{"id":50830,"date":"2026-03-03T17:00:16","date_gmt":"2026-03-03T20:00:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=50830"},"modified":"2026-03-02T21:58:15","modified_gmt":"2026-03-03T00:58:15","slug":"justificando-o-injustificavel-2026-enredo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2026\/03\/justificando-o-injustificavel-2026-enredo\/","title":{"rendered":"Justificando o Injustific\u00e1vel 2026 &#8211; Enredo"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400\">Em enredo as notas 10 foram exatamente iguais a 2025, 28 ou 58%, impulsionadas pela benevol\u00eancia das duas julgadoras novatas. Por\u00e9m, tivemos uma apari\u00e7\u00e3o de 2 notas 9,6 ausentes em 2025 que puxou para o alto o total de d\u00e9cimos de retirados mesmo com os descartes de 1,3 para 2,1 na soma das escolas.<\/span><\/p>\n<p><b>M\u00f3dulo 1<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Julgadora: Fernanda Santos<\/span><\/p>\n<ul>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Niteroi &#8211; 9,8 (Realiza\u00e7\u00e3o 4,9 e Criatividade 1,9)<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Imperatriz &#8211; 10<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Portela &#8211; 10<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Mangueira\u00a0 &#8211; 10<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Mocidade &#8211; 10<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Beija-Flor &#8211; 10<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Viradouro &#8211; 10<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">U. da Tijuca &#8211; 9,9 (Realiza\u00e7\u00e3o 4,9)<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Tuiuti &#8211; 9,8 (Realiza\u00e7\u00e3o 4,9 e Criatividade 1,9)<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Vila Isabel &#8211; 10<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Grande Rio &#8211; 10<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Salgueiro &#8211; 10<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Acho que o quesito Enredo nos trar\u00e1 mais um epis\u00f3dio claro da novela da Justificando 2026 \u201cnovato fazendo novatice\u201d. Como j\u00e1 falei v\u00e1rias vezes em anos anteriores, \u00e9 uma regra geral o julgador estreante fazer seu trabalho de forma menos segura e com isso distribuir notas 10 a rodo. Exatamente o que vemos aqui com absurdas nove notas 10, ou 75% das escolas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">E como se ver\u00e1 mais abaixo, a outra julgadora estreante, n\u00e3o ficou muito atr\u00e1s com enormes oito notas 10. S\u00f3 como compara\u00e7\u00e3o os outros dois julgadores do quesito deram apenas cinco e seis notas 10 respectivamente, mais condizente com o que vimos na pista (e mesmo assim, de forma pessoal, como todo ano considere ainda sim um n\u00famero alto para o que vimos).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Por\u00e9m, mais do que as nove notas 10, o que mais me chamou a aten\u00e7\u00e3o neste caderno foram as justificativas delas. A julgadora respeitou o Manual e justificou subquesito por subquesito, mas em todas as justificativas percebi um sem fim de lugares comuns do tipo \u201co argumento escolhido foi consistente\u201d \u201co argumento demonstrou dom\u00ednio\u201d, \u201co recorte escolhido se materializou atrav\u00e9s das alegorias e fantasias\u201d, \u201cO enfoque conferido ao enredo uma roupagem conceitual relevante\u201d. Enfim, todas as notas m\u00e1ximas foram justificativas comuns, gen\u00e9ricas, que se encaixariam para justificar qualquer escola em qualquer ano.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O caderno j\u00e1 traz nove notas 10 e n\u00e3o consegue nos trazer sequer um destaque mais interessante ou ao menos um texto minimamente mais individualizado para demonstrar a real aplica\u00e7\u00e3o da julgadora? Dif\u00edcil defender.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Como \u201cjoia da coroa\u201d desse mar de obviedades aparece a nota 10 da Mocidade em um enredo que sequer cumpriu o b\u00e1sico na avenida: defender sua argumenta\u00e7\u00e3o central do porqu\u00ea Rita Lee foi chamada de \u201cpadroeira da liberdade\u201d. \u00c9 s\u00f3 olhar as notas de todos os outros julgadores: 9,6; 9,7. e 9,8.