{"id":39164,"date":"2016-01-06T07:12:41","date_gmt":"2016-01-06T09:12:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=39164"},"modified":"2016-01-06T08:12:24","modified_gmt":"2016-01-06T10:12:24","slug":"uma-analise-sobre-o-cd-do-grupo-especial-de-sao-paulo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2016\/01\/uma-analise-sobre-o-cd-do-grupo-especial-de-sao-paulo\/","title":{"rendered":"Uma an\u00e1lise sobre o CD do Grupo Especial de S\u00e3o Paulo &#8211; Parte 1"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Nas \u00faltimas semanas analisei aqui no Ouro de Tolo os sambas que passar\u00e3o pela Marqu\u00eas de Sapuca\u00ed no Carnaval de 2016. Agora, trago aqui minhas impress\u00f5es acerca dos hinos das 14 agremia\u00e7\u00f5es que fazem parte do Grupo Especial de S\u00e3o Paulo. Antes de mais nada, acho importante salientar que os meus par\u00e2metros para conceder as notas s\u00e3o os mesmos rezados pelos Manuais dos Julgadores. Por isso, falando dos sambas de S\u00e3o Paulo, trabalho sem subdivis\u00e3o em letra e melodia e com um intervalo de 8,0 a 10,0, al\u00e9m de separar os erros em leves, m\u00e9dios e graves, como manda a cartilha. Por isso, as notas podem parecer um tanto mais rigorosas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Falando da safra em si, \u00e9 mais uma abaixo do que seria o ideal, mas \u00e9 sem sombra de d\u00favidas a melhor safra desde 2012. Se de 2013 pra c\u00e1 os CDs foram decepcionantes pela qualidade baixa das obras, neste ano temos um bom disco. H\u00e1, enfim, um processo de retomada na qualidade dos sambas e, o que \u00e9 melhor, um resgate de v\u00e1rias escolas da caracter\u00edstica do samba paulistano. Depois das safras problem\u00e1ticas dos \u00faltimos anos (especialmente 2014), n\u00e3o daria mesmo para esperar uma safra espetacular de uma hora para outra. O importante \u00e9 que melhorou bastante e h\u00e1 uma luz no fim do t\u00fanel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O grande destaque do CD, uma vez mais, \u00e9 a fant\u00e1stica produ\u00e7\u00e3o de todas as faixas. A falta de um coro das comunidades tira um pouco da \u201ccara de Avenida\u201d das obras, mas, \u00e0 parte essa limita\u00e7\u00e3o, a produ\u00e7\u00e3o \u00e9 perfeita. O cuidado da produ\u00e7\u00e3o ajuda a valorizar os sambas e \u00e9 o ouvinte recebe um som \u201climpo\u201d, bem cuidado e com adequa\u00e7\u00f5es interessantes \u00e0 voz de cada um dos int\u00e9rpretes e ao estilo dos sambas. Se nos \u00faltimos anos a produ\u00e7\u00e3o de Rodrigo Pimentel ajudou a \u201csalvar\u201d os CDs, neste ano ela jogou junto com a boa qualidade das obras e o resultado foi ainda melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora sim, vamos aos sambas, na ordem inversa de minha prefer\u00eancia, e divididos em partes: hoje, a primeira, com cinco sambas. Amanh\u00e3, outros cinco sambas e na quinta-feira, os quatro melhores na minha opini\u00e3o, al\u00e9m das notas de cada obra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>14) Mocidade Alegre: \u201cAyo&#8230; A alma ancestral do samba\u201d \u2013 Igor Sorriso<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Compositores: Gui Cruz \/ Luciano Rosa \/ Portuga \/ Rafael Falanga \/ Rodrigo Minuetto \/ Vitor Gabriel<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[embedplusvideo