Obs: para uma explicação do procedimento das prévias americanas e de alguns termos técnicos usados nesta coluna, leia a coluna explicativa.

Tudo aconteceu de forma muito rápida. Na sexta, Jim Clyburn, influente deputado negro de South Carolina e o segundo na hierarquia do Partido Democrata na Câmara dos Deputados, anunciou seu apoio à candidatura de Biden. Essa foi o primeiro apoio recebido por qualquer candidato de um político ativo de “alta plumagem” nesta temporada de primárias.

Já no dia seguinte, Biden não só garantiu a tão necessária vitória nas primárias de South Carolina para sua candidatura não morrer, como o fez com a acachapante margem descrita na coluna passada.

No domingo a noite, Pete Buttgieg desistiu da candidatura. Já na segunda pela manhã, outra candidata, a senadora Amy Klobuchar, também desistiu da campanha.

Na própria segunda a noite, véspera da Super-Terça, os dois desistentes junto com Beto O’Rouke, outro ex-candidato texano que havia suspendido a campanha ainda em novembro, subiram no palanque de Joe Biden para anunciar apoio conjunto a ele.

Tudo ocorreu tão rápido que não houve tempo de nenhuma pesquisa captar o impacto de tantos acontecimentos importantes.

A resposta veio rápida com os próprios resultados das prévias nos 14 estados que fizeram parte desta Super-Terça: não foi uma onda a favor de Biden, foi uma verdadeira tsunami que deixou terra arrasada e limpou todos os caminhos para que Biden seja o indicado do Partido Democrata para enfrentar Trump no fim do ano.

Para começar Biden ganhou com tranquilidade todos os 4 estados sulistas, de população mais conservadora, que votaram nesta terça e nos quais ele já era muito favorito: Alabama, Arkansas, Oklahoma e Tennessee. Em todos eles, Biden ganhou com pelo menos 15% de folga para o 2° colocado e pelo menos 39% dos votos.

Biden também garantiu a vitória nos dois estados sulistas mais próximos de Washington D.C., com certa concentração de população negra, no qual ele já era ligeiro favorito: Virgínia e North Carolina com seus abundantes 99 e 110 delegados, respectivamente.

Porém aqui já começaram as surpresas: a margem dele para Sanders foi muito maior do que a antes prevista. 43% a 24% em North Carolina e sonoro 53% a 23% na Virginia. Numa disputa em que a regra geral é distribuir os delegados proporcionalmente entre todos que atingiram 15%, a margem de distância é muito importante, especialmente quando se trata dos 3° e 4° maiores estados da noite.

Mas os resultados inesperados não pararam por aí. Em Minnesota, onde antes de todos os acontecimentos as pesquisas indicavam que dificilmente ele obteria mais do que 15%, ele não só conseguiu enormes 38,5%, como ainda ganhou a primária no estado!

Claro que a desistência de Klobuchar e o apoio dela a Biden no dia anterior foram fundamentais para tal acontecimento. Klobuchar é senadora pelo estado muito bem avaliada, tanto que essas mesmas pesquisas indicavam que ela disputava passo a passo com Sanders a liderança no estado.

Na ultima grande surpresa da noite, Biden conseguiu arrancar a vitória até no reduto progressista de Massachusetts. Para tal, Biden contou com uma ajuda fundamental involuntária. Se no campo mais moderado do partido vários candidatos desistiram para apoiar Biden, no campo progressista Warren, senadora por Massachusetts, não desistiu. Ela e Sanders acabaram dividindo os votos liberais do estado e nessa divisão Biden ultrapassou os dois ao mesmo tempo. No final, 33,5% para Biden, 27% para Sanders e 21,5% para Warren.

Por fim, na lista de vitórias de Biden está o Texas e o Maine. No Texas, o 2° maior estado da noite em delegados e o 3° no geral, com robustos 226, já se esperava uma batalha bastante apertada entre Biden e Sanders, o 1° puxado pelo voto dos negros e dos numerosos brancos moderados do estado e o 2° puxado pelo maciço apoio dos latinos, que são uma parcela considerável da demografia do estado. Ao fim, mais uma vitória de Biden por 34% contra 30% de Sanders. Mesmo não sendo folgada, em um estado tão recheado Biden ainda conseguiu colocar alguns delegados de distância.