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">At\u00e9 no dia da apura\u00e7\u00e3o esse 10 j\u00e1 tinha ficado estranho na linha, emulando o famoso 10 do Soter para as alegorias do Porto da Pedra em 2024 quando as outras notas foram todas 9,6.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mesmo os poucos d\u00e9cimos retirados ainda s\u00e3o question\u00e1veis do tipo. Para o desconto em criatividade da Niter\u00f3i: \u201cEmbora houvesse ludicidade, despontua-se a limita\u00e7\u00e3o do tema a cadeia central que serviu de alicerce para a constru\u00e7\u00e3o do desfile.\u201d. Espera a\u00ed, a julgadora queria que a escola criasse \u201cmini-narrativas\u201d como penduricalhos da cadeia central do argumento? Isso n\u00e3o faz o menor sentido, principalmente porque quebraria a coes\u00e3o e coer\u00eancia do argumento do enredo como bem vimos na Justificando de 2024 quando a Grande Rio foi bastante martelada nesse sentido por todos os julgadores por justamente criar essas \u201cmini narrativas paralelas\u201d quebrando a coes\u00e3o e a coer\u00eancia do argumento do enredo da On\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No Tuiuti em realiza\u00e7\u00e3o ela escreveu: \u201cO in\u00edcio da narrativa na avenida convidou para um cl\u00edmax que ocorreu de forma t\u00edmida, enfraquecendo a potencialidade do tema. Despontua-se -0,1 em virtude da materializa\u00e7\u00e3o pl\u00e1stica ap\u00f3s o 1\u00ba setor.\u201d. Beleza, mas qual exatamente o problema da materializa\u00e7\u00e3o pl\u00e1stica em nada menos que 4 setores inteiros da escola? Por que o cl\u00edmax ocorreu de forma t\u00edmida na vis\u00e3o da julgadora? Isso deveria ser bem melhor explicado, acabou ficando jogado, sem uma explica\u00e7\u00e3o convincente. At\u00e9 porque, como foi um problema que se arrastou por praticamente 80% da escola conforme a pr\u00f3pria julgadora deixou subentendido, dependendo do problema seria algo que a correta dosimetria pediria um segundo ou at\u00e9 um terceiro d\u00e9cimo de desconto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O outro d\u00e9cimo do Tuiuti em criatividade foi porque as \u201csolu\u00e7\u00f5es visuais n\u00e3o ampliaram o sentido do enredo.\u201d. Por mais que se pudesse explicar um pouco melhor, acho que \u00e9 perfeitamente poss\u00edvel entender o desconto da julgadora aqui. Houve problemas de solu\u00e7\u00f5es visuais vis\u00edveis em algumas fantasias e especialmente no carro do Egito e da Revolu\u00e7\u00e3o Lucumi. Ainda sim, creio que a justificativa ficou a dever em detalhamento.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O desconto da Tijuca est\u00e1 bem explicado, pois o desenvolvimento se prendeu demais visualmente ao lado triste do enredo, mesmo em momentos que deveriam ser de felicidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">De qualquer forma, mesmo considerando que \u00e9 a estreia da julgadora, \u00e9 dif\u00edcil chegar a conclus\u00e3o diferente do que o caderno ficou aqu\u00e9m do esperado, seja pela quantidade notas 10 de dif\u00edcil explica\u00e7\u00e3o, seja pelas infindas justificativas gen\u00e9ricas, seja pelas explica\u00e7\u00f5es deficientes na maior parte dos poucos descontos dados.<\/span><\/p>\n<p><b>M\u00f3dulo 2<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Julgador: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Johnny Soares<\/span><\/i><\/p>\n<ul>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Niteroi &#8211; 9,6 (Concep\u00e7\u00e3o 2,8, Realiza\u00e7\u00e3o 4,9 e Criatividade 1,9)<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Imperatriz &#8211; 9,9 (Concep\u00e7\u00e3o 2,9)<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Portela &#8211; 9,9 (Concep\u00e7\u00e3o 2,9)<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Mangueira\u00a0 &#8211; 9,9 (Realiza\u00e7\u00e3o 4,9)<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Mocidade &#8211; 9,8 (Concep\u00e7\u00e3o 2,8)<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Beija-Flor &#8211; 10<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Viradouro &#8211; 10<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">U. da Tijuca &#8211; 9,9 (Criatividade 1,9)<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Tuiuti &#8211; 10<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Vila