height=&#8221;283&#8243; width=&#8221;450&#8243; editlink=&#8221;http:\/\/bit.ly\/1RrmXHh&#8221; standard=&#8221;http:\/\/www.youtube.com\/v\/jhY6TI9lNLA?fs=1&amp;vq=hd720&#8243; vars=&#8221;ytid=jhY6TI9lNLA&amp;width=450&amp;height=283&amp;start=&amp;stop=&amp;rs=w&amp;hd=1&amp;autoplay=0&amp;react=1&amp;chapters=&amp;notes=&#8221; id=&#8221;ep8269&#8243; \/]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se me dissessem na \u00e9poca da disputa que eu escreveria hoje que a Mocidade Alegre tem o pior samba do Grupo Especial, eu teria dificuldades para acreditar. Em uma safra com pelo menos seis sambas que poderiam figurar tranquilamente no topo dessa lista, a Morada acabou optando por uma obra de baixa qualidade e que me decepciona muito. Especialmente pelo n\u00edvel do enredo, era dif\u00edcil imaginar que a Mocidade teria em 2016 o seu pior samba em muito tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A constru\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica da obra tentou unir caracter\u00edsticas t\u00edpicas dos sambas afro com um andamento mais alegre e alinhado \u00e0s caracter\u00edsticas mais recentes da Morada do Samba. O resultado n\u00e3o foi bom e a impress\u00e3o ruim \u00e9 acentuada pela falta de cuidado com a melodia em alguns trechos. A primeira parte, por exemplo, tem duas transi\u00e7\u00f5es mel\u00f3dicas extremamente mal costuradas em <em>\u201cKa\u00f4, Kabecil\u00ea, Xang\u00f4 \/ Com seu ox\u00e9, o poder do trov\u00e3o\u201d<\/em> e <em>\u201cA alma revela, o som contagia \/ Oy\u00e1&#8230; Seus ventos que sopraram pelo ar&#8230; Eparrei Oy\u00e1!\u201d<\/em>. Prestando aten\u00e7\u00e3o na letra (que \u00e9 muito boa, por sinal, e conta a hist\u00f3ria do enredo com muita clareza), fica clara a op\u00e7\u00e3o por dividir a estrofe em tr\u00eas partes. O resultado, no entanto, foi desastroso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 flagrante o abismo de qualidade entre a letra e a melodia. Um dos melhores trechos do samba em termos de letra, por exemplo, \u00e9 <em>\u201cO corpo balan\u00e7a, a pele arrepia \/ A alma revela, o som contagia\u201d<\/em>. A melodia, por\u00e9m, tem um andamento t\u00e3o acelerado que acaba se prolongando nesses versos para que a mensagem consiga ser transmitida por completo. A primeira parte, apesar de todos esses pesares, termina com um bom casamento entre letra e melodia em <em>\u201cNa revoada encontra o novo mundo \/ E matizado com as cores desse ch\u00e3o \/ Salve a negra heran\u00e7a viva da na\u00e7\u00e3o\u201d<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O refr\u00e3o do meio \u00e9 o ponto alto da obra. \u00c9 um dos poucos momentos onde o andamento acelerado encontra um \u00f3timo entrosamento com a letra, que transmite com clareza o momento em que os batuques ancestrais mostrados na primeira parte levam ao surgimento do samba. A segunda parte tem uma constru\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica bem mais calma e agrad\u00e1vel, mas acaba sofrendo justamente pelo contraste com o resto do samba. A queda no ritmo da obra a partir do refr\u00e3o do meio \u00e9 impressionante. Em alguns momentos, os dois trechos n\u00e3o parecem fazer parte da mesma obra. Se a primeira parte j\u00e1 \u00e9 um recorte de tr\u00eas desenhos musicais, a segunda entra como um quarto. O samba, no final das contas, n\u00e3o tem unidade, coes\u00e3o, e \u00e9 uma colcha de retalhos melodicamente falando. O que \u00e9 curioso pois a letra, como eu j\u00e1 disse, vai na m\u00e3o extremamente oposta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gosto muito da ideia de apresentar o samba como <em>\u201cprofano ou sagrado\u201d<\/em> e tamb\u00e9m do momento em que o samba passa a ser o eu-l\u00edrico da obra. Se aproveitando de m\u00fasicas conhecidas, a Mocidade \u201cpassa o bast\u00e3o\u201d para o samba nos versos <em>\u201c\u201dA Voz do Morro\u201d sou eu mesmo, sim senhor! \/ \u201cPelo Telefone\u201d o Brasil revelou: \u201cEu sou o samba!