Já no Maine, apesar da vitória numérica foi praticamente um empate técnico: nesse momento está 34% a 33%, com 95% das urnas apurados. Provavelmente os delegados serão divididos igualmente.

Para Sanders sobrou apenas o seu próprio estado, o pequeníssimo Vermont, e os 3 estados do oeste, Colorado, Utah e o grande prêmio da noite, a Califórnia com seus mais de 400 delegados. Nem o Maine, também um estado com base democrata progressista e vizinho a Vermont, ele garantiu vitória como visto acima.

Colorado é um estado médio que apesar de ter um histórico conservador, cada vez mais vem sendo tomado por uma onda liberal, sendo inclusive o primeiro estado americano a legalizar o uso recreativo da maconha.

Já Utah é um estado bastante peculiar. Como um todo, é altamente republicano e conservador, pois é o estado dos mórmons, que compõem nada menos que 55% da população. Porém, os mórmons são hoje os únicos conservadores republicanos marcadamente anti-Trump.

Só que isso cria uma efeito de reação estranho na base democrata: quem “sobra” para ser democrata, tem um perfil altamente progressista e liberal. O resultado disso é que a diminuta base democrata de Utah é a mais progressista de todo os Estados Unidos, segundo o algoritmo do matemático Nate Silver. Logo, era natural que Sanders ganhasse lá.

Já a Califórnia, que vem se firmado como o centro da resistência nacional anti-Trump, foi um estado onde Sanders investiu muito capital político e financeiro nos últimos quatro anos e esperava um grande resultado impulsionado pela grande população latina do estado – e ele veio com 55% dos votos hispânicos, segundo a pesquisa de boca de urna. Porém, apesar disso tudo, a apuração está indicando que a margem para Biden não será grande. Por questões de regra e logística local, a apuração na Califórnia costuma durar de 10 a 15 dias e ainda está longe de acabar. Mas no momento em que escrevo, Sanders está à frente de Biden apenas por 33,5% a 25%. Mesmo com a quantidade paquidérmica de delegados na Califórnia, 8% é muito pouco para compensar toda a longa lista de perdas relatada acima.

E Michael Bloomberg? Ele não iria começar a disputar as prévias nesta Super-Terça? Sim, ele disputou. Porém mesmo gastando mais de 100 milhões de dólares só em propaganda em todos os estados votantes, seu desempenho foi desastroso. Ele não ficou em 1º ou 2º lugar em nenhum dos estados, já que Biden e Sanders sozinhos ocuparam todas essas posições. Nem na Califórnia, estado onde ele investiu quase 40 dos 100 milhões ele conseguiu um resultado interessante e nesse momento ele está ligeiramente abaixo dos 15% necessários para se obter delegados no estado como um todo.

Esse foi um outro problema de Bloomberg: mesmo ficando em 3º lugar em vários estados, apenas em 4, todos eles de médio e pequeno porte, ele conseguiu os 15% para acumular delegados de forma mais sólida. Ou seja, o resultado em delegados foi pífio e não há mais qualquer chance dele conseguir os 1900 delegados necessários.

Sabendo disso, nesta quarta pela manhã, Bloomberg também anunciou a desistência da candidatura e o imediato apoio a Joe Biden.

Ou seja, fora os dois principais concorrentes, Biden e Sanders, apenas Warren continua a campanha nas prévias democratas. Dado toda a ultra rápida consolidação de todos os candidatos moderados em torno de Biden, algo nada comum, não é devaneio pensar que Warren só mantem campanha com a anuência do establishment do Partido, já que ela disputa votos progressistas com Sanders e o enfraquece. (Atualização em 05 de março as 14h26: o The New York Times e a CNN apuraram que Warren em reunião com sua equipe anunciou privadamente sua desistência da candidatura. Um anúncio público é esperado amanhã).

Porém, mesmo Warren também está com enormes dificuldades de conseguir 15% nos estados. Ontem ela só conseguiu tal marca em 3 estados, sendo um deles o seu próprio.