Isabel &#8211; 10<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Grande Rio &#8211; 9,8 (Realiza\u00e7\u00e3o 4,9 e Criatividade 1,9)<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Salgueiro &#8211; 10<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Aconteceu aqui um fen\u00f4meno que eu n\u00e3o me lembro de ter visto em outro caderno de enredo. O caderno parece ter um rigor alto na parte de concep\u00e7\u00e3o at\u00e9 a Mocidade e, de repente, o rigor some e todas as sete concep\u00e7\u00f5es finais recebem a nota m\u00e1xima, mesmo quando algumas claramente receberiam descontos se aplicado o mesmo parafuso apertado do in\u00edcio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Por exemplo, Johnny retira ponto da Imperatriz por um m\u00edsero detalhe de posicionamento de ala, pol\u00eamico at\u00e9 e abordaremos com detalhe mais abaixo, mas deixa passar em branco a finaliza\u00e7\u00e3o abrupta da parte brasileira do desfile do Tuiuti porque o in\u00edcio foi \u201clento\u201d demais e \u201cfaltou espa\u00e7o\u201d para a parte brasileira.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00f3 deixa passar em branco como ainda elogia \u201ca forma corrente, coesa\u201d da concep\u00e7\u00e3o do Salgueiro esquecendo completamente que o enredo do Salgueiro foi invertido de forma tal que as influ\u00eancias que criaram o \u201cuniverso roseano\u201d ao inv\u00e9s de serem postas no in\u00edcio como verdadeira introdu\u00e7\u00e3o a esse \u201cuniverso\u201d foram tacadas no final da escola em uma vers\u00e3o que quebrou a coer\u00eancia e coes\u00e3o a ponto de fazer uma fantasia totalmente vermelha e branca sobre o Bumbumpaticumbum do Imp\u00e9rio de 1982. O desequil\u00edbrio desse julgamento fica mais evidente quando comparado ao d\u00e9cimo perdido pela Portela pela \u201cdificuldade de entendimento de uma hist\u00f3ria densa e extensa, repleta de volteios\u201d. Acredito que ambos os enredos tenham a mesma caracter\u00edstica dos volteios aqui, n\u00e3o obstante as notas foram diferentes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Agora, apesar dessa r\u00e9gua de dif\u00edcil assimila\u00e7\u00e3o no julgamento das diferentes concep\u00e7\u00f5es de enredo, o ponto que mais me chamou a aten\u00e7\u00e3o neste caderno do Johnny \u00e9 a justificativa, no m\u00ednimo, pol\u00eamica que ele usou para despontuar o enredo da Imperatriz.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Johnny justificou assim: \u201cInconsist\u00eancia de roteiriza\u00e7\u00e3o no posicionamento da ala 13 \u2018Rosa de Hiroshima\u2019 no 4\u00aa setor (\u2018A voz de tantas can\u00e7\u00f5es\u2019). O setor em quest\u00e3o re\u00fane sucessos do homenageado sem recorte dramat\u00fargico espec\u00edfico, enquanto o 3\u00ba setor (\u2018O poema que afronta o sistema\u2019) estabelece eixo hist\u00f3rico centrado na produ\u00e7\u00e3o de Ney Matogrosso durante a Ditadura Militar. O <\/span><span style=\"font-weight: 400\">poema<\/span><span style=\"font-weight: 400\">-can\u00e7\u00e3o \u2018Rosa de Hiroshima\u2019 presente no \u00e1lbum \u2018\u00c1gua do C\u00e9u-P\u00e1ssaro\u2019 (1975), citado neste setor, possui forte v\u00ednculo simb\u00f3lico com o per\u00edodo da ditadura militar, sendo considerado um hino pacifista e antib\u00e9lico, o que indicaria maior coer\u00eancia narrativa se estivesse inserida no 3\u00ba setor.\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Aqui, na minha avalia\u00e7\u00e3o, na melhor das hip\u00f3teses, o julgador voltou a pisar em uma casca de banana recorrente de sua \u201ccarreira\u201d de julgador ao julgar o \u201ceu acho que deveria ser assim\u201d, que ano passado ele j\u00e1 tinha cometido com a \u201cfigura humana\u201d de Malunguinho, ao inv\u00e9s de simplesmente analisar o trabalho que a escola se prop\u00f5e. Na pior das hip\u00f3teses cometeu mesmo um terr\u00edvel erro cultural-hist\u00f3rico.