\u201d\u201d<\/em>. Nesse verso, a prop\u00f3sito, est\u00e1 a melhor transi\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica de toda a obra. \u00c9 muito bem feito. Tamb\u00e9m me agrada bastante o verso <em>\u201cSou a nobreza que invade os terreiros\u201d<\/em>. A obra ainda apresenta dois bons refr\u00e3es colados. O primeiro segue a linha mais comedida da estrofe anterior e tem como melhor trecho o verso <em>\u201cE quando cresci fiz escola\u201d<\/em>. O segundo j\u00e1 apresenta a correria da primeira parte, mas n\u00e3o compromete. Igor Sorriso tem desempenho fant\u00e1stico, se afirmando como um dos melhores cantores da atualidade, e ajuda a levantar o samba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>13) P\u00e9rola Negra: \u201cDo Canind\u00e9 ao samba no p\u00e9. A Vila Madalena nos passos do bal\u00e9\u201d \u2013 Juninho Branco<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Composi\u00e7\u00e3o: Jairo Roizen \/ Celsinho Mody \/ Guga Mercadante \/ Nando do Cavaco \/ Marcelo Zola \/ Sidney Arruda \/ Filosofia Diley \/ Xandinho Nocera<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[embedplusvideo height=&#8221;283&#8243; width=&#8221;450&#8243; editlink=&#8221;http:\/\/bit.ly\/1RrmRiX&#8221; standard=&#8221;http:\/\/www.youtube.com\/v\/vAdmMAKcQ7w?fs=1&amp;vq=hd720&#8243; vars=&#8221;ytid=vAdmMAKcQ7w&amp;width=450&amp;height=283&amp;start=&amp;stop=&amp;rs=w&amp;hd=1&amp;autoplay=0&amp;react=1&amp;chapters=&amp;notes=&#8221; id=&#8221;ep4642&#8243; \/]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O samba me surpreendeu bastante. Depois de alguns anos apostando em sambas densos e melodiosos, a P\u00e9rola Negra resolveu se soltar e apresenta um samba alegre, animado e que contagia. Tem algumas falhas se partirmos para uma an\u00e1lise mais t\u00e9cnica, mas sem d\u00favida alguma tem \u00f3timo potencial e \u00e9 um dos mais agrad\u00e1veis de se escutar no CD (imagino que ser\u00e1 assim tamb\u00e9m no desfile, mas isso s\u00f3 se saber\u00e1 no dia). Popular, peca pela falta de cuidado com alguns erros bobos, mas passa bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O refr\u00e3o principal \u00e9 sem d\u00favida alguma o ponto alt\u00edssimo da obra. A melodia \u00e9 uma maravilha e a letra \u00e9 um convite para entrar no esp\u00edrito do enredo e sair dan\u00e7ando: <em>\u201c\u00c9 na ginga da dan\u00e7a&#8230; que eu vou \/ Solta o corpo e balan\u00e7a&#8230; amor\u201d<\/em>&#8230; Tamb\u00e9m gosto muito do in\u00edcio da primeira parte, especialmente dos versos <em>\u201c\u00c9 carnaval, a minha vila contagia \/ A joia rara te convida pra dan\u00e7ar\u201d<\/em>. A constru\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica pede o tempo todo os tons mais altos a partir do verso seguinte, o que come\u00e7a a ser um problema quando os versos s\u00e3o curtos e exigem tons ainda mais altos para se encaixarem na melodia. Tal problema aparece em <em>\u201cA revoada cortando o