa, o mesmo que havia criticado em Lula.
Posicionou-se contra o chamado Mensalão do PT. Mas esqueceu que foi beneficiário político do Mensalão de Eduardo Azeredo-PSDB que garantiu a reeleição de FHC. Ou que, em sua primeira opção para a composição de chapa, convidou José Roberto Arruda, logo depois envolvido no Mensalão do DEM-DF (além de também já ter sido envolvido com os anões do orçamento).
Serra viu-se desmascarado por ter assinado compromissos que descumpriu, como o documento em que garantia concluir o mandato de Prefeito. Serra jamais foi até o final em qualquer coisa que tenha se proposto a fazer na vida.
Coloca-se a favor dos investimentos em educação, mas é responsável pelos piores resultados do ensino público do Estado de São Paulo, pela descontinuidade no Programa de Escola Integral de seu próprio partido, por anos de congelamento de salário dos professores do Estado.
Coloca-se como o candidato mais preparado e é obrigado a ver na internet um vídeo em que erra uma conta simples de divisão ao tentar dar uma aula para alunos do Ensino Básico, um tipo de erro que se viu associado ao anedotário sobre o nível supostamente básico da formação do Presidente Lula.
Diz-se a favor da valorização do funcionalismo, mas desprestigiou a classe toda vez que teve cargo executivo.
Coloca-se como um homem sincero, mas sua campanha foi pega na mentira em diversas ocasiões. Discursou a favor do “jogo limpo” na campanha, mas seus aliados usaram artifícios baixos para atingir a campanha adversária. Tratou aos petistas como encarnações do demônio, instigou isso, incentivou e ampliou este discurso, mas apontou que o adversário é quem dividia o País e tratava o jogo político com uma polarização insuportável.
É este o candidato que se diz capaz de fazer um governo de coalizão nacional? Logo quem se apresenta como equilibrado mas torna-se leviano ao acusar o adversário de tudo, mesmo quando não se pode provar nada?
É a mesma leviandade e descompromisso com a responsabilidade com que o então líder estudantil, Presidente da UNE, discursou raivosamente no comício da Central do Brasil, em 1964, às vésperas do golpe militar, e foi usado como uma das desculpas prontas pelos golpistas. Para, em seguida, fugir do País e de suas responsabilidades políticas.
É fácil se dizer líder assim. Deixando para trás os companheiros que o seguiam e cruzando solitariamente as fronteiras. Talvez por isso mesmo, conquista a confiança de eleitores menos afeitos à História, mas não convence nem mesmo aos seus companheiros de partido de sua liderança. Afinal, numa campanha marcada pela mansidão de uma grande imprensa que só faltou usar bandeiras de torcida uniformizada do PSDB, suas contradições apareceram a partir de brigas internas de seu próprio partido.
E, isolado de seus próprios companheiros, recebeu em seu horário eleitoral apoios mal interpretados por Alckmin e Aécio. A turma de Serra tentou levar a campanha mostrando-se “do Bem” e acabaram cada vez mais próxima “do DEM”.
Na reta final, vendendo sua biografia a troco de qualquer milhão de novos votos, Serra aposentou a imagem de gestor responsável e caiu de cara na demagogia fácil ao prometer um saco de bondades impossível de ser cumprido, incluindo um aumento do salário mínimo, das aposentadorias e -,pasmem! – do Bolsa-família.
Jogou no lixo seu diploma de economista, se é que ele existe. Sim, porque Serra fugiu do Brasil antes de se formar, uma vez que já estava mais envolvido com política do que com seus estudos desde aquela época. E o que cursou no Chile foi um Mestrado, seguido de um Doutorado. Só que, pelas leis brasileiras, um aluno não pode concluir a pós-graduação antes de concluir a graduação. Faz sentido, não?
Mas este diploma, se existente, já estava respingado das constantes críticas que veio fazendo à política econômica do Presidente Lula, todas revelando-se furadas e desqualificadas pelo sucesso das iniciativas da equipe petista, uma após outra. Serra insiste e propõe atualmente mudanças na macroeconomia, ainda que isso seja visto com imenso temor até por investidores internacionais.
Vítima de sua própria metralhadora giratória, Serra colocou-se como vítima de bolinhas de papel (e passou por farsante e golpista), da imprensa e das instituições consagradas como as pesquisas (e mostrou-se liberticida) e do mesmo PAC que “sampleou” em suas propostas de governo (e passa, pela enésima vez, como contraditório).
Por fim, o candidato que tentou se diferenciar dos outros pela biografia e pela ética vai ser obrigado a ouvir das urnas os versos de Cazuza em “O Tempo não Para”:
“…Sua piscina está cheia de ratos

As idéias não correspondem aos fatos

O Tempo não para…”

2 Replies to “Sobretudo: "A Dupla Face de Serra"”

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