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Vejam, Rosa de Hiroshima realmente \u00e9 uma m\u00fasica pacifista e antib\u00e9lica. \u00c9 s\u00f3 ler a letra, que at\u00e9 hoje \u00e9 ensinada em escolas, para se ter certeza que \u00e9 uma den\u00fancia dos efeitos nefastos do lan\u00e7amento da 1\u00aa bomba at\u00f4mica em Hiroshima. Realmente ela foi lan\u00e7ada durante a Ditadura Militar. Por\u00e9m, inicialmente, ela n\u00e3o \u00e9 uma m\u00fasica de cr\u00edtica frontal \u00e0 Ditadura. No m\u00e1ximo ela \u00e9 uma m\u00fasica contra a polariza\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia pol\u00edtica da \u00e9poca, n\u00e3o s\u00f3 apenas da ditadura. Logo, apont\u00e1-la como uma m\u00fasica contra a Ditadura Militar por si j\u00e1 seria uma senhora pol\u00eamica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">S\u00f3 que, para piorar a situa\u00e7\u00e3o, a Imperatriz em MOMENTO ALGUM menciona a Ditadura Militar na defesa deste 3\u00ba setor. o Livro Abre-Alas \u00e9 claro em dizer que o foco deste setor ao dar \u00eanfase na \u201cafronta ao sistema\u201d est\u00e1 falando da \u201ccultura marginal\u201d da \u201cGera\u00e7\u00e3o Mime\u00f3grafo\u201d da turma de Cacazo, Leminski, Chacal e Ana Cristina Cesar da qual Ney indiretamente tamb\u00e9m fez parte e valorizava elementos tidos como \u201cmarginais\u201d, \u201cao largo\u201d da nossa sociedade e que Ney incorporou tamb\u00e9m nos \u00e1lbuns entre 1975 e 1978. Muito claramente Rosa de Hiroshima n\u00e3o se encaixa nessa defini\u00e7\u00e3o de marginal que permeou a concep\u00e7\u00e3o deste setor.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ent\u00e3o, ela estava bem encaixada no setor seguinte, que tratou de verdadeiras p\u00e9rolas musicais da MPB que se tornaram sucesso na voz de Ney Matogrosso, exatamente o que foi Rosa de Hiroshima, inspirada em um bonito poema de Vin\u00edcius de Moraes que \u00e9 de 1946, quando ningu\u00e9m nem sonhava com o caldo pol\u00edtico do Brasil de 1954 que come\u00e7ou a chocar o ovo da serpente que culminou no golpe de 1964.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ao menos se salva nesse caderno a boa justificativa da Mocidade que tocou corretamente na ferida que a Mocidade n\u00e3o conseguiu demonstrar seu argumento principal do porque Rita Lee era a padroeira da liberdade, mote esse que sequer foi abordado em parte alguma do enredo e muito menos conseguiu se extrair da totalidade da mensagem, que ficou truncada em todo desenvolvimento.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Por todo o escrito, infelizmente termino este caderno com a sensa\u00e7\u00e3o que neste ano voltou o \u201cvelho Johnny pr\u00e9-pandemia\u201d com cadernos pol\u00eamicos e de dif\u00edcil compreens\u00e3o nas balizas do julgamento. Uma pena, pois ele tinha dado lugar a um julgador com excelentes cadernos ap\u00f3s a pandemia.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>M\u00f3dulo 3<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Julgadora: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Monica Man\u00e7ur<\/span><\/i><\/p>\n<ul>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Niteroi &#8211; 9,7 (Realiza\u00e7\u00e3o 4,8 e Criatividade 1,9)\u00a0<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Imperatriz &#8211; 10<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Portela &#8211; 10<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Mangueira &#8211; 9,9<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Mocidade &#8211; 9,6 (Concep\u00e7\u00e3o 2,9 e Realiza\u00e7\u00e3o 4,7)<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Beija-Flor &#8211; 10<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Viradouro &#8211; 10<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">U. da Tijuca &#8211; 9,9 (Realiza\u00e7\u00e3o 4,9)<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Tuiuti &#8211; 9,8 (Realiza\u00e7\u00e3o 4,8)<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Vila Isabel &#8211; 10<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Grande Rio &#8211; 9,9 (Realiza\u00e7\u00e3o 4,9)<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Salgueiro &#8211; 10<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">De forma geral, diria que a M\u00f4nica esse ano foi \u201ca julgadora das notas certas pelos motivos errados\u201d. Inicialmente ressalte-se que, diferente dos dois julgadores anteriores, ela justificou a moda antiga, apenas explicando os motivos dos descontos quando a nota n\u00e3o era 10 sem escrever qualquer palavra sobre os subquesitos nos quais ela deu a nota m\u00e1xima. As justificativas de notas 10 ficaram apenas para as escolas que tiraram 10 na soma dos subquesitos. Mas aqui n\u00e3o reclamarei pois sei que, apesar do comando n\u00edtido do Manual do Julgador, a LIESA deu instru\u00e7\u00f5es verbais conflitantes neste sentido nas reuni\u00f5es preparat\u00f3rias.