ar\u201d<\/em> e <em>\u201cO \u00edndio cantou e dan\u00e7ou a noite inteira\u201d<\/em>. O andamento mais acelerado, por\u00e9m, \u00e9 um acerto que contribui para que o samba flua com facilidade. H\u00e1 apenas um verso que destoa nesse conjunto e acaba se arrastando: <em>\u201cNas \u00e1guas o bailar da sutileza\u201d<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O refr\u00e3o do meio tamb\u00e9m se perde melodicamente pelas subidas excessivas no tom. O que \u00e9 apenas um inc\u00f4modo nos demais trechos acaba se tornando desagrad\u00e1vel em <em>\u201cFazendo festa pro seu rei coroar\u201d<\/em>. J\u00e1 a entrada da segunda parte \u00e9 muito boa e tem melodia bastante agrad\u00e1vel em <em>\u201cEh sanfoneiro puxa o fole bem ligeiro \/ Pra folia come\u00e7ar\u201d<\/em>, mas apresenta um prolongamento um pouco inc\u00f4modo no verso <em>\u201cBate zabumba e pandeiro\u201d<\/em>. Na sequ\u00eancia, entretanto, o samba vive \u00f3timo momento ao passar o clima da Vila Madalena dos bares. O bairro de onde vem a P\u00e9rola Negra \u00e9 apresentado como o lugar em que <em>\u201cNas ruas o povo espalha alegria\u201d<\/em> e vem <em>\u201cRitmando a cultura da arte popular\u201d<\/em>. O encerramento do desfile mostrar\u00e1 momentos em que a Vila Madalena reuniu gente de todo o mundo como a Copa de 2014, e tamb\u00e9m lembrar\u00e1 o cemit\u00e9rio do lado da antiga quadra da escola. Da\u00ed surge o \u00f3timo trecho: <em>\u201cOl\u00e9,ol\u00e9&#8230; Ol\u00e9, ol\u00e1&#8230; faz mais um eu quero ver a galera delirar \/ E nesse embalo l\u00e1 vou eu \/ Na Vila Madalena, samba at\u00e9 quem j\u00e1 morreu!!!\u201d<\/em>. Esses versos resgatam o samba-enredo paulistano da d\u00e9cada de 90, que era alegre, divertido, e \u201cjogava para a galera\u201d. Foi um acerto e tanto. Juninho Branco, pela primeira vez cantando fora de Itaquera, tem bom desempenho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>12) Acad\u00eamicos do Tucuruvi: \u201cCelebrando a religiosidade, Tucuruvi canta festas de f\u00e9\u201d \u2013 Alex Soares<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Composi\u00e7\u00e3o: Arlindo Neto \/ Bruno Govetri \/ Carlos Jr. \/ Igor Sor\u00f3 \/ Jo\u00e3o Batucada \/ Leandro Augusto \/ Marcelo Pires \/ Tim Peixoto<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[embedplusvideo height=&#8221;283&#8243; width=&#8221;450&#8243; editlink=&#8221;http:\/\/bit.ly\/1RrmLb5&#8243; standard=&#8221;http:\/\/www.youtube.com\/v\/9C5uT9G5AKY?fs=1&amp;vq=hd720&#8243; vars=&#8221;ytid=9C5uT9G5AKY&amp;width=450&amp;height=283&amp;start=&amp;stop=&amp;rs=w&amp;hd=1&amp;autoplay=0&amp;react=1&amp;chapters=&amp;notes=&#8221; id=&#8221;ep7354&#8243; \/]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra grande decep\u00e7\u00e3o nessa safra. Depois de apresentar grandes sambas nos \u00faltimos seis Carnavais, a Tucuruvi apresenta em 2016 uma obra de baixa qualidade e que n\u00e3o empolga. Em v\u00e1rios momentos, o samba passa bem, sem descompassos mel\u00f3dicos, e com uma letra que apresenta com clareza diversos pontos do enredo. No entanto, n\u00e3o h\u00e1 muita criatividade nos desenhos musicais e a op\u00e7\u00e3o por uma constru\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica mais densa acaba, em alguns momentos, contribuindo para o arrastamento do samba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos pontos positivos, para come\u00e7ar com elogios, \u00e9 o