Logo, na prática, a partir de agora todos os delegados serão divididos apenas entre Biden e Sanders. Como a quantidade de delegados com os outros candidatos representa menos de 5% do total, é possível afirmar que a probabilidade de uma convenção indefinida caiu para próximo de zero com os resultados da Super-Terça. Provavelmente, Biden ou Sanders chegará na convenção já como o candidato presumido.

Mas é possível ir mais longe: dá para afirmar com tranquilidade que Biden assumiu o amplo e claro favoritismo para essa eleição. Os resultados de ontem mostram claramente que Biden consolidou o voto dos moderados e dos negros e ainda há 2 estados muito pesados com essas características em seus eleitores nas próximas prévias: Florida e Georgia.

O forte desempenho de Biden nos estados do nordeste americano também mostrou que ele poderá angariar muitos delegados quando vier o grande dia de prévias no nordeste. Ele ocorrerá dia 28 de abril e disponibilizará de uma só vez mais de 700 delegados, a maior concentração depois desta Super-terça. Ou seja, em apenas um dia, um cenário altamente nebuloso, incerto e estressante se transformou em um cenário onde um dos candidatos, no caso Biden, tem vários caminhos disponíveis para obter a tão sonhada marca de 1990 delegados.

Obs: a contagem de delegados abaixo é apenas uma parcial e alguns delegados dos estados que votaram nesta Super-terça ainda não foram distribuídos esperando a totalização dos votos por correio. Em torno de 70 delegados estão nesta situação, mas salvo uma mudança muito grande no resultado de algum estado com esses votos, esses delegados devem ser distribuídos mais ou menos de forma proporcional a força de cada candidato na contagem abaixo.

Contagem parcial dos delegados

Biden – 656 delegados

Sanders – 584 delegados

Bloomberg – 75 delegados (desistiu)

Warren – 66 delegados

Buttigieg – 27 delegados (desistiu)

Klobuchar – 7 delegados (desistiu)

Próximas Prévias

10/mar – Idaho (20 delegados)

Michigan (125 delegados)

Mississippi (36 delegados)

Missouri (68 delegados)

North Dakota (14 delegados)

Washington (89 delegados)

Semana que vem teremos mais uma série de prévias, porém o estado a se acompanhar é Michigan, pois além da quantidade considerável de delegados, é um dos estados do meio-oeste tradicionalmente democrata que Trump ganhou por pouquíssimos votos há 4 anos para derrotar Hillary Clinton. Nas prévias democratas de 4 anos atrás, Sanders surpreendentemente ganhou de Clinton no estado também por menos de 1% quando as pesquisas indicavam uma vitória da última por mais de 20%.

Logo, Michigan poderá responder duas perguntas: Sanders manteve o apoio no estado depois de todo esse tempo? Biden é forte em todo Meio-oeste mesmo sem uma grande população negra na região, ou Minnesota foi um ponto fora da curva graças ao apoio da estrutura de Klobuchar no estado?

De resto Mississippi é uma vitória certa de Biden, com mais de 50% dos eleitores democratas sendo negros. Missouri é a Colorado às avessas, um estado moderado que guinou fortemente para o conservadorismo nos últimos 20 anos, e também Biden é favorito.

Washington, onde fica Seattle, é um reduto progressista dentro do Partido Democrata é Sanders é amplo favorito. Ele precisará de um bom resultado aqui para contrapor as prováveis perdas de Missouri e Mississippi.

North Dakota e Idaho são estados brancos e rurais e Sanders desde 2016 costuma ir bem nesse tipo de estado. Porém ambos são estados que mudaram de caucus em 2016, no qual Sanders sempre soube se organizar bem, para primárias em 2020. O efeito disso é um pouco incerto.

Porém, esses 34 delegados desses estados pouco importará nesse dia. Se Biden confirmar o favoritismo em Missouri e Mississippi e conseguir ao menos empatar Michigan já terá sido mais uma vez o grande vencedor do dia e terá dado mais alguns passos rumo a nomeação, especialmente se, assim como na Califórnia, ele conseguir minorar danos em Washington.

Imagem: O Globo

(Atualização em 5 de março as 12h00 para mostrar as novas distribuições de delegados após o avanço das apurações, a inclusão do estado de Washington na lista de próximas prévias e pequena correção de números de delegados disponíveis nas próximas prévias).

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