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Por\u00e9m o primeiro problema grave deste caderno j\u00e1 salta aos olhos na Niter\u00f3i. A julgadora simplesmente esquece de emitir qualquer palavra de justificativa para o d\u00e9cimo retirado de criatividade da escola. Ela explica os dois d\u00e9cimos retirados de Realiza\u00e7\u00e3o, bem explicados at\u00e9, e a justificativa termina de forma abrupta. A julgadora simplesmente esqueceu de escrever sobre o d\u00e9cimo retirado de criatividade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Por\u00e9m at\u00e9 aqui, mesmo admitindo a gravidade da omiss\u00e3o, s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es que infelizmente acontecem algumas vezes de forma rara e isso n\u00e3o define se a pessoa \u00e9 boa ou m\u00e1 julgadora, assim como defendi Walber e Ana Paula Fernandes em situa\u00e7\u00f5es pontuais semelhantes no passado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A situa\u00e7\u00e3o come\u00e7a a se complicar quando analisamos a justificativa da perda do d\u00e9cimo da Mangueira. Segundo a julgadora o \u201cencanto 4\u201d, que \u00e9 como a Mangueira decidiu chamar os seus setores neste ano, sobre os tambores como vozes ancestrais n\u00e3o dialogava com o \u201cencanto\u201d anterior (o 3) sobre a cura como manifesto dos ancestrais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Aqui a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 pol\u00eamica. A Mangueira claramente decidiu por uma estrutura de enredo com setores estanques, em que cada setor enfocava uma realidade espec\u00edfica da vida do Mestre Sacaca enquanto membro da comunidade amaz\u00f4nida do Amap\u00e1. Ent\u00e3o come\u00e7ava pelo ritual ind\u00edgena Tur\u00e9 no 1\u00ba setor (que inclusive era despontu\u00e1vel por falta de elementos identificat\u00f3rios, mas talvez aqui eu esteja sendo exigente demais ao comparar com a apresenta\u00e7\u00e3o do Boi Garantido de 2010 sobre o mesmo ritual).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O Tur\u00e9 um ritual ind\u00edgena de agradecimento e cura que funde elementos das \u00e1guas, com a conex\u00e3o com os caruanas que vivem embaixo dos rios (os mesm\u00edssimos da Beija-Flor 1998), das ervas de cura e dos tambores para m\u00fasica e dan\u00e7a invocando curas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">E \u00e9 exatamente essa sequ\u00eancia de elementos trazidos pelo ritual Tur\u00e9 que a Mangueira traz na sequ\u00eancia dos setores, os rios do Amap\u00e1 no setor 2, as diversas ervas e misturas de cura pelos elementos da florestas e os tambores das diversas festas folcl\u00f3ricas do Amap\u00e1.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Se a julgadora acredita que os setores 3 e 4 nada tem a ver um com o outro, ela deveria ent\u00e3o criticar, desconstruir, toda a sequ\u00eancia dos 3 setores da Mangueira e n\u00e3o apenas o 3 e 4, j\u00e1 que todos os 3 est\u00e3o amalgamados no \u201cmito criador\u201d Ritual Tur\u00e9.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Logo, acredito que essa justificativa \u00e9 de dif\u00edcil aceita\u00e7\u00e3o, ao menos da forma como ela foi escrita. Mas acho que a M\u00f4nica acabou chegando a essa conclus\u00e3o equivocada justamente por causa da falta de alguns elementos do Ritual Tur\u00e9 l\u00e1 no in\u00edcio da escola que, a\u00ed sim, seriam perfeitamente descont\u00e1veis.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Depois a M\u00f4nica mais uma vez escorrega bastante nas palavras ao tirar o d\u00e9cimo de concep\u00e7\u00e3o da Mocidade quando diz que \u201ca associa\u00e7\u00e3o da figura de Rita Lee a qualquer t\u00edtulo de ordem convencional (religiosa ou n\u00e3o) como no caso de \u2018padroeira\u2019 desconstr\u00f3i o recorte libert\u00e1rio do enredo apresentado\u201d. Os independentes foram com tudo para cima da julgadora ap\u00f3s a divulga\u00e7\u00e3o desta justificativa n\u00e3o sem raz\u00e3o. Realmente o termo padroeira, mesmo tendo cunho denotativo religioso, foi usado na express\u00e3o t\u00edtulo do enredo justamente em um sentido subversivo justamente para ressaltar a defesa intransigente da liberdade que guiou a vida e a carreira de Rita Lee.