refr\u00e3o principal. \u00c9 bonito, tem um verso interessante (<em>\u201cAcreditar pra ser feliz\u201d<\/em>) e cumpre bem o seu papel. A primeira parte, por\u00e9m, come\u00e7a com alguns trope\u00e7os. Primeiro, os versos <em>\u201cEu vou comemorar \/ Na festa da santa cruz \/ Um dom divino reluz\u201d<\/em> acabaram um pouco deslocados em rela\u00e7\u00e3o ao resto da estrofe, quebrando o conjunto da letra. Depois, um pouco mais \u00e0 frente, vem a minha maior surpresa negativa quanto \u00e0 obra. \u00c0 \u00e9poca da disputa, o samba apresentava uma melodia maravilhosa no verso <em>\u201cMiscigenou com gente vinda de al\u00e9m-mar\u201d<\/em>, que puxava uma transi\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica extremamente bem feita e melodiosa. Agora, n\u00e3o s\u00f3 ficou desagrad\u00e1vel com uma subida de tom esquisita, como tamb\u00e9m quebrou o conjunto mel\u00f3dico. Uma pena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O refr\u00e3o do meio tem uma letra simples e bem feita, mas peca pela melodia. Os versos s\u00e3o curtos demais e acabam sendo prolongados de maneira inc\u00f4moda para \u201cfechar\u201d com os desenhos mel\u00f3dicos, o que mais uma vez acaba contribuindo para o arrastamento do samba. Para piorar, ele tem uma melodia bastante destoante do resto da obra, o que atrapalhou um dos grandes momentos do samba: a entrada da segunda parte com os versos <em>\u201cLevanta a poeira do ch\u00e3o&#8230; sinh\u00f4 \/ Ajeita o la\u00e7o de fita&#8230; sinh\u00e1\u201d<\/em>. \u00c9 gostoso de ouvir, mas \u00e9 fruto de uma quebra mel\u00f3dica ap\u00f3s o refr\u00e3o do meio e prepara outra quebra mel\u00f3dica a partir do verso seguinte. O mesmo ocorre entre do verso <em>\u201cArrasta-p\u00e9 no balanc\u00ea a noite inteira\u201d<\/em> para o verso <em>\u201cL\u00e1 no c\u00e9u, uma estrela anuncia\u201d<\/em>. A partir deste verso, ali\u00e1s, o samba vive seu melhor momento com uma letra interessante e uma mensagem bonita: <em>\u201cVamos plantar fraternidade \/ Um brinde \u00e0 felicidade \/ Unindo a fam\u00edlia, \u00e9 tempo de amor \/ Vivendo a paz do redentor\u201d<\/em>. Alex Soares conduz o samba com seguran\u00e7a, mas tem um grave problema de dic\u00e7\u00e3o que compromete muito seu desempenho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>11) Drag\u00f5es da Real: \u201cSurpresa! Adivinhe o que eu trouxe pra voc\u00ea?\u201d \u2013 Daniel Collete<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Composi\u00e7\u00e3o: Arm\u00eanio Poesia \/ Xandinho Nocera \/ Wagner Rodrigues \/ Fredy Vianna \/ Maurinho da Mazzei \/ Tuca Maia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O interessant\u00edssimo enredo dos presentes deu \u00e0 Drag\u00f5es da Real um samba correto. Melodia bem trabalhada, letra que explora bem todos os pontos do enredo e algumas boas sacadas que trazem o p\u00fablico para o esp\u00edrito do enredo. N\u00e3o \u00e9, no entanto, um samba que empolga. Mesmo n\u00e3o sendo a empolga\u00e7\u00e3o a marca maior dos \u00faltimos sambas da Drag\u00f5es, este, ao contr\u00e1rio dos outros, \u00e9 carente de um pouco mais de criatividade, explos\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 ruim, mas decepciona um pouco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A letra \u00e9 bastante inteligente em v\u00e1rios pontos. Um deles \u00e9 o refr\u00e3o principal, que responde ao questionamento trazido no t\u00edtulo do enredo de maneira interessante. <em>\u201cNossa hist\u00f3ria o amor revela \/ A surpresa chegou: \u00e9 ela!\u201d<\/em>. Aqui come\u00e7a, depois de toda a hist\u00f3ria contada no enredo, a ser revelada a surpresa. Essa revela\u00e7\u00e3o vem atrav\u00e9s do amor pela escola, que \u00e9 um ponto marcante em muitos sambas da Drag\u00f5es. Na sequ\u00eancia, enredo e escola se associam atrav\u00e9s de uma miss\u00e3o: <em>\u201cO mesmo ideal, brilhar no carnaval \/ Drag\u00f5es da Real\u201d<\/em>. S\u00e3o rimas simples, mas bem costuradas e que constroem um conjunto e conferem unidade \u00e0 letra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O samba apresenta uma constru\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica cuidadosa na primeira parte, enquanto a letra tamb\u00e9m descreve o desfile com muita fidelidade. O eu-l\u00edrico \u00e9 o pr\u00f3prio tema do enredo, os presentes, e estes s\u00e3o apresentados com algum lirismo na medida do poss\u00edvel: <em>\u201cSou eu&#8230; O porta-voz da alegria \/ A magia que desperta emo\u00e7\u00f5es\u201d<\/em>. Acho apenas que todo esse cuidado a melodia foi por \u00e1gua abaixo em <em>\u201cTenho orgulho de ser Drag\u00f5es\u201d<\/em> pois a letra \u00e9 atropelada pela melodia. Esse verso, ali\u00e1s, nos leva a uma observa\u00e7\u00e3o importante. O samba acaba criando uma armadilha para si mesmo e \u00e9 nesse verso que acaba derrapando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O refr\u00e3o principal, como se viu, revela a Drag\u00f5es como presente. O resto do samba, por\u00e9m, aponta os presentes mostrando suas qualidades e sua presen\u00e7a na hist\u00f3ria da humanidade. At\u00e9 a\u00ed, tudo bem. Conta-se uma hist\u00f3ria e revela-se uma surpresa no fim. O problema \u00e9 que esse verso <em>\u201cTenho orgulho de ser Drag\u00f5es\u201d<\/em> indica uma rela\u00e7\u00e3o de proximidade entre o eu-l\u00edrico e a escola, o que definitivamente destoa do resto da letra. A armadilha, portanto, foi construir uma letra com os presentes falando em primeira pessoa. Isso automaticamente \u201cmatou\u201d qualquer outra associa\u00e7\u00e3o entre o eu-l\u00edrico e a escola. Tamb\u00e9m acho de dif\u00edcil compreens\u00e3o o verso seguinte: <em>\u201cSou eu&#8230; O pensamento, a ora\u00e7\u00e3o\u201d<\/em>, visto que na verdade isso seria uma consequ\u00eancia de um presente e n\u00e3o uma caracter\u00edstica do mesmo. Por outro lado, esse trecho tem uma melodia crescente que foi muito bem trabalhada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 o refr\u00e3o do meio \u00e9 animado e divertido: <em>\u201cMe pega, me leva, mas preste aten\u00e7\u00e3o \/ A fama de \u201cgrego\u201d n\u00e3o quero n\u00e3o! \/ Fui abandonado, deixado de lado \/ Meu bem me tira dessa confus\u00e3o\u201d<\/em>. Seria perfeito se tamb\u00e9m n\u00e3o ca\u00edsse em uma armadilha trazida pela funcionalidade do samba. A constru\u00e7\u00e3o da letra privilegiou aspectos inerentes aos presentes e n\u00e3o sua hist\u00f3ria, de modo que esta estrofe essencialmente hist\u00f3rica destoou completamente do resto da letra. Por outro lado, o in\u00edcio da segunda parte tem uma letra muito bacana: <em>\u201cSaudade serei sua imagem \/ A lembran\u00e7a renasce no olhar \/ Fiz da ilus\u00e3o realidade \/ Da felicidade o meu lugar!