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Por\u00e9m aqui acredito que eu entendi a julgadora. Ela s\u00f3 se enrolou completamente nas palavras e acabou dizendo algo completamente diferente. O real problema desse enredo e que, particularmente, acho que a julgadora quis tirar o ponto e n\u00e3o soube se expressar \u00e9 que a Mocidade em todo seu desenvolvimento do enredo passou ao largo de qualquer refer\u00eancia a essa express\u00e3o padroeira da liberdade, o que comprometeu totalmente a defesa do argumento central do enredo da Mocidade como bem explicado pelo Jhonny no caderno anterior.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ali\u00e1s como esse foi um problema grave no argumento central da escola que perpassou o desfile inteiro, seria bastante razo\u00e1vel que a julgadora, assim como seu colega de m\u00f3dulo espelhado, tirasse dois d\u00e9cimos inteiros de concep\u00e7\u00e3o por isso, por mais que ainda seja entend\u00edvel a escolha da M\u00f4nica por retirar apenas um d\u00e9cimo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ainda sim, chega em realiza\u00e7\u00e3o e assim como no ano passado, a M\u00f4nica escorrega feio na dosimetria da Mocidade, por\u00e9m dessa vez ajudando bastante a escola, o exato oposto do ano passado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em realiza\u00e7\u00e3o, a julgadora retira um d\u00e9cimo porque carro abre-alas n\u00e3o explica qual seria o rompimento est\u00e9tico a que se prop\u00f4s Rita Lee l\u00e1 na d\u00e9cada de 60 como deveria ser sua fun\u00e7\u00e3o no enredo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Logo depois, ela tira outro d\u00e9cimo do quarto setor porque ele trouxe o amor como marca eminentemente feminina, e no meio do caminho ainda tinha um Eros masculino perdido. Por\u00e9m a julgadora centrou-se no fato de que essa abordagem acabou n\u00e3o exaltando a pluralidade (aqui acredito no sentido de diversidade) como previsto no t\u00edtulo do setor. Essa n\u00e3o abordagem da pluralidade nesse setor \u00e9 discut\u00edvel, mas aceitemos o argumento at\u00e9 porque realmente o setor era uma exalta\u00e7\u00e3o a mulher e realmente Eros ficou completamente perdido nessa constru\u00e7\u00e3o. Mas percebam mais ou menos como tem sido o peso da julgadora na dosimetria para tirar um d\u00e9cimo em ambos os casos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Depois disso a julgadora ainda percebe que no 6\u00ba setor a figura central do enredo, Rita Lee, se perdeu no meio da \u201cmultiplicidade\u201d, o que comprometeu a continuidade do enredo; ela tamb\u00e9m percebe que no \u00faltimo setor a celebra\u00e7\u00e3o n\u00e3o retoma claramente o tema da liberdade proposto no t\u00edtulo se perdendo em mensagem saudosista de \u201cantigos carnavais\u201d e por fim ainda anota que \u201cde modo geral, alas e alegorias trouxeram certa puerilidade incomum aos \u2018gestos\u2019 s\u00f3cio-culturais de Rita Lee\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A\u00ed, por esse caminh\u00e3o de motivos, que incluem problemas em 2 setores inteiros, ela soma isso tudo para retirar apenas mais um m\u00edsero d\u00e9cimo em um clar\u00edssimo problema de dosimetria onde deveria se retirar pelo menos mais dois d\u00e9cimos e provavelmente mais tr\u00eas d\u00e9cimos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No fundo todos acreditamos que sabemos o que ocorreu. Depois de anotar isso tudo a julgadora deve ter visto o tamanho do problema e mandou a dosimetria \u00e0s favas para n\u00e3o dar o primeiro 9,4 do Grupo Especial desde 2016 ou o primeiro 9,5 desde 2023.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Depois, a julgadora justifica Tuiuti e Grande Rio por motivos interessantes at\u00e9, mesmo que discut\u00edveis, mostrando bastante rigor na explana\u00e7\u00e3o visual dos enredos em Realiza\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A\u00ed depois disso tudo, em todo esse caderno r\u00edgido at\u00e9, ela termina dando 10 para o Salgueiro elogiando a coer\u00eancia e o senso de unidade tem\u00e1tica em um enredo que como escrevi no caderno acima inverteu completamente o local das influ\u00eancias e ainda realizou uma fantasia sobre Imp\u00e9rio 1982 sem um pingo de verde com um tambor e uma roupa gen\u00e9rica\u2026 Infelizmente aqui, ao menos para mim, a coer\u00eancia do julgamento ficou comprometido aqui.