\u201d<\/em>. \u00c9 uma segunda parte bonita, que traz caracter\u00edsticas de sambas anteriores da escola e tem uma boa passagem em <em>\u201cCaminhei unindo sonhos e paix\u00f5es\u201d<\/em>, mas acaba pecando apenas em dois momentos: na transi\u00e7\u00e3o mal resolvida entre os versos <em>\u201cDe m\u00e3o em m\u00e3o, por gera\u00e7\u00f5es\u201d <\/em>e <em>\u201cS\u00e3o tantos momentos e dias\u201d <\/em>e por novamente cair na armadilha do eu-l\u00edrico. Os versos <em>\u201cVou me entregar nesta folia \/ Provar o meu real valor\u201d<\/em> s\u00e3o \u00f3timos pela sacada do <em>\u201cme entregar\u201d<\/em> associado a entregar um presente e pela ideia de que esse presente vem revelando o seu valor, o que se encaixa perfeitamente na escola, mas j\u00e1 est\u00e3o justamente encaixados com o presente que s\u00f3 vai ser revelado na sequ\u00eancia. Um deslize leve, mas ainda assim um deslize. Daniel Collete mais uma vez fez \u00f3tima grava\u00e7\u00e3o e deu outra vida ao samba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>10) Nen\u00ea de Vila Matilde: \u201cNen\u00ea apresenta seu musical: Rainha Raia nas asas do Carnaval\u201d \u2013 Agnaldo Amaral<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Composi\u00e7\u00e3o: Kaska \/ Silas Augusto \/ Z\u00e9 Paulo Sierra \/ Vit\u00e3o \/ Sandrinho \/ Juninho da Vila \/ Claudio Matos<\/strong><\/p>\n<p>[embedplusvideo height=&#8221;283&#8243; width=&#8221;450&#8243; editlink=&#8221;http:\/\/bit.ly\/1RrmzJ4&#8243; standard=&#8221;http:\/\/www.youtube.com\/v\/GXLvTt5vRjk?fs=1&amp;vq=hd720&#8243; vars=&#8221;ytid=GXLvTt5vRjk&amp;width=450&amp;height=283&amp;start=&amp;stop=&amp;rs=w&amp;hd=1&amp;autoplay=0&amp;react=1&amp;chapters=&amp;notes=&#8221; id=&#8221;ep8598&#8243; \/]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Nen\u00ea de Vila Matilde aposta no Carnaval de 2016 em uma homenagem aos 30 anos de carreira da atriz Cl\u00e1udia Raia. O samba pode n\u00e3o ser um espet\u00e1culo como foi o de 2015, mas \u00e9 bastante competente. Com uma constru\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica mais leve e uma letra que alterna passagens mais po\u00e9ticas com express\u00f5es mais coloquiais e refer\u00eancias \u00e0 pap\u00e9is marcantes da atriz homenageada. A caracter\u00edstica mais marcante da obra s\u00e3o as altern\u00e2ncias muito bem constru\u00eddas entre as passagens mel\u00f3dicas mais cadenciadas e as mais aceleradas. A constru\u00e7\u00e3o foi muito bem planejada, valorizando assim os diversos pontos abordados pela letra. Em resumo, a \u00c1guia da Zona Leste tem um hino com bom potencial para o desfile, mas que apresenta algumas falhas se analisarmos de maneira um pouco mais atenta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ponto alto do samba \u00e9 o excelente refr\u00e3o principal. Com um andamento mais acelerado, muito caracter\u00edstico da Nen\u00ea, a estrofe contagia e convida o p\u00fablico para entrar na ess\u00eancia do enredo atrav\u00e9s de uma letra muito bem constru\u00edda. H\u00e1 um trocadilho \u00f3bvio e muito pertinente em <em>\u201cQuem \u00e9 da Vila, n\u00e3o foge da Raia\u201d<\/em> e apresenta muito bem o enredo em <em>\u201cEntra na dan\u00e7a desse Carnaval \/ Com a Rainha do teatro musical\u201d<\/em>. A primeira parte do samba aposta em uma constru\u00e7\u00e3o bastante melodiosa, em perfeita conson\u00e2ncia com a letra, que inicia o \u201cmusical\u201d com os primeiros passos de Cl\u00e1udia Raia, ainda crian\u00e7a. Ainda que opte por uma melodia mais cadenciada, a