<\/span><\/p>\n<p><b>M\u00f3dulo 4<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Julgadora: Lucinea dos Santos Ferreira<\/span><\/p>\n<ul>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Niteroi &#8211; 9,8 (Realiza\u00e7\u00e3o 4,9 e Criatividade 1,9)<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Imperatriz &#8211; 10<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Portela &#8211; 10<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Mangueira\u00a0 &#8211; 9,9 (Realiza\u00e7\u00e3o 4,9)<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Mocidade &#8211; 9,7 (Realiza\u00e7\u00e3o 4,8 e Criatividade 1,9)<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Beija-Flor &#8211; 10<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Viradouro &#8211; 10<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">U. da Tijuca &#8211; 10<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Tuiuti &#8211; 10<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Vila Isabel &#8211; 10<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Grande Rio &#8211; 9,8 (Realiza\u00e7\u00e3o 4,8)<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Salgueiro &#8211; 10<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A Lucineia, assim como a M\u00f4nica, justificou a moda antiga. Onde a nota n\u00e3o foi 10, ela n\u00e3o justificou a nota m\u00e1xima dos outros subquesitos, s\u00f3 os motivos do desconto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">E, seguindo a longa tend\u00eancia hist\u00f3rica que julgador novato desconta pouco, a Lucineia em seu ano de estreia deu nada menos que oito notas 10, ou alucinantes dois ter\u00e7os da escola. Convenhamos, como j\u00e1 escrevi no m\u00f3dulo 1, que com certeza n\u00e3o foi um ano de enredos sensacionais para justificar tanta nota 10.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Por\u00e9m, mesmo nas oito justificativas da nota m\u00e1xima, diferente da outra julgadora estreante do quesito, aqui se percebe justificativas personalizadas, destacando reais pontos altos e desafios alcan\u00e7ados, ao menos na vis\u00e3o da julgadora, em cada um dos diferentes trabalhos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Aqui especialmente destaco a justificativa do 10 da Tijuca que foi a primeira que me fez olhar uma situa\u00e7\u00e3o de uma perspectiva diferente e aceitar de bom grado a vis\u00e3o da julgadora, mesmo que n\u00e3o concordando: &#8220;Chamo a aten\u00e7\u00e3o para as cores predominantes na realiza\u00e7\u00e3o de tons escuros\/marrom enunciando quest\u00f5es dolorosas do mundo de mulheres negras.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A utiliza\u00e7\u00e3o desses signos n\u00e3o enriquece a realiza\u00e7\u00e3o em termos da rela\u00e7\u00e3o luxuosa, mas sim significados intensos de estado de esp\u00edrito, psicol\u00f3gico do ser narrado em quest\u00e3o.&#8221;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Os poucos descontos dados tamb\u00e9m s\u00e3o claros e, salvo a Grande Rio, praticamente irrefut\u00e1veis. Inclusive acredito que a julgadora colocou de forma mais assertiva a situa\u00e7\u00e3o da Mangueira que ficou meio nublada no caderno anterior.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Lucineia anotou que Mestre Sacaca em si apareceu em 3 momentos apenas e que n\u00e3o ficou claro se a narrativa era sobre ele ou sobre as culturas do Amap\u00e1 e que o desfile ficou dividido em dois blocos, um ind\u00edgena com os dois primeiros setores e a partir da\u00ed outro sobre a Amaz\u00f4nia Negra, sem coes\u00e3o narrativa entre eles. Acho que esse \u00e9 o \u00e2mago da quest\u00e3o que a M\u00f4nica at\u00e9 apontou no caderno anterior mas al\u00e9m de n\u00e3o conseguir explicar, n\u00e3o conseguiu identificar corretamente o momento da quebra.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Acredito que a Mangueira pensou que o setor da cura, por juntar os conhecimentos ancestrais ind\u00edgena e negro seria o ponto ideal de transi\u00e7\u00e3o, mas concordo com a julgadora que acabou ficando mais puxado para o negro do que o ind\u00edgena. Eu acrescento que essa sensa\u00e7\u00e3o foi ressaltada pelas escolhas est\u00e9tico-crom\u00e1ticas desse setor.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Por\u00e9m acredito que a grande pol\u00eamica da julgadora est\u00e1 na justificativa da Grande Rio. Ela descontou o fato que a escola criou um &#8220;grande bloco de cor roxa&#8221; no in\u00edcio do desfile: comiss\u00e3o de frente at\u00e9 o Abre-Alas com um trip\u00e9 e duas alas no meio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A julgadora ressaltou que sabia que era uma alus\u00e3o a Nan\u00e3, mas pontuou que o extenso espa\u00e7o em cor roxa no desfile ficou desproporcional visualmente, separando o setor mangue do resto da realiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica como um todo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Inicialmente h\u00e1 um clar\u00edssimo problema de dosimetria aqui. Por esse problema bastante localizado a julgadora decidiu retirar sozinho dois d\u00e9cimos da Grande Rio. Essa foi a \u00fanica justificativa para o 9.8 na lata. Sem d\u00favidas era um problema para apenas um d\u00e9cimo, pois n\u00e3o era mais grave do que qualquer outro que ela apontou para tirar todos os outros poucos d\u00e9cimos do caderno.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mesmo do ponto de vista argumentativo \u00e9 uma justificativa pol\u00eamica. Inicialmente, apesar de focar bastante no visual e eu sempre martelar que o julgador de enredo deve se ater a hist\u00f3ria contada sem entrar em m\u00e9ritos art\u00edsticos de bonito e feio, a julgadora ressaltou na justificativa que na vis\u00e3o dela essa proposta est\u00e9tica acabou quebrando a coes\u00e3o do desenvolvimento do enredo, enquadrando-se perfeitamente dentro dos crit\u00e9rios de julgamento do quesito.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Por\u00e9m, mesmo pessoalmente tendo achado uma m\u00e1 escolha est\u00e9tica essa abertura em roxo, acredito que entre isso e chegar a conclus\u00e3o essa escolha apartou esse in\u00edcio do resto do desenvolvimento meramente pela escolha do tom predominante \u00e9 um passo muito grande. Tanto \u00e9 que a ala seguinte, depois de mostrar o mangue &#8220;cru&#8221;, &#8220;selvagem&#8221;, vem aos poucos construindo a vida humana que permeia e gerou o ambiente de onde surgiram as ideias que fundaram o movimento cultural manguebeat, de forma que a hist\u00f3ria n\u00e3o perde em nada em coes\u00e3o. Mas fique registrada a vis\u00e3o da julgadora.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em suas considera\u00e7\u00f5es finais, Lucineia escreveu que &#8220;nem todo 10 tem o mesmo valor. Quando seguimos o conceito e realizamos os subquesitos obtemos a nota 10. Mas deixo aqui que alguns 10 somam-se a beleza do trabalho pl\u00e1stico-visual ao modo de como uma hist\u00f3ria \u00e9 contada e a intensidade de como produzimos o tema em quest\u00e3o.&#8221;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Esse \u00e9 um tema recorrente em conversas com julgadores, que existem notas 10 e notas 10. Em alguns casos o 10 \u00e9 dado porque cumpriu todos os crit\u00e9rios de julgamento, mas n\u00e3o necessariamente isso significa o alcance da excel\u00eancia no quesito em quest\u00e3o. Por\u00e9m, nesse caso espec\u00edfico, mesmo sem haver nenhuma determina\u00e7\u00e3o das escolas que alcan\u00e7aram essa &#8220;excel\u00eancia&#8221;, fico me perguntando se essa considera\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixa de ser um certo mea-culpa na quantidade dada de notas 10.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Recomenda\u00e7\u00f5es para a LIESA em rela\u00e7\u00e3o ao quesito Enredo:<\/span><\/p>\n<ul>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Refor\u00e7ar a aten\u00e7\u00e3o do julgador quanto a congru\u00eancia das refer\u00eancias art\u00edsticas do desfile com o enredo proposto.<\/span><\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em enredo as notas 10 foram exatamente iguais a 2025, 28 ou 58%, impulsionadas pela benevol\u00eancia das duas julgadoras novatas. 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