cabe\u00e7a do samba consegue contagiar e tem um ritmo suave e agrad\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na primeira parte, o samba acaba trope\u00e7ando nos versos excessivamente prolongados, que provocam subidas de tom inc\u00f4modas, como se v\u00ea em <em>\u201cSurgiu assim linda Julieta\u201d<\/em> e <em>\u201cL\u00e1 vem o grande domador\u201d<\/em>. Por outro lado, a letra se destaca pela clareza e por alguns trechos muito interessantes como <em>\u201c\u00c9 fantasia que d\u00e1 e passa \/ Paix\u00e3o t\u00e3o louca que arrebata \/ E a menina se transformou&#8230;\u201d<\/em>. Esse trecho, que encerra a primeira parte, inicia o momento do enredo em que Cl\u00e1udia come\u00e7a a ganhar os palcos. A transi\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica da primeira parte para a estrofe principal \u00e9 outro ponto interessant\u00edssimo, visto que o samba retoma as caracter\u00edsticas menos cadenciadas e os desenhos musicais mais alegres vistos no refr\u00e3o principal. No entanto, dentro dessa estrofe, h\u00e1 um descompasso entre os dois primeiros versos e os dois \u00faltimos, chegando inclusive a haver um arrastamento em <em>\u201cDe musicais em musicais \/ Pelo mundo despontou\u201d<\/em>. H\u00e1 um claro contraste com o in\u00edcio da estrofe, <em>\u201cO Mestre mandou dan\u00e7ar (\u00f4\u00f4\u00f4) \/ A mo\u00e7a rodou a saia, dan\u00e7ou\u201d<\/em>, cuja letra \u00e9 uma das mais bem feitas de toda a obra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, a sa\u00edda do refr\u00e3o do meio para a estrofe anterior ao refr\u00e3o principal \u00e9 sensacional. Com versos mais curtos e um andamento mais acelerado, o samba entra no seu trecho mais popularesco. O verso <em>\u201cArtista em toda forma de express\u00e3o\u201d<\/em> come\u00e7a a viajar pelos pap\u00e9is mais famosos de Cl\u00e1udia Raia. Nesse trecho, o destaque fica para as fant\u00e1sticas passagens mel\u00f3dicas em <em>\u201cEngra\u00e7adinha na Tv e no cinema\u201d<\/em> e <em>\u201cA favorita dentro do meu cora\u00e7\u00e3o\u201d<\/em>. H\u00e1 ainda uma boa transi\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica deste verso para <em>\u201cSassaricando vem mostrar o seu valor\u201d<\/em>, bem como de <em>\u201cDivina dama que o teatro apresentou\u201d<\/em> para <em>\u201cHoje&#8230; num palco iluminado\u201d<\/em>. A partir desse verso, o samba apresenta sua \u00faltima mudan\u00e7a na constru\u00e7\u00e3o de seus desenhos musicais e volta a apresentar um andamento mais cadenciado. Ainda h\u00e1 uma \u00f3tima passagem em <em>\u201cCl\u00e1udia guerreira a nos emocionar \/ E a Zona Leste \/ Canta forte para te exaltar\u201d<\/em>, mas, um pouco antes, o samba acaba escorregando pela repeti\u00e7\u00e3o do trocadilho com o sobrenome da homenageada, que j\u00e1 aparece no refr\u00e3o principal, no verso <em>\u201cNas Raias da vida a consagra\u00e7\u00e3o\u201d<\/em>. Um outro detalhe que me desagrada um pouco no samba \u00e9 a falta de clareza da letra no sentido de ser cantado em segunda ou terceira pessoa. Agnaldo Amaral tem \u00f3timo desempenho na condu\u00e7\u00e3o do samba, fazendo assim uma das melhores grava\u00e7\u00f5es de sua carreira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas \u00faltimas semanas analisei aqui no Ouro de Tolo os sambas que passar\u00e3o pela Marqu\u00eas de Sapuca\u00ed no